catacumbaOs quadrinhos de terror brasileiros da década de 50 mudaram o gosto dos leitores do gênero, antes acostumados a estórias de vampiros, maldições do Egito antigo e fantasmas em castelos. Todas produzidas no exterior.

A partir dos anos 50, e com a produção nacional em alta, agora era a vez das casas mal assombradas do interior do Brasil, dos cadáveres já decompostos que saem do túmulo em busca de vingança, procissões de mortos, uma maneira diferente de contar estórias de horror, chamado por alguns de olho seco.

Essas histórias foram logo assimiladas pelos leitores, que viram na proximidade com o seu cotidiano um apelo maior. Para se ter uma ideia, na época, perto da minha casa havia uma casa abandonada que a molecada dizia que era mal assombrada. A estória era que na noite de um velório, o assoalho havia afundado, levando o caixão e quem estava na sala para o buraco aberto.

palhinhaCatacumbaKiko Garcia retorna as origens do terror nacional em seu lançamento independente Catacumba. São três HQs que nos trazem o saudosismo da era de ouro dos quadrinhos nacionais de terror.

Em “Gaspar” um casal é atormentado na sua velha casa por uma voz que chama Gaspar noite adentro e passos na velha escada. Nada é encontrado até que uma noite…; “Terror na Escada” mostra dois ladrões numa São Paulo do início do século 20 e uma escadaria que guarda uma maldição; “Um Corpo que Sobe” conta a agonia de um escritor que tenta terminar um conto de terror. A ficção e a realidade se misturam ao sangue e o cheiro de carne apodrecida.

Na homenagem ao grande artista Jayme Cortez feita pela Press Editorial nos anos 80, um antigo desenho de outro grande desenhista de quadrinhos, Lírio Aragão, mostra Cortez falando como deve ser uma HQ de terror: “em branco e preto, traços retorcidos e nebulosos”. Kiko Garcia segue esse caminho, e faz isso de maneira muito bem executada.

No melhor estilo dos programas antigos de terror e suspense como Contos da Cripta e Acredite se Quiser, aonde um narrador apresentava os “casos” da noite, Kiko em sua narrativa gráfica trabalha muito bem o preto e o branco. Sombras chapadas, grande áreas de preto e alto contraste aumentam ainda mais a sensação de suspense que a HQ exige.

Não sei ao certo dizer se foi proposital essa “homenagem” aos quadrinhos nacionais de terror que fizeram tanto sucesso nos anos 50, mas Kiko com certeza realiza um belo trabalho que prova que nenhum gênero de quadrinhos está morto e enterrado. Alguns só estão esperando bons quadrinhistas para tirá-los das catacumbas.

Catacumba
Edição Independente – Kikomics
Autor: Kiko Garcia
Preto e branco
36 páginas
18 x 26 cm
R$ 15,00

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2015/07/catacumba_detaque.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2015/07/catacumba_detaque-300x300.jpgFloreal Andraderesenha hqbCatacumba,Kiko Garcia,KikomicsOs quadrinhos de terror brasileiros da década de 50 mudaram o gosto dos leitores do gênero, antes acostumados a estórias de vampiros, maldições do Egito antigo e fantasmas em castelos. Todas produzidas no exterior. A partir dos anos 50, e com a produção nacional em alta, agora era a vez...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.