Na última sexta-feira, ao cair da noite, eu estava em Belo Horizonte parado no trânsito congestionado. De repente, percebi a movimentação de uma figura trajando um terno amarelo e segurando uma placa alguns carros à frente. Reconheci o modus operandi e pedi ao meu amigo que estava no volante para buzinar, atraindo atenção da figura… Não me enganei. Era o folclórico quadrinhista Lacarmélio Alfêo de Araújo, mais conhecido pelo nome de seu personagem, Celton.

Lacarmélio nasceu no dia 17/05/1959 em Itajutiba, município de Inhapim (MG), onde viveu até os 13 anos, quando se mudou para capital mineira (em que reside até hoje). Sua primeira residência em Belo Horizonte era um barracão de três quartos, sem água, no bairro Vera Cruz e para ajudar em casa na época ele vendia picolé, mexerica e salgadinhos, além de ser engraxate no Parque Municipal.

Desde criança, Lacarmélio gostava de escrever e desenhar HQs e em 1975 ele criou Celton, identidade secreta do super-herói Homem-Felino, protagonista de 28 revistinhas, feitas puramente por hobby. Esses quadrinhos eram lidos enquanto o garoto engraxava os sapatos. “Histórias de continuação”, como ele diz, para que os clientes voltassem sempre.

Aos 18 anos, Lacarmélio fez várias viagens para São Paulo e Rio de Janeiro em busca das editoras de quadrinhos. Uma dessas viagens para Sampa foi de bicicleta e levou 4 dias.

Em agosto de 1981, cansado dos “nãos” dos editores, ele deixou o emprego de auxiliar de escritório e fez um empréstimo bancário para publicar Celton, mas a revista foi um fracasso de vendas nas bancas. Desesperado com a situação, Lacarmélio partiu para a venda nos bares da zona sul de BH. Como as vendas não se sustentavam, o obstinado artista passou a trabalhar como desenhista de publicidade.

No início da década de 1990, Lacarmélio foi para os Estados Unidos e conseguia dinheiro tocando Beatles nos metrôs de Nova Iorque com um violão. Após seis meses ele voltou a publicar e vender quadrinhos nos bares da capital mineira por dois anos consecutivos, mas sentindo que os problemas financeiros poderiam recomeçar, decidiu montar uma mini-gráfica. Apesar das dificuldades, Lacarmélio sempre se sentiu vivo e feliz fazendo quadrinhos.

Seis anos depois, motivado como nunca, ele reformulou suas criações e passou a trabalhar com ainda mais disciplina, buscando administrar seus recursos com bastante atenção. Outro ponto importante foi o cuidado com a aparência, o palavreado e o comportamento, além da humildade para progredir.

Se nas publicações dos anos 1980, os personagens de Lacarmélio tinham influência da Marvel e DC Comics, com nomes estrangeiros e tal, agora suas histórias se passariam em Belo Horizonte. A ideia foi colocar Celton interagindo com as locações da cidade, estudadas e retratadas com dedicação, além do emprego de computação gráfica no processo de produção para aprimorar o acabamento da revista.

Mesmo assim, ainda não era possível viver da venda nos barzinhos. Entre outras tentativas, Lacarmélio se aventurou nos sinais de trânsito, desenvolvendo um estilo próprio de vendas, munido de uma placa e trajes vistosos. E logo vieram os êxitos. Ele comprou uma moto, com a qual pode aumentar seu raio de ação. A partir de então, depois de quase vinte anos, o artista finalmente começou a viver da revista.

No começo de 1999, matérias na Rede Globo e na Rede Minas garantiram notoriedade e reconhecimento por parte da mídia nacional. Em 2001 veio à participação no Programa do Jô e também no Leila Entrevista, assim como no Globo Repórter.

O reconhecimento abriu as portas para propostas extraordinárias, como o convite da Petrobras em 2007 e 2008 para produção de edições especiais de Celton, que resultou na tiragem para distribuição gratuita de 200 mil exemplares em BH e Tiradentes, MG.
Lacarmélio recebeu convites também para o desenvolvimento de uma edição na Bienal do Livro (lançada em 2008), participou de comercial de cerveja, foi homenageado no Festival Internacional de Quadrinhos e recebeu prêmios da prefeitura por sua obra.

A revista continua independente como sempre, impressa em off-set, bancada exclusivamente pelas vendas da mesma feitas pelo autor nas ruas. A tiragem de uma edição começa com 10 mil exemplares e pode aumentar quando a história cai na “graça do povo” como define o autor.

Em 2009, o autor voltou a viajar para São Paulo, trinta e dois anos depois de suas primeiras incursões em busca de editores para publicar seu trabalho. Dessa vez, ele foi para vender suas HQs, da mesma forma que faz com sucesso na capital mineira… Exatamente como no começo da noite da última sexta, no trânsito congestionado. Nessa ocasião recente, Lacarmélio, ou “Celton” se preferir, que ganhou notoriedade na mídia há alguns anos, pela trajetória esforçada e, principalmente, creio eu, por seu método, se aproximou do carro.

Apoiada no ombro estava à placa em que se lê “vendo histórias em quadrinhos que eu mesmo faço” mais algumas informações sobre o conteúdo da edição vigente. Um sorriso sincero no rosto.

Rapidamente saquei o dinheiro para comprar o número 28 do gibi Celton, intitulado “Ricardão e o Touro Feroz”, e comentei que era um fã, quadrinhista de Divinópolis (MG), que havia lhe enviado algumas revistinhas igualmente autorais há algum tempo.

Acabei comprando uma, mas fui presenteado com outras duas HQs feitas pelo ávido, folclórico e generoso artista, que no ano passado protagonizou o livro “O Fazedor de Histórias, As lições do maior vendedor de gibis independentes do Brasil”.

Uma honra para mim.

Dennis RodrigoquadrinhosCelton,Lacarmélio Alfêo de AraújoNa última sexta-feira, ao cair da noite, eu estava em Belo Horizonte parado no trânsito congestionado. De repente, percebi a movimentação de uma figura trajando um terno amarelo e segurando uma placa alguns carros à frente. Reconheci o modus operandi e pedi ao meu amigo que estava no volante...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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