Spoiler: não há

Devo admitir que “torci o nariz” quando anunciaram o primeiro jogo do Batman para a geração atual de videogames. Eu esperava por mais um fracasso, naturalmente pelo porco e insalubre uso das licenças dos personagens da Marvel Comics. Contudo, o meu pessimismo abobado e prematuro se provou falho.

Batman: Asylum Arkham soube capturar toda a essência obscura, insana e caótica dos personagens dos quadrinhos para os games. A desenvolvedora Rocksteady conseguiu fazer uma releitura delirante de um dos super-heróis de maior valia e conhecimento da DC Comics.

Com a fé recuperada e glaciado pela uberdade do primeiro jogo expectei positivamente por Arkham City. Novamente, talvez por ser tolo, fui surpreendido, mas não pelo acaso da decepção, muito pelo contrário.

Imaginava uma sequela melhorada e estruturalmente bem trabalhada, mas nada comparado ao perfeccionismo que o jogo realmente oferece. Não seria exagero dizer que Arkham City é a maior execução de uma licença advinda dos quadrinhos para os games.

Como no primeiro jogo, ficou incumbida a responsabilidade de fazer o roteiro de Batman: Arkham City ao escritor, Paul Dini, criador da espalhafatosa e pirada, Arlequina, na série animada do Batman exibida no Brasil na década de 1990.
A decisão foi acertada, sua experiência com o morcegão transforma Dini num dos principais nomes criativos com habilidade suficiente para elaborar uma boa história do Cavaleiro das Trevas.

O escritor não teve timidez em desconstruir a estrutura política e social de Gotham e inspirado no filme Fuga de Nova York, ele traçou uma lunática e desesperadora história onde a realidade da cidade, nos quadrinhos, é totalmente alterada no game.

Na trama, o prefeito e ex-diretor do Asilo Arkham, Warden Quincy Sharp, aparentemente incomodado com o agigantamento do crime, mura os bairros de Gotham, sitiando e transformando a cidade numa grande prisão.

Inconformado com a insanidade do prefeito, o bilionário, Bruce Wayne (Batman) questiona os motivos na imprensa e por tal insubordinação é aprisionado por ordens do doutor Hugo Strange, responsável pelo policiamento dos presos.

O enredo é fantástico, muito acima das histórias que vêm sendo publicadas nos quadrinhos do Homem-Morcego. Além disso, a atuação dos dubladores tem sua importância na execução dos diálogos, altamente trabalhados e elaborados.

Até mesmo os capangas se situam na mecânica construtiva de Arkham City, possuindo diálogos elucidativos e convincentes.

O maior destaque fica para Mark Hamill, conhecido mundialmente pelo papel de Luke Skywalker, na primeira trilogia de Guerra nas Estrelas (Star Wars). O ator dá show, demonstrando total afinidade com o comediante louco. É sem dúvida nenhuma, uma das melhores interpretações do vilão circense já feita.

Um homem contra uma cidade inteira
Gotham é um presídio repleto de facções criminosas espalhadas por ruas e edifícios. Cada facção é liderada por um dos lunáticos foragidos do Asylum Arkham: Coringa, Charada, Duas-Caras, Pinguim e Bane. O jogador se deparará com uma tormenta variável de desafios e seus punhos, ao menos os do personagem controlado, serão a principal arma contra os reclusos.

Os controles são simples e o desafio, nas dificuldades intermediária e casual, é relativamente tragável. Contudo na dificuldade mais elevada o negócio é outro, os capangas ficam mais resistentes a socos e chutes, além de infringirem mais danos ao avatar, tornando o combate mais demorado e perigoso; em alguns casos confrontar muitos inimigos pode ser uma péssima ideia.

Como no título anterior, o jogador poderá dar cabo dos criminosos usando as sombras e elementos do cenário. As gárgulas estão de volta, assim como as passagens de esgoto e as paredes destrutivas, contudo, foram incluídas novas possibilidades ao jogador de finalizar o seu oponente sem ser visto.

No controle de Batman e seu incrível gancho retrátil, o jogador pode escalar e acessar quase todos os lugares de Arkham City. Os programadores incluíram também desafios que ampliam a mobilidade aérea do Homem-Morcego quando este plana ao pular de prédio em prédio.

O principal diferencial da jogabilidade de Arkham City é o modo detetive, uma visão especial que possibilita ao jogador fazer varredura termal de corpos e de pistas para completar desafios e quebra-cabeças, tanto da missão principal quanto das missões secundárias, para concluí-las.  Com a varredura termal é possível observar a posição dos inimigos até mesmo atrás das paredes, sendo imprescindível o uso em áreas fechadas com grau de hostilidade bélica.

O cinto de utilidades do Batman faz jus ao nome. Os bat-aparelhos auxiliam o Homem-morcego nos combates face a face, a alcançar partes de difícil acesso no cenário e a solucionar charadas espalhadas por Gotham.

Por falar em charadas, elas são uma diversão à parte estando espalhadas pelo jogo, exigindo do jogador raciocínio para coletar troféus e extras. Algumas delas são inteligentemente mortais.

O jogador não terá acesso no começo do jogo a todos os equipamentos do cinturão, mas poderá adquiri-los à medida que angaria pontos de experiência ao completar desafios e partes da trama.  Ele poderá comprá-los e acessá-los junto a tutoriais.

Aliás, o excesso de tutoriais e dicas é um dos pontos a serem citados e observados. A Rocksteady se preocupou e muito com o jogador casual, em praticamente todo jogo, dicas aparecem na tela, mesmo depois de cumpridas facilitando o andamento da trama.

O problema é que nem todos os jogadores gostam de ser ajudados, quanto mais em excesso. Existe a possibilidade de desligar o tutorial na janela de configuração do jogo, mas aparentemente, nem todas as funções de ajuda são desligadas. Em casos mais graves as dicas aparecem em letras garrafais no centro da tela sujando o ambiente.

Entretanto, após fechar o jogo pela primeira vez, em qualquer dificuldade, um novo e mais difícil modo de jogo é destravado, limando todas as dicas e tutoriais. Bem que os desenvolvedores poderiam ter colocado essa opção desde o início para os jogadores que buscam maior desafio.

O mundo sem sol de Arkham City
Cenários abertos e grandes viraram clichê entre as empresas que optam por fazer jogos de super-heróis e Arkham City não é diferente de seus irmãos. Tal liberdade pontualiza positivamente a carreira de vigilante mascarado, com missões e desafios espalhados pelos cantos.

O design do jogo é magnifico e hipnotizante, copia a excêntrica personalidade gótica do cineasta, Tim Burton.  O sombreamento noturno e o ar sinistro e assustador das construções são uma homenagem aos primeiros filmes do Cavaleiro das Trevas.

E numa cidade que não tem sol, a escuridão e a podridão da sociedade reinam. Todas as castas terrificantes que não deram certo saboreiam os corredores mefíticos e perigosos como ratos no período de acasalamento.  Mas é a loucura escondida nas mentes dos personagens o sal vigente que dá gosto à arquitetura fúnebre e macabra da cidade.

Batman não tem a mente sã, longe disto. Ele é tão insano quanto os perigosos doentes mentais que ele caça. E a arte de Arkham City é uma travessia sem volta para a completa insanidade. Torres enormes e imponentes alardeiam a plenitude das trevas que rodeiam cada cidadão de Gotham, uma distância enorme do chão e inferno que vivem.

Inteligentemente os desenvolvedores conseguiram capturar essa metáfora, metáfora que muitos fãs do Cavaleiro das Trevas deixam passar despercebida. A máscara do morcego não é só uma defesa a identidade de Bruce Wayne, ela é o retrato obscuro do personagem e uma parte do seu passado.

Se a cidade é baseada na loucura de Wayne, ela deveria conter traços da loucura de seus antagonistas, e tem. Cada corredor escuro de Gotham respira o ar insano de seus criminosos. As gotículas de neve que caem sem se opor a negridão do chão e do céu noturno fazem alusão à chorosa covalência de Arkham City.

O design dos personagens melhorou em relação ao título anterior. Fora adotada uma nova paleta de cores realçando realisticamente a pele humana. As mulheres receberam maior atenção, perdendo um pouco da truculência, e ganhando formas provocantes e sensuais.  Os cabelos também estão mais miméticos, um luxo da Unreal Engine 3.

Mas nem tudo denota capricho, uma Gotham sem sol permite erros nas texturas de algumas edificações e até mesmo resolução baixa devido à natureza do seu ambiente. O jogo roda em 720p no Xbox 360 e PS3. Como todo o cenário é escuro tais defeitos fogem aos olhos ou ficam difíceis de serem vistos, contudo, olhares mais atentos não deixarão escapar esses pequenos defeitos.

Os cenários fechados possuem ótimas texturas, no entanto, ainda há atraso no carregamento delas, um encargo comum do motor do jogo, a Unreal Engine 3, mas isso acontece em poucas ocasiões e sutilmente.

Mulher-Gato
Há uma moda agora nos estúdios de videojogos de incluir em seus títulos um passaporte online.

Pois é. Com essa nova medida, o consumidor não é mais proprietário majoritário do jogo que compra. Bem mais essa não é a questão.

Batman: Arkham City é um jogo single-player, não sendo necessário jogá-lo com a internet ligada. Acontece que a Rocksteady a fim de agraciar os fãs e os executivos da Warner colocou um código de liberação cujo prêmio é a Mulher-Gato jogável.

Para liberá-la o jogador tem que digitar o código e estar conectado nos servidores da Playstation Network e da Live.

Basicamente a Mulher-Gato provém de habilidades distintas se comparadas com a do Homem-Morcego e pode acessar áreas antes inatingíveis. Ela é muito rápida e seus golpes possuem ótima destreza.

Sua história é curta, porém esclarecedora, sendo amplamente recomendável salvá-la para entendimento da trama.

Trilha musical de Batman: Arkham City
A trilha musical de Arkham City fora composta por Nick Arundel e Ron Fish. Arundel leva a maior parte dos créditos. O compositor se inspirou na clássica suíte de Danny Elfman para o Batman de Tim Burton, deixando de lado o som industrial de Hans Zimmer de The Dark Knight.

As músicas são muito bem orquestradas e contribuem com a atmosfera caótica e pesarosa do game. Contudo, não possuem o mesmo peso das mãos de Elfman. Na verdade, devido o ótimo trabalho no desenvolvimento do jogo, a trilha quase passa despercebida aos ouvidos frente à ação espontânea e prazerosa de Arkham City, tendo maior presença nas cutcenes do jogo.

A faixa nos créditos finais é arrepiante e extremamente séria. Um doce amargo e gostoso após o fim de uma aventura dura e eletrizante.
A Warner também lançou um álbum de divulgação do jogo no dia 4 de outubro, com a contribuição de vários artistas. Quem adquiriu a versão de colecionador recebe no pacote esse álbum e a trilha original de Nick Arundel e Ron Fish.

Localização
Se a Warner Brasil pisou na bola na localização de Mortal Kombat o mesmo não aconteceu com Batman: Arkham City. A produtora traduziu todos os textos do jogo, inclusive as charadas e as senhas dos painéis de segurança.

Finalmente o jogador brasileiro entenderá no bom e velho português a história sem precisar fazer um curso de inglês e espanhol. E fica a torcida que todos os grandes títulos venham pelo menos legendados na nossa língua e que o próximo jogo do Cavaleiro das Trevas tenha uma dublagem semelhante a Batman: A série animada.

Jogo do ano?
Com tantos lançamentos a vir no final do ano, o que inclui o já lançado e também excelente The Witcher 2: Assassins of Kings, Batman Arkham City surge como favorito com uma história digna e impecável, design fantástico e Jogabilidade arrebatadora.

Se você ainda não fez a sua compra ou está em dúvida em fazê-la, bem, a hora é agora. Batman Arkham City vale todo o investimento apesar do preço salgado cobrado pela versão dos consoles. Além disso, o jogo tem legendas em português.

Batman: Arkham City
Desenvolvedora: Rocksteady Studios
Publicadora: Warner Bros. Interactive Entertainment
Distribuidora: Time Warner, Square Enix
Diretor: Sefton Hill
Escritor: Paul Dini
Plataformas: Playstation 3, Xbox 360, Wii U e PCs
Plataformas avaliadas: Playstation 3 e Xbox 360
Data de lançamento no Brasil:    20/10/2011
Gênero: Ação-Aventura, Furtivo
Série: Batman
Idioma do jogo: Inglês (áudio e legenda), espanhol (legenda), francês (legenda) e português brasileiro (legenda).
Modos de jogo: Single-Player Off-Line, Online Pass
Número de jogadores:     1
Mídia: DVD-DL, Blu-Ray
Preço: R$ 199,90 (Consoles), R$ 99,90 (PC)
Classificação etária: 16 anos
Site oficial: community.batmanarkhamcity.com

José NunesquadrinhosArkham City,Batman,DC Comics,Warner BrosSpoiler: não há Devo admitir que “torci o nariz” quando anunciaram o primeiro jogo do Batman para a geração atual de videogames. Eu esperava por mais um fracasso, naturalmente pelo porco e insalubre uso das licenças dos personagens da Marvel Comics. Contudo, o meu pessimismo abobado e prematuro se provou...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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