Morro da favela é o mais recente trabalho de André Diniz, um dos quadrinistas mais produtivos do país.

Nesta publicação o autor nos apresenta a história do fotógrafo Maurício Hora, morador do Morro da Providência (antigamente chamado de Morro da favela), a primeira favela do país – cuja alcunha serviu para denominar também todas as posteriores regiões com as mesmas características sociais.

Mas, contar uma história interessante que se desenvolve numa favela, e depois do filme Cidade de Deus e da avalanche de obras (entre filmes, novelas, seriados, documentários etc.) que surgiram com essa temática pegando rabeira no sucesso da obra do diretor Fernando Meirelles, não é fácil, afinal muitas dessas obras acabaram soando repetitivas e previsíveis, servindo apenas para espalhar os estereótipos das favelas.

Felizmente André Diniz se saiu muito bem nessa difícil tarefa. Claro que uma parte do conteúdo da HQ (como a vida difícil das pessoas dessas regiões, o domínio do tráfico, a violência policial e diversas outras questões) não é novidade nenhuma para quem vive nas periferias brasileiras ou que tenha assistindo alguma produção sobre o tema.

Entretanto, essas questões servem apenas como pano de fundo na HQ. Nem a profissão de Maurício Hora – ao contrário do que se possa imaginar – e nem suas perdas de amigos e parentes devido à violência na região ocupam lugar central na obra que é mais focada nas relações familiares do fotógrafo – cuja mãe sofria de transtorno bipolar e seu pai foi um dos primeiros traficantes do morro.

E no meio disso tudo, Diniz ainda encontra espaço para nos apresentar pequenos e inusitados causos que ocorrem nas favelas, como, por exemplo, a passagem que retrata algumas pessoas subindo o morro com uma caixa d’água na cabeça; a noite em que Hora toma uma geral da polícia e, para não ser vítima de algum tiroteio ou de um policial mal intencionado, só é liberado na manhã do dia seguinte; ou a ocasião em que Hora ministrou uma oficina de fotografia mas poucos alunos tinham máquina, então eles usavam as próprias mãos para aprender sobre enquadramento. Claro que existem muitas outras passagens inusitadas, mas contá-las tiraria o prazer da leitura (e me desculpem por esses pequenos spoilers).

E isso vai trazendo uma visão diferenciada do ambiente, fugindo dos tradicionais estereótipos e tornando a história agradável para toda e qualquer pessoa que aprecia histórias sob pontos de vistas que fogem do lugar comum.

A história em nenhum momento descamba para um drama ou para uma história de superação – e olha que a trama oferece muitos recursos para isso. Diniz optou por nos mostrar a história de uma pessoa normal, que fez o que fez e chegou aonde chegou não porque queria provar algo para alguém ou para servir de exemplo e sim porque apenas não apreciava os outros caminhos que lhe foram oferecidos.

A arte de Diniz apropria-se do auto contraste total, com grandes áreas negras, personagens angulosos e com pouco espaço para tons de cinza ou hachuras – grosso modo uma mistura de Flávio Colin e Samuel Casal – e que combina muito bem com o clima da obra. Verdade que ele peca na caracterização dos personagens, deixando alguns deles muito parecidos e, por isso, embolando um pouco a história, mas nada que tire o sabor da leitura.

Um trabalho que foge dos estereótipos e torna a leitura agradável – aliás, como todos os outros títulos de André Diniz.

Morro da Favela
Autor: André Diniz
Leya/Barba Negra
128 páginas
Data: Junho de 2011
R$ 39,90

Alexandre Manoelresenha hqbAndré Diniz,Editora Leya/Barba Negra,Maurício Hora,Morro da favelaMorro da favela é o mais recente trabalho de André Diniz, um dos quadrinistas mais produtivos do país. Nesta publicação o autor nos apresenta a história do fotógrafo Maurício Hora, morador do Morro da Providência (antigamente chamado de Morro da favela), a primeira favela do país – cuja alcunha serviu...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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