Visto no Blog dos Quadrinhos

“Discutindo Literatura”, lançada nesta semana, dedica edição especial às histórias em quadrinhos.

A discussão é antiga: quadrinhos são literatura?

A questão, que já caminhava para um consenso entre os pesquisadores da área, volta à pauta por conta da edição especial da revista “Discutindo Literatura” (Escala Educacional, 68 págs., R$ 7,90).

A publicação literária, que começou a ser vendida nesta semana nas bancas, aborda especificamente o universo das histórias em quadrinhos.

Antes de avançar a discussão, é preciso registrar que a revista tangencia a questão.
Os doze artigos da publicação especial, assinados por diferentes profissionais da área, preocupam-se mais em dar uma visão geral dos quadrinhos do que se enfronhar no teor literário deles.

Mas o tema aparece aqui e ali, ora nos textos, ora em algum dos títulos. A capa, por exemplo, destaca os “quadrinhos literários de Alan Moore e Neil Gaiman”.

A discussão sobre o caráter literário dos quadrinhos data de, pelo menos, fins de 1960 e início dos 70, época em que iniciaram os estudos teóricos a respeito da linguagem.

Vítimas do preconceito social e acadêmico que pairava sobre os quadrinhos, os pesquisadores brasileiros procuravam destacar em suas obras argumentos que autorizassem o estudo do tema.

Era muito comum ler que determinado escritor renomado gostava de quadrinhos -eram citados sempre os mesmos nomes- ou que a linguagem tinha uma verniz literário.

Alguns arriscavam dizer que era uma “forma de literatura”, sem perceber que a expressão só ajudava a pôr os quadrinhos num segundo plano, à sombra do literário.

Por mais bem-intencionados que fossem esses escritos -e eram-, tais registros só buscavam na literatura um rótulo socialmente aceito para justificar a pesquisa em pauta.
E a literatura, historicamente, é uma área bem vista socialmente, pela mídia, pela academia.

Há décadas as faculdades de Letras credenciam com destaque os estudos literários, tanto na graduação quanto na pós-graduação.

Escorar-se na literatura sugeria um apelo a um primo próximo e mais rico e famoso, o literário, para que usasse seu prestígio para permitir que os quadrinhos, o primo pobre, transitassem pelo mesmo espaço.

A duras penas, as pesquisas resistiram aos anos 1970. Tiveram uma rápida retomada nas duas décadas seguintes e registram neste século um significativo aumento no volume de estudos.
Esses novos trabalhos acadêmicos têm convergido para a leitura de que quadrinhos não são literatura.

Quadrinhos são quadrinhos, uma linguagem artística autônoma, tal qual o são o teatro, o cinema, a dança e tantas outras formas de manifestação, a literatura entre elas.

Os quadrinhos tendem a ter textos narrativos, como a literatura.

Possuem personagens, narrador, espaço, tempo, enredo, tal qual a literatura.

Mas representam visualmente os elementos narrativos por meio de personagens e cenários, encapsulados em quadrinhos. Os diálogos, na maioria das vezes, são mostrados por meio de balões.

Essas características são os elementos fundamentes da linguagem autônoma dos quadrinhos. E a diferencia da literária.

Claro que há pontos em comum. A presença dos elementos narrativos é um deles. A escrita de uma história na forma impressa é outra semelhança.

Mais um ponto comum são as adaptações literárias em quadrinhos, que ganharam fôlego de 2006 para cá, muito por causa da lista do PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola).

O programa do governo federal compra anualmente lotes de livros e quadrinhos e os distribui a escolas dos ensinos médio e fundamental de todo o país.

Em 2009, serão levadas 600 obras aos estudantes, 19 delas em quadrinhos.

As adaptações -que compõem um gênero autônomo, a literatura em quadrinhos- permitem um diálogo mais próximo entre os dois campos artísticos.

Mas não se deve perder de vista que se trata de um diálogo.
Assim como ocorre entre quadrinhos e cinema (há fartura de exemplos), quadrinhos e teatro, quadrinhos e televisão.

Essa leitura é pautada em estudos acadêmicos, realizados aqui no Brasil nos últimos anos.

O porém é exatamente esse: é pautada em estudos acadêmicos.

E o que se discute dentro da universidade nem sempre é o que se conversa fora dela.

É o caso.

Vejamos o mesmo caso do ponto de vista do não-leitor de quadrinhos.

O professor recebe na escola um lote de livros para serem utilizados em práticas pedagógicas em sala de aula. No meio do montante de obras, algumas são em quadrinhos.
Esse professor está autorizado a pensar, por uma inocente ignorância do tema, que aqueles álbuns desenhados com quadrinhos sejam uma espécie de literatura.

O próprio governo federal via os quadrinhos como forma de literatura nos últimos três anos.

Nas livrarias, local conhecido por vender livros, os leitores encontram obras em quadrinhos nas estantes, produzidas em formato de livro.

Esse leitor também está autorizado a aproximar o livro que tem em mãos daquele produzido com o auxílio de imagens.

Para ele, ambos seriam literatura. Ou uma forma de literatura, na falta de termo melhor.
As adaptações literárias são as mais fáceis de serem assemelhadas à literatura tradicional. Afinal, nela se pautam.

Tal visão é compartilhada por alguns dos chamados “formadores de opinião” de cadernos de cultura brasileiros.

Sem terem uma visão completa da área dos quadrinhos, surpreendem-se com tantas obras literárias em quadrinhos e álbuns nacionais produzidos no formato de livro.
Essa mistura de olhares já gerou situações inusitadas nos últimos meses.

A adaptação literária de “O Alienista”, de Machado de Assis, feita por Gabriel Bá e Fábio Moon, venceu uma das categorias do Prêmio Jabuti, o mais prestigiado da área de literatura no país.

Neil Gaiman, autor da série em quadrinhos “Sandman”, foi à Flip (Festa Literária de Parati), na qualidade de romancista.

Mas foram os fãs do mestre dos sonhos que garantiram uma das mais longas filas de autógrafos desde que o evento foi criado. E Gaiman desenhava um Sandman em suas assinaturas.

É preciso respeitar o olhar de quem não lê quadrinhos. Isso é conseqüência de décadas de uma associação dos quadrinhos a uma leitura meramente infantil e, por isso, desqualificada ou de baixo teor informativo e estilístico.

A edição especial da revista “Discutindo Literatura” mostra a esse público que há muito mais por trás da superfície infantil da área.

Mas, ao mesmo tempo, tende a sugerir aos leitores que quadrinhos sejam literatura.
Quadrinhos não são literatura. Pelo menos, do ponto de vista de muitos acadêmicos.
Esse olhar é compartilhado por este jornalista, que também é pesquisador da área.

Cabe agora a aos acadêmicos encontrarem formas de evidenciar esse ponto de vista à sociedade atual, tão assustada com a presença de quadrinhos nas escolas e nas livrarias e, ao mesmo tempo, tão carente de respostas, historicamente adiadas.

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Renato LebeauquadrinhosDiscutindo Literatura,histórias em quadrinhos,HQsVisto no Blog dos Quadrinhos 'Discutindo Literatura', lançada nesta semana, dedica edição especial às histórias em quadrinhos. A discussão é antiga: quadrinhos são literatura? A questão, que já caminhava para um consenso entre os pesquisadores da área, volta à pauta por conta da edição especial da revista 'Discutindo Literatura' (Escala Educacional, 68...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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