Lendo Quando a Noite Fecha os Olhos, um belo quadrinho lançado em 2015, me veio muitas referências à mente, e uma delas é um filme de Fellini, “A Voz da Lua”, nele a Lua é capturada por dois irmãos e toda a trama reflete em como é precioso o silêncio, que no mundo moderno, está muito barulhento.

História contada por André Diniz e desenhada por Mário Cau não precisa de muitas apresentações ou esclarecimentos. Quem conhece o trabalho da dupla sabe que não há arrependimentos em adquirir qualquer HQ que eles já tenham produzido, e um trabalho em conjunto então é ouro fino.

Mas verdade seja dita, não esperava nada menos de dois autores que no meio independente já são consagrados, e suas carreiras são marcadas por histórias profundas e reflexivas que sempre agradam boas críticas. Nesse primeiro trabalho conjunto, a dupla reúne o belo texto de André com a arte expressiva de Mario.

O prefácio de Laudo Ferreira é poético, tanto como o título da HQ, que trata de assuntos delicados, mas de maneira muito honesta. E, é claro, como era de se esperar com grande sensibilidade, característica marcante tanto de André como de Mário.

Camilo é professor e quando ele pede um pouco de silêncio aos seus alunos e eles não conseguem ficar nem cinco segundos sem berrar, gritar ou dar gargalhadas por qualquer piada idiota (adolescentes da atualidade). Sempre é noite na vida de Camilo e a Lua sempre o acompanha. Presenciamos reencontros dolorosos, a morte de um tio, volta da família, o pai que não consegue amar o filho, a mãe submissa.

Apesar dos pesares, Camilo segue em frente. Apesar de tudo. Como a personagem de Leila Diniz em “Todas as Mulheres do Mundo” que se recolhe num mundo interior depois da morte do antigo namorado. Resta-nos esperar que um dia Camilo abra a janela e o sol brilhe como nunca e ele volte a sorrir.

Para explorar a psique do personagem foi usado o recurso narrativo com objetos inanimados que são a companhia e os conselheiros de Camilo. O traço forte aliado aos tons de cinza mais essa alusão aos sentimentos e pensamentos mais íntimos do personagem dão ao leitor o exato grau de complexidade do tema e o mundo maluco onde Camilo vive.

Mundo maluco mesmo. São atiradores que entram numa boate e matam 50 pessoas, uma troca de presidentes que prefere descartar a diplomacia pela guerra, a política internacional de ponta cabeça. Um mundo barulhento onde parece que todos esqueceram o sentido da palavra tolerância, mesmo que ela esteja estampada em uma manhã na capa de uma revista LGBT inglesa com o príncipe sorrindo e pedindo mais tolerância.

Inundados por ruídos e a cada momento com novas desilusões só nos resta seguir o exemplo de Camilo e seguir em frente, afinal, preciso destacar uma frase do texto de apresentação da obra: “Traumas do passado – quem não os tem?”

Acho que para eu me encerrar, cabe a frase de Virgílio “amor vincit omnia” – o amor tudo vence.

Quando a Noite Fecha os Olhos
Edição Independente
Roteiro: André Diniz
Arte: Mario Cau
Capa colorida
Miolo PB
72 páginas

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/04/Quando-a-Noite-Fecha-os-Olhos-6.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/04/Quando-a-Noite-Fecha-os-Olhos-6-150x150.jpgFloreal Andraderesenha hqbAndré Diniz,Mário Cau,Quando a Noite Fecha os OlhosLendo Quando a Noite Fecha os Olhos, um belo quadrinho lançado em 2015, me veio muitas referências à mente, e uma delas é um filme de Fellini, “A Voz da Lua”, nele a Lua é capturada por dois irmãos e toda a trama reflete em como é precioso o...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.
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