Diretamente do Gibi Rasgado – por Lillo Parra

Guerra: 1939 – 1945 de Julius Ckvalheiyro é, em todos os sentidos, um gibi excepcional. E a Conrad Editora acerta em cheio com essa publicação.

A opção estética do autor surpreende pela maturidade e correção histórica. Ao invés de produzir histórias de guerra como antigamente, contando a óbvia visão dos vencedores, Ckvalheiyro optou por contar a guerra dos vencidos e dos vencedores, do herói e do canalha, do crente e do cético. O resultado emociona pela sinceridade e por mostrar a exata medida de toda aquela imbecilidade.

Os capítulos foram divididos de acordo com os anos em que ocorreram. Pesquisador aplicado, cada capítulo é habilmente contextualizado pelo autor, nos situando no momento histórico e político dentro da guerra, tornando a leitura dos quadrinhos muito mais proveitosa e prazerosa. E isso num texto ágil e incisivo, sem firulas, sem valores de juízo, mas também sem o ranço didático tão comum nesse tipo de expediente.

A leitura dos textos introdutórios consegue a proeza de nos fazer passear pela guerra e entender suas motivações políticas, nos mostrando uma face do conflito que comumente não é abordado no ensino fundamental. Os textos, quando aliados às histórias que os ilustram, fazem o gibi ir além: trazem o leitor para dentro da guerra. Algo nada desprezível nesses tempos em que o Ministério da Educação finalmente começa a perceber o poder de infiltração e absorção dos quadrinhos em salas de aula.

Mas é na narrativa gráfica que Ckvalheiyro mostra a que veio. As histórias – curtas, não mais de que um punhado de páginas cada – surpreendem pela beleza e emoção. Num traço realista, obtido através do estudo e utilização de fotos do conflito, em preto e branco, produz um resultado plasticamente desnorteante e é responsável por páginas belíssimas.

Entretanto, a utilização de alguns efeitos às vezes confunde um leitor menos treinado, dificultando a localização dos elementos gráficos na página. Felizmente, essa falha é observada em apenas meia dúzia de quadros e não prejudica em nada o entendimento geral das histórias.

O passeio pela guerra continua também na estrutura narrativa: as 03 primeiras histórias apresentam os grandes vilões do conflito. Um nazista cruel, mas não caricato como estamos acostumados, já nos dá o tom logo nas primeiras páginas do que veremos em todo o restante do álbum. Um piloto nazista extremamente lúcido de seu dever nos mostra um outro tipo de guerra, um outro tipo de soldado, em contraponto ao combatente da primeira história.

Um recurso genial para dimensionar exatamente o que era crueldade e o que era dever. E por fim um piloto de um caça japonês, que em apenas 8 páginas nos mostra um resumo de milênios de anos de cultura oriental, personificados num único homem. Em seguida somos apresentados a um dos grandes heróis da guerra, que a história ocidental fez questão de colocar em segundo plano por conta da “ameaça” que representou ao mundo nos anos posteriores ao conflito: a União Soviética.

E o autor faz questão de mostrar que o papel dela não só não foi pequeno como também fundamental para a vitória das forças aliadas.

E então os judeus.

E aí não há palavras suficientes para justificar o tamanho da crueldade cometida naqueles anos. Algo que o mundo não pode esquecer.

Apresentar o holocausto é a obrigação mínima de cada um dos artistas que se aventurem por essa seara. O alerta continua válido, principalmente com a recente escalada de forças nacionalistas na Europa, onde alguns grupos, inclusive, tentam disseminar a ideia de que o massacre sistemático de judeus durante o confronto não passa de uma “invenção” histórica.

O alerta também continua válido para o povo judeu, que esquecendo o mal que sofreu, se comporta de forma perigosamente semelhante – com a inexplicável conivência das grandes nações – em relação ao povo palestino, isolando-os (geograficamente e socialmente) e os condenando à fome, miséria e morte.

E por fim os americanos, numa macabra simetria com as duas primeiras histórias do álbum. Um toque de sutileza do autor para mostrar que a grande vitória americana também foi uma grande derrota – em todos os sentidos.

Uma única falta é sentida: não há qualquer menção a Campanha da FEB na Itália. Uma história sobre a participação brasileira no conflito – que também não foi desprezível, sobretudo para o avanço das forças aliadas por aquela porta de entrada no velho continente – teria tornado o gibi perfeito (sobretudo para fins didáticos). Fica a sugestão para um provável segundo volume.

Não há uma única história ruim, mas três merecem destaque e habilitam o álbum a ser uma das melhores publicações do ano: o piloto japonês, o soldado russo e a nova arma americana.

Não são histórias de guerra, são poesias gráficas sobre o ser humano, seus valores, sua beleza e o tamanho de sua crueldade.

Ckvalheiyro conseguiu com isso produzir um gibi belíssimo sobre a maior tragédia da história da humanidade, de forma séria, didática e – principalmente – estética e artisticamente impecável.

Não é pouca coisa.

Livro HQ: Guerra 1939-1945
Conrad Editora
Julius Ckvalheiyro
136 páginas
R$ 29,90

Renato Lebeauresenha hqbconrad,Guerra 1939-1945,Julius CkvalheiyroDiretamente do Gibi Rasgado – por Lillo Parra Guerra: 1939 - 1945 de Julius Ckvalheiyro é, em todos os sentidos, um gibi excepcional. E a Conrad Editora acerta em cheio com essa publicação. A opção estética do autor surpreende pela maturidade e correção histórica. Ao invés de produzir histórias de guerra...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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