O segundo volume da homenagem a Mauricio de Sousa apresenta uma grande e crucial diferença em relação ao número anterior:

Como a marca de 51 anos não é tão badalada como a de 50, os autores aqui presentes não tiveram a preocupação de escrever uma história apenas para dizer parabéns a Mauricio (que era o mote de quase todas as HQs do primeiro volume), afinal, criar uma (boa) história autoral com os personagens da turminha mais famosa do Brasil é a maior homenagem que os autores brasileiros (todos eles, certamente, influenciados na infância por Mauricio) poderiam prestar ao criador de Mônica & Cia.

E é bem isso que podemos notar nesse álbum (e o motivo dele despertar tanta atenção): autores com suas técnicas e temas que já lhe são caros contando histórias desses personagens que acostumamos a ler em suas versões mais comerciais.

Marcatti, por exemplo, emprega sua escatologia tradicional para contar uma história do Cascão, um dos destaques da edição. Danilo Beyruth, conhecido por seus temas mórbidos com o personagem Necronauta, realiza um ótimo trabalho com a Turma do Penadinho e o fascínio que André Diniz tem com a cultura africana (apresentado em seu mais recente trabalho, Quilombo Orum Aiê) encaixa-se perfeitamente numa história do Jeremias.

Falando no Jeremias, uma das qualidades deste volume é dar mais destaque a personagens que pouco ou nada apareceram na edição anterior como o Bugu, o Jotalhão, o já citado Jeremias, a Pipa, o Nico Demo, o Sansão e o Mingau. Até as sujeiras atrás das orelhas do Cascão aparecem como protagonistas de uma história, realizada por Caco Galhardo.

Outra qualidade da edição é reunir autores das mais diversas regiões geográficas e oriundos das mais diversas áreas como a publicidade, cartum, ilustração, design e animação, além dos quadrinhos, obviamente.

O resultado disso é a presença de HQs, tiras, ilustrações e cartuns nos mais variados traços e técnicas: desde a fotonovela até a aquarela, passando pela colorização digital e encontrando propostas gráficas mais ousadas como os trabalhos de André Ducci, João Lin e Kako. Neste quesito, destaque para a arte de Marlon Tenório que realiza um trabalho com forte referência à xilogravura (que ficou muito bacana numa HQ do Chico Bento).

Como toda publicação mix, cada leitor vai se identificar e apreciar mais determinadas histórias do que outras e, verdade seja dita, seria uma grande injustiça apontar o melhor trabalho da edição, tamanha a qualidade do material. Mas, há algumas HQs que me chamaram tanta a atenção que eu faço questão de mencioná-las.

Como é o caso da HQ “História às avessas”, de Lucas Lima, na qual as características dos personagens foram trocadas, de modo que o Cebolinha é dentuço, o Cascão é o comilão, a Magali odeia tomar banho e a Mônica, que troca o “R” pelo “L”, vive realizando planos para roubar um certo animal de pelúcia.

O trabalho de André Kitagawa contextualiza a turminha num ambiente mais próximo ao do leitor e explora, entre outras coisas, a solidão do Cascão nos dias de verão – quando seus colegas preferem atividades mais refrescantes, com água.

Kako explora uma versão oriental para a Magali.

Fábio Ciccone faz uma HQ divertidíssima com o Piteco (personagem cujas histórias, até então, eu nunca tinha dado grande atenção) na qual ele caça um tiranossauro para realizar o desejo de uma gestante.

Mozart Couto também utiliza o humor para fazer um verdadeiro tributo às histórias em quadrinhos numa HQ do Horácio.

Allan Sieber e Marcelo Braga, em trabalhos diferentes exploram histórias sob o ponto de vista do Sansão.

Pablo Mayer apresenta uma HQ na qual Cebolinha e a Mônica se encontram num daqueles programas de televisão estilo “Casos de família” para resolverem suas desavenças.

Jota A e Tiago Hoisel realizam cartuns hilários, coincidentemente os dois com o Chico Bento. E aqui fica meu lamento: a arte de Hoisel é tão atraente que é realmente uma pena ele participar do álbum com apenas uma página.

Curioso é o fato de algumas HQs trazerem temas muito mais próximos ao público adolescente do que as publicações dos estúdios Mauricio de Sousa voltadas à mesma faixa etária. É o caso das HQs de Adriana Melo, da dupla Sandro Lobo & Odyr e da HQ de Fernanda Chiella (outro grande momento do álbum, explora a exclusão social da Pipa até o momento em que ela conhece seu futuro namorado).

Uma grande homenagem ao mestre Mauricio de Sousa que, certamente, vai expandir para outros produtos essa atuação autoral encima de seus personagens. Podemos aguardar ainda muitos outros bons lançamentos por ai.

Parabéns a Mauricio e parabéns a esses 50 artistas por produzirem esse álbum de tamanha qualidade.

MSP+50 – Mauricio de Sousa por mais 50 artistas
Autores: Adriana Melo, Allan Sieber, André Diniz, André Ducci, André Kitagawa, André Vazzios, Beto Nicácio, Biratan, Caco Galhardo, Chico Zullo, Clara Gomes, Danilo Beyruth, Denilson Albano, Diogo Saito, Duke, Eduardo Medeiros, Emerson Lopes, Fabio Ciccone, Fernanda Chiella, Gian Danton, Hector Salas, Iotti, JJ Marreiro, João Lin, J. Márcio Nicolosi, Jota A, Kako, Lucas Lima, Luis Augusto, Marcatti, Marcelo Braga, Mario Cau, Marlon Tenório, Mateus Santolouco, Mozart Couto, Odyr, Pablo Mayer, Rafael Albuquerque, Rafael Coutinho, Rafael Grampá, Ric Milk, Ricardo Manhães, Roger Cruz, Romahs, Rogério Vilela, S. Lobo, Tiago Hoisel, Wellington Srbek, Will e Williandi.
Editora Panini
216 páginas
Data: Agosto de 2010
R$ 98,00 (capa dura) e R$ 59,00 (capa cartonada)

Alexandre Manoelresenha hqbHQB,Mauricio de Sousa,MSP+50,Panini,resenha,turma da MônicaO segundo volume da homenagem a Mauricio de Sousa apresenta uma grande e crucial diferença em relação ao número anterior: Como a marca de 51 anos não é tão badalada como a de 50, os autores aqui presentes não tiveram a preocupação de escrever uma história apenas para dizer parabéns...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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