Em meio a polêmicas, a nova obra de Danilo Beyruth está longe de ser uma unanimidade

Apesar de estar na estrada, ou a frente da prancheta, há algum tempo o desenhista Danilo Beyruth ganhou o grande público após a publicação de Astronauta, primeiro lançamento da linha de graphic novels da Maurício de Souza Produções. Com sucesso no Brasil e na europa, é claro que sua nova história, dessa vez um projeto autoral, não encontraria grandes dificuldades para ser publicada, ao contrário, foi a segunda aposta da Editora Panini num autor brasileiro que, sinceramente, não decepcionou.

Ao contrário do herói místico Necronauta, e da ficção científica de primeira linha do Astronauta, o autor mudou radicalmente ao escolher a ficção histórica para contar a origem do santo guerreiro São Jorge, originalmente uma divindade do cristianismo, mas que no Brasil é frequentemente associado a Umbanda.

A história é um épico, que em muitos momentos lembra um filme, com elementos que vão desde grandes cenas de combate, as intrigas políticas do antigo Império Romano, que enquanto luta para retomar o Egito, cujo regente rompeu com o governo de Roma, declarando sua independência, uma fera monstruosa, ataca a fazendas da região de Cyrene em 297 A.C.

Nessa disputa entre egípcios e romanos conhecemos Jorge, um tribuno, ou soldado, que se destaca não só pela perícia na arte da guerra, mas também por sua liderança no campo de batalha. Apesar de satisfeito com seu êxito enquanto militar, ele se mostra inconformado com a guerra, questionando se os motivos de tantas lutas são realmente justos.

Ao chamar atenção de seus superiores, ele desperta a inveja de seu comandante, que junto ao imperador arma contra o herói, que consegue dele a permissão para tramar contra o guerreiro, que é cristão, religião em crescimento e considerada uma ameaça pelos políticos da Roma antiga.

Visando resolver dois problemas de uma só vez o comandante envia o tribuno para uma missão impossível, deter sozinho o monstro que aterroriza Cyrene, assim, não só ele será morto, deixando de ofuscá-lo, mas também impedirá, mesmo que temporariamente, a ascensão de um herói cristão, o que poderia levar as massas a se converter a religião do Deus único.

A primeira parte da história termina justamente nesse ponto, no confronto do soldado contra o dragão, adiando seu final para o segundo volume, deixando o leitor ansioso pela conclusão, que, apesar de ser conhecido da maior parte do público, fica a curiosidade para ver o que Beyruth criou para o desfecho da trama.

O texto é ágil, conciso e muito bem escrito. Funciona perfeitamente com as imagens criadas pelo autor. No roteiro não há excessos, ao contrário, a ênfase é nos bons diálogos, com poucos textos explicativos, construindo muito bem os personagens através de suas falas mostrando os romanos como políticos inescrupulosos e matadores cruéis, verdadeiros malditos romanos, como diria o ícone dos quadrinhos Asterix.

Visualmente a história é contada com maestria, sendo possível perceber a pesquisa histórica que o Danilo fez para produção, em que tudo é verossímil, desde os detalhes nas armaduras dos soldados, as vestimentas, até o templo de um Deus pagão. As cenas de batalha têm uma atenção especial do desenhista, mostradas principalmente em quadros horizontais, recurso usado por vários artistas para dar um ar cinematográfico aos desenhos, que contam com uma arte-final simples e precisa, mas sem ser simplória, e com vários detalhes em tons de cinza, aparentemente feitos manualmente, talvez em aguada de nanquim, ou em aquarela.

Em alguns momentos a arte lembra os quadrinhos italianos, principalmente os trabalhos de Ivo Milazzo, criador do faroeste Ken Parker. Porém, como nem tudo é perfeito há poucos problemas na arte, mas eles existem, o principal é ausência de cenários em alguns quadros, e em outros a substituição destes por manchas, ou aguadas de nanquim. Aqui fica a dúvida se autor usou esse recurso para cumprir prazos, ou se foi uma opção por estilo.

O formato escolhido para a edição surpreende ao ser igual aos das revista populares italianas, ou fumettis, como por exemplo as revistas da Sergio Bonelli Editore, responsável por Tex, Zagor, entre outros. Provavelmente tudo isso foi planejado pelo autor visando o mercado internacional, já que a Panini é italiana e obteve bons resultados com O Astronauta no mercado europeu.

É justamente nesse ponto que começaram as polêmicas. São Jorge teve uma espécie de pré-lançamento no evento Fest Comix, que aconteceu em São Paulo, entre os dias 1 e 4 de maio, e os comentários, principalmente nas redes sociais, não foram os melhores. Muitos leitores esperavam um novo Astronauta, ou como escutei de alguns amigos profissionais de quadrinhos, algo pelo menos no mesmo nível, dizendo inclusive que a arte estava desleixada, parecendo esboços mal finalizados.

A única crítica pertinente, na minha opinião, foi em relação ao preço da edição, R$ 19,90, que multiplicado por dois, chega a quase R$ 40,00 por duas revistas em formatinho e em preto e branco. É realmente querer faturar muito em cima do sucesso recente de Danilo Beyruth.

Confesso que li com muita desconfiança, mas após terminar cheguei à conclusão que são duas obras distintas, igualmente boas, porém não há como compará-las. São Jorge é mais adulta, mais violenta e, apesar do formato menor, é grandiosa tanto na arte quanto no texto.

Eu estou ansioso para ler o segundo volume, porque essa vale a pena ter na coleção, mesmo sendo tão cara!

São Jorge Vol. I – Soldado do Império
Editora Panini
Roteiro e Arte: Danilo Beyruth
Capa cartão
Miolo offset PB
120 páginas
16 x 21 cm
R$ 19,90

Fred Tavaresresenha hqbDanilo Beyruth,Panini,São JorgeEm meio a polêmicas, a nova obra de Danilo Beyruth está longe de ser uma unanimidade Apesar de estar na estrada, ou a frente da prancheta, há algum tempo o desenhista Danilo Beyruth ganhou o grande público após a publicação de Astronauta, primeiro lançamento da linha de graphic novels da...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe