Esses dias, por acaso, consegui achar um livro que queria ler a muito tempo, “O Demônio do Meio-Dia – uma anatomia da depressão” de Andrew Solomon. Dois dias antes, chegou em minhas mãos a HQ de Paco Steinberg e Hugo Nanni, “Nada Importa”.

Em uma época em que depressão e suicídio está tão em alta na mídia, a HQ é um alerta. Ela conta a história de Paula que, desde pequena, enfrenta o racismo e quando já não consegue aguentar tanta pressão, seu pai a faz prometer não desistir, apesar das ofensas do dia a dia.

Escrita por Paco Steinberg e desenhado pelo artista Hugo Nanni, trata-se de uma história profunda e que, desculpe o trocadilho, “muito importa”. A roteirista consegue tocar de forma sensível uma das maiores doenças do mundo contemporâneo e o faz com um arco narrativo de arrepiar.

É no final que entendemos o “nada importa” em seu título e como ele fica pesado ou até mesmo carregado de sentimentos. Aqui temos que agradecer a parceria com o desenhista Hugo Nanni que com o seu marcante estilo de desenho mais cartunesco dá a leveza que a obra precisa para não se tornar uma dor ainda maior para o leitor. Acredito que se fosse um traço mais sombrio e carregado de preto, a sensação da leitura seria muito mais carregada, e talvez nem tão prazerosa.

Concordo com o Felipe Cagno quando ele diz no texto do prefácio que Nada Importa é uma história necessária. Ela é sim uma HQ que no momento em que você termina de ler, pede uma reflexão. E o caminho dessa reflexão com certeza vai para o momento da sua vida. Tenho certeza que se duas pessoas acabarem de ler e eu perguntar qual foi a reflexão a resposta será diferente para cada, isso devido a história tocar em pontos particulares.

Convivi algum tempo com pessoas próximas a mim que sofriam de depressão. Vi e ouvi todo tipo de argumentos e comentários imbecis como “não tem nada, é só frescura”, “isso é coisa de rico, pobre não pode sofrer desse tipo de doença” e por ai vai. Logo, para mim, a minha reflexão foi como essa doença não perdoa gênero, classe ou cor.

E é uma doença ardilosa. Nas páginas de “Nada Importa”, Paula consegue superar a sua infância. Ela estuda, trabalha e consegue um cargo de direção numa grande empresa. Em determinado momento da sua carreira, ela tem que demitir uma funcionária que sofre de depressão. Infelizmente, tempos depois, é Paula que vai sofrer com a mesma doença.

Acho que esse é o primeiro quadrinho que leio que fala de depressão. São quarenta páginas bem impressas com um conteúdo que de qualidade. A grande sacada é fazer o leitor compreender que mesmo tendo Paula vencido a sua infância e, aparentemente, ter sido bem sucedida nos faz pensar como várias pessoas comuns da vida real passam pela mesma situação e quando menos esperamos o problema continua lá, e está crescendo cada vez mais até que nada importe. Faz pensar.

“Eu não sei de nada, não posso fazer nada. Não compreendo nada. Não sei nada. Nada. E toda essa infelicidade nem me torna especialmente infeliz”. Gerhard Richter (pintor).

Um começo para entender tudo isso e ler a HQ “Nada Importa”.

Nada Importa
Edição Independente
Roteiro: Paco Steinberg
Arte: Hugo Nanni
Capa Colorida
Miolo P&B
40 páginas
R$ 12,00

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/04/nada-importa-1.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/04/nada-importa-1-150x150.jpgFloreal Andraderesenha hqbHugo Nanni,Nada Importa,Paco SteinbergEsses dias, por acaso, consegui achar um livro que queria ler a muito tempo, “O Demônio do Meio-Dia - uma anatomia da depressão” de Andrew Solomon. Dois dias antes, chegou em minhas mãos a HQ de Paco Steinberg e Hugo Nanni, “Nada Importa”. Em uma época em que depressão e...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.