Sabe aqueles livros que você compra e, por falta de tempo ou urgência em outros assuntos, ele acaba parando em baixo de uma pilha de coisas para ler?

Pois é, foi o que aconteceu com o meu exemplar da revista O Contínuo nº7 – Marina contra todos.

E lamento profundamente que isso tenha acontecido. Deveria ter lido a revista antes. A edição é muito interessante. Em todos os aspectos.

A começar pelo editorial, bem diferenciado dos que costumamos ler por aí. Ele mostra, de maneira até poética, o que ocorreu com os participantes da edição no período de confecção da mesma.

A arte vai alternando de autores conforme o foco narrativo da obra muda de personagem para personagem. Todos os quatro desenhistas (Olavo Costa, Alcimar Frazão, Juarez Ricci e Júlia Bax) são bem competentes em suas funções e as mudanças de traços no decorrer da edição vai deixando a revista com uma leitura mais prazerosa.

O roteiro, escrito a seis mãos (por Dalton Soares, Pedro Felício e Carlos T:Lemos), pode parecer bem experimental à primeira vista: uma garota, a Marina do título, que se cansa de sua vida de irmã mais velha numa família de classe média e resolve abandonar tudo, inclusive sua identidade, fugindo pela cidade utilizando técnicas do Le Parkour para burlar automóveis, pular janelas e escalar estações de metrô – entre outras peripécias. O mais estranho é que todas as pessoas da cidade passam a persegui-la.

A HQ vai mudando de foco, apresentando também as histórias de outros personagens – que se cruzam em diversos momentos: um cidadão com baixa estima; um mendigo e alguns burgueses que passam a edição toda comendo, xingando e falando mal da atitude de Marina – e de todos os adolescentes por conseqüência.

A HQ pode parecer experimental porque é só isso: Marina fugindo de todos, sem um ponto de chegada ou um objetivo que não seja a fuga em si.

Mas, numa leitura mais crítica da edição, a atitude da garota e a reação das pessoas servem como uma metáfora para nossa vida real, onde somos forçados a cada dia e a cada instante termos as mesmas atitudes e comportamentos padronizados (sabe-se lá por quem); onde as pessoas mais ou menos diferentes são tratadas com grande preconceito – chegando às vezes à perseguição de fato.

A presença desses outros personagens (o mendigo, o fracassado e os burgueses), serve como uma representação simbólica do fracasso de nossa sociedade (e a cena final, da briga generalizada por um motivo fútil, é o ápice desta nossa decadência) e um contraponto com a atitude tradicional das pessoas mais jovens (ou mesmo as de espírito mais jovens) personificados na figura de Mariana (e o fato de sabermos pouca coisa da personagem, aumenta ainda mais nosso grau de participação, uma vez que depositamos nela todos os nossos ideais de uma sociedade mais tolerante e menos preconceituosa).

Tudo isso condensado em apenas 44 páginas – o que demonstra a capacidade de síntese e entendimento que o grupo possui.

Excelente trabalho.

O Contínuo 7 – Marina Contra Todos
Autores: Alcimar Frazão, Carlos T:Lemos, Dalton Soares, Juarez Ricci, Júlia Bax, Olavo Costa e Pedro Felício
Revista Independente
44 páginas
Data: Dezembro de 2008
R$ 5,00

Alexandre Manoelresenha hqbAlcimar Frazão,Carlos T:Lemos,Dalton Soares,HQB,Juarez Ricci,Julia Bax,Marina contra todos,O Contínuo,Olavo Costa,Pedro Felicio,resenhaSabe aqueles livros que você compra e, por falta de tempo ou urgência em outros assuntos, ele acaba parando em baixo de uma pilha de coisas para ler? Pois é, foi o que aconteceu com o meu exemplar da revista O Contínuo nº7 – Marina contra todos. E lamento profundamente que...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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