Um poema de Guerra (ou aquela recontagem daquele personagem daquele autor, sabe?).

Sabe aquele gibi que você tem, mas que não sabe quando foi lançado, quem comprou ou porque aquilo está na sua estante? Aquela que você namora anos antes de ler, e quando lê, não entende nada? Sabe aquela que você lê novamente quando adulto e não entende como nunca leu aquilo antes? Bem, assim foi para mim Ás Inimigo – Um Poema de Guerra.

Vamos começar do começo, sim? Eu não fazia idéia quem era aquele velhinho, não fazia idéia de quem era o Barão Vermelho (Não, não o do Cazuza) e nem entendia muito da primeira guerra quando li pela primeira vez isso aí. Devia ter por volta de doze ou treze anos, algo assim e simplesmente não gostei.

“Qual a graça? Tem um velhinho que fica falando, desenhos super confusos e um cara chatinho que é repórter mas não é repórter, e o que significa ‘ás inimigo’? Os caras publicam um gibi com erro de concordância! Prefiro o Aranha Escarlate”.

É, eu sei, é triste. Então depois disso o encadernado ficou lá, em casa, indo para lá e para cá, sem ninguém dar atenção. Guardado, amarelando.

Quando eu servi a pátria amada e estudei estratégias de combate antiaéreo e essa coisa toda, eu lembrei que tinha um gibi em casa que falava de um lance assim. Procurei no armário todo, e só encontrei porque o botão fazia um volume diferenciado (Aqui abro um parênteses para dar o braço a torcer para a Abril: a encadernação é linda, com papel de alta qualidade e vem com uma capa de plástico que tem um fecho com um botão, estilo uma capa de chuva. Acho que foi a encadernação mais competente que já vi na Abril).

Aí o lance caiu feito pedra na barriga. Começou que quando eu peguei ele na mão eu entendi: Mula! É sobre um Ás, e ele é do exército Inimigo. Como você é burro! (É sério, me recordo desse pensamento ser exatamente assim. Deu para ouvir a ficha caindo). Aí eu fui passear pelas páginas daquele gibi tão bem encadernado. E George Pratt me ensinou um pouco mais sobre o que era ser um homem.

Cara, como foi incrível ler tudo aquilo. Eu tava de farda ainda, e li devagar, olhando os painéis, as cores usadas, o triplano, o sangue, a cena na trincheira eu demorei um tempão para seguir em frente. As pequenas citações, as aberturas de capítulos (provavelmente a segunda capa das edições originais) tudo aquilo fazia com que se expandisse a obra em níveis que não conhecia, nem em gibi nem em mim.

Eu não sabia nada sobre Hans Von Hammer, não conhecia suas histórias originais, não conhecia o Barão Vermelho, e sabia só o que se aprende no colégio sobre a Primeira Guerra. E ainda sim aquilo calava fundo, ainda sim eu sabia que mesmo sem pisar num front oficial, com trincheiras e gás, eu iria travar a minha guerra, e eu tive ali a total noção de que apesar de ser menos feia de que a deles, a minha não seria menos brutal. Essa é claro a metáfora óbvia da obra, que todos temos as nossas guerras para travar, e que elas mudam a gente, e que uma vez que se pisou no front de batalha tudo o que se pode fazer e lutar com todas as nossas forçar, torcer para que nossos companheiros de batalhas não nos abandonem e que voltemos um dia para casa.

Acho que o niilismo de saber que mesmo que se ganhe, se perde, encerra a velha questão que é crescer, que é olhar para fora das suas própria trincheira e saber que mesmo que nunca venha o tiro, o gás ou as bombas fatais, só de estar ali não seremos mais os mesmos. Nem deveríamos ser.

Moonshadow é mais bonitinho, e sua estrada para o despertar é mais lírica em um sentido mais romantico, devo admitir, mas Um Poema de Guerra funciona mais como um tapa na cara, muito mais próximo de como meu sargento tentava nos fazer amadurecer a fórceps e acho que isso talvez tenha falado mais diretamente comigo na época. A cena que Von Hammer conta que ainda vê, nas sombras, os inimigos tombados em batalha, descreve seus olhares e suas falas e conclui que não foram eles que perderam a guerra é absolutamente avassaladora.

Permanecer vivo e olhar por sobre os fossos com arames farpados e ver nada a não ser desolação, perder irmãos dos dois lados e ter de permanecer em pé, ter de permanecer lutando, ter de permanecer vivendo simplesmente por que a alternativa é ainda pior, bem, ainda estou para ver uma metáfora em quadrinhos tão forte para crescer, para amadurecer, para viver a guerra e tentar sobreviver do que essa. Sério, se tiver por aí, me mostrem.


Ele me lembrou muito o seriado do Indiana Jones (alguém lembra disso?) no seu formato, esse recurso de pegar o personagem já velho, olhar como ele envelheceu, o que se tornou e ficar voltando para suas histórias de glória, mesclando seus pensamentos, trazendo um olhar maduro para reavaliar tudo. E o jovem soldado ali, tentando descobrir a chave da sobrevivência do outro, da sanidade do outro, isso é a melhor metáfora sobre humildade, sobre impotência, sobre limitação que há! Mesmo sobrevivendo à sua guerra pessoal há quem tenha feito antes e melhor!

As guerras são iguais, mas cada um luta a sua!

Bruno Garciado fundo da estanteÁs Inimigo,George Pratt,guerra,Hans Von HammerUm poema de Guerra (ou aquela recontagem daquele personagem daquele autor, sabe?). Sabe aquele gibi que você tem, mas que não sabe quando foi lançado, quem comprou ou porque aquilo está na sua estante? Aquela que você namora anos antes de ler, e quando lê, não entende nada? Sabe aquela...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.