Don-Juan-di-Leônia“mas sempre haverá a parte do jogo. Simplesmente estamos mudando as regras desse jogo, e o que vai desaparecer primeiro são as relações de força. Vamos continuar jogando, mas de igual para igual”, Geneviève Bigey, no filme “O homem que amava as mulheres” (1977).

Por esses dias, eu estava revendo um dos filmes que mais gosto “O homem que amava as mulheres” de François Truffaut, e baseado no roteiro do filme ele escreveu um romance com o mesmo nome. Na apresentação do livro Otávio Frias Filho conta como o mito do Don Juan começou: “… Gregorio Marañon, identifica a semente original nos processos que a inquisição (fim do século 16 e o começo do 17) moveu contra os “alumbrados”…parece que era frequente haver conventos de monjas comandados por um único prior: a ascese e o isolamento terminavam por inclinar o entusiasmo religioso numa direção francamente sexual”

Don-Juan-di-Leônia-2A primeira versão escrita é do frade Tirso de Molina no século 17, depois ele retorna na comédia de Molière, no poema de Byron e na peça de Bernard Shawn (onde o donjuanismo é invertido, as mulheres são caçadoras e os homens as presas), o mito desaparece por um tempo e volta na figura de Bertrand Morane, primeiro no filme e depois no livro de Truffaut.

E de maneira brilhante e revigorante, o mito agora reaparece nas páginas da novela gráfica Don Juan di Leônia, de Dalton Cara, aprisionado no inferno com a eterna vigilância do pai de Inês, que foi transformado em estátua de pedra.

Só por essa pequena introdução já deu para perceber que Dalton foi a fundo nas pesquisas. Fora as referências mitológicas, o autor que lançou o álbum no ano passado de maneira independente, consegue dar uma vitalidade à história colocando elementos da cultura pop que poderia entrar em conflito com a trama. Quer um exemplo? Don Juan carrega uma espada falante atômica!

Don-Juan-di-Leônia-3O roteiro é extremamente bem construído. Três mulheres mascaradas evocam o diabo e falam como Don Juan pode ser atormentado, já que as torturas físicas do inferno não afetam o conquistador. Alvo de uma misteriosa aposta, Don Juan tem a liberdade do inferno durante um dia, mas com a obrigação de conquistar três mulheres: Cleópatra, Marylin Monroe e Helena de Tróia.

A narrativa é cheia de surpresas e reviravoltas. Por trás desse desafio há um plano de vingança, e essas mulheres terão que deixar marcas eternas na alma de Don Juan. Com um visual exuberante e cores hipnotizantes, vamos acompanhar o eterno conquistador na cidade de Leônia, rodeada de tecnologia por todos os lados.

Apesar de ser a sua primeira história em quadrinhos solo, Dalton já tem experiência nos quadrinhos em outros títulos que assina em parceria com outros quadrinhistas, além de ser ilustrador de longa data de capas e matérias de grandes revistas de circulação nacional. Se o roteiro é bem amarrado, a arte é extremamente bem pensada, na diagramação, enquadramento, ritmo e flashbacks. Dá para sentir que Dalton também colocou toda a sua experiência como designer e infografista nas páginas de Don Juan di Leônia.

Don-Juan-di-Leônia-5Além da arte belíssima (não vou me cansar de repetir) que é dinâmica com detalhes precisos, ou seja, há um equilíbrio entre personagem e cenário, a paleta de cores é uma aula à parte de como o uso das cores tem função narrativa, e como o autor deve ter se esforçado e estudo ao máximo para conseguir o resultado final, afinal, não podemos esquecer que essa é uma edição independente, e que foi impressa no Brasil. Tenho certeza que não foi nada fácil o momento da impressão. Percebe-se que Dalton escolheu cuidadosamente as cores, o papel a ser impresso e principalmente, o resultado dessa impressão. Projeto gráfico de primeira.

Quem vai ganhar? Quem vai perder?

Só lendo essa HQ bacana e com um final prá lá de surpreendente.

Don Juan di Leônia
Independente
Autor: Dalton Cara
Acabamento: Brochura
Colorida
112 páginas
17 x 26 cm
R$ 40,00

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/03/Don-Juan-di-Leônia-1.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/03/Don-Juan-di-Leônia-1-300x300.jpgFloreal Andraderesenha hqbDalton Cara,Don Juan di Leônia“mas sempre haverá a parte do jogo. Simplesmente estamos mudando as regras desse jogo, e o que vai desaparecer primeiro são as relações de força. Vamos continuar jogando, mas de igual para igual”, Geneviève Bigey, no filme “O homem que amava as mulheres” (1977). Por esses dias, eu estava revendo...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.