Quando eu era moleque sempre ia às matinês de Carnaval, comprava um espirrador ou seringa (parecidas com garrafinhas de lança-perfume, só que de plásticos) para fazer guerra de água e também jogava talco nos outros. Na mesma época ainda eram vendidas as máscaras de papelão que eram presas com elástico, tinha de pirata, bruxa etc. Ahhhh… o Carnaval de antigamente…

Os bailes tinham suas características imutáveis. Como batalhadoras incansáveis, as marchinhas cantadas eram as mesmas desde os anos 30, na última vez que fui num baile de carnaval em 1982 ainda se cantava as mesmas músicas.

Na verdade, algo mudou. Em 2000, fui a dois bailes na mesma noite e em clubes diferentes. O clima era outro e os antigos sucessos foram substituídos por canções sem humor e poesia.

Em Quarta-feira de Cinzas de Marcelo Saravá, Marjory Abuleac, André Leal e Omar Viñole os personagens saem em busca por esses antigos Carnavais, onde sempre começava ou terminava um grande amor.

Sim, há muitas HQs sobre Carnaval, afinal, quem disse que quadrinhos e folia não dá uma boa combinação? Mas o que transforma Quarta-feira de Cinzas em uma HQ diferenciada de outras do mesmo mote é que todas as palavras trocadas entre os personagens são letras de marchinhas das mais antigas até as últimas compostas ali pela década de 80.

As letras das marchinhas e dos sambas carnavalescos serviram de inspiração para contar a história de um Arlequim à procura de sua Colombina pelas ruas de São Paulo, e como não poderia ser de outra maneira, um Pierrô vai se colocar entre esses dois.

Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga, Adoniran Barbosa, Zé Keti, Lamartine Babo, Noel Rosa, Ataulfo Alves, e muitos outros mestres dos versos da folia são lembrados e saudados nesta HQ. Arlequim, Colombina e Pierrô dão vozes e sentimentos para cada situação. Não estranhe se algo parecer “forçado”, é Carnaval, e nem tudo se desenrola como esperado.

Como extra, os autores se preocuparam em relacionar em um apêndice as obras das quais os diálogos e situações foram retiradas, e explica a origem do Carnaval e de seus personagens icônicos. Um bom material para os curiosos e saudosistas.

Quarta-feira de Cinzas foi lançada no FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte –, em novembro de 2015, uma época um pouco fora das festas carnavalescas, mas que pode ser lida sem hora ou data marcada. Arlequim, Colombina e Pierrô fazem a sua odisseia festiva todos os anos, e os apaixonados travam o seu embate em qualquer salão. Basta você procurar.

Não irei revelar como a história de Quarta-feira de Cinzas vai terminar. Para saber, leia essa homenagem aos carnavais de antanho.

Cuidado, não fique de boca aberta, pois pode levar um punhado de confete goela abaixo.

Quarta-Feira de Cinzas
Edição Independente
Roteiro: Marcelo Saravá e Marjory Abuleac
Desenhos: André Leal
Cores: Omar Viñole
17 x 25 cm
56 páginas
R$ 30,00

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