Sempre que me dizem a sensação que era ler uma revista em quadrinhos underground nos anos 1980 eu imaginava como eram essas publicações. Claro que nada me impede de ir a algum sebo e ir procurá-las, mas sempre fica a pergunta: como seria esse sentimento?

Finalmente, depois de quase 15 anos comprando quadrinhos, eu posso dizer que descobri como é essa sensação graças à publicação independente Gigi Gibi º1 de Heitor Yida, Luiz Berger, Mateus Acioli, com as participações de André Berger e Vandão Miranda. E resumindo em poucas palavras, Gibi Gibi é uma publicação para os fortes!

Ok, ok… vamos explicar. Gibi Gibi tem cara de revista independente underground desde o início. Apesar da capa parecer pouco atrativa, essa contém apenas o título da revista ocupando mais que a metade da área, o efeito reticulado do fundo gera uma sensação gráfica interessante. A capa azul impressa em um papel que lembra muito a textura do craft, já passa a aspereza ou a falta de delicadeza que você vai encontrar nas páginas da publicação.

E agora você pergunta: “Fora a capa, por que essa seria uma revista underground para eu comprar?”. Lembra que no primeiro parágrafo eu disse que sempre quis saber como seria ler esse tipo de publicação? Pois bem, acontece que resolvi ler Gibi Gibi enquanto ia trabalhar, e sim eu pego o metrô lotado de São Paulo de segunda à sexta-feira! Na primeira história eu já fiquei com a sensação “será que tem alguém olhando?” (óbvio que tinha, mas enfim…), isso é algo que sempre achei que uma revista underground tem que ter: ser transgressora e incomodar os desavisados.

E Gibi Gibi pode incomodar de várias maneiras: com a falta de pudor, com a não delicadeza dos temas, com a falta de sutileza nos diálogos e muito mais. Se você é um leitor acostumado com as revistas em quadrinhos convencionais e não está disposto a abrir o seu repertório de leitura (e seus horizontes), com certeza essa publicação não é para você.

Graficamente a edição nº1 também traz atrativos. Sendo uma produção realizada por cinco artistas, os estilos gráficos variam, vai desde o super detalhista e trabalhado com hachuras, apresentado por Luiz Berger, passando pelo traço mais limpo e acabado, dando mais espaço para as áreas em branco, em uma história de André Berger e Vandão, o pincel seco por Mateus Acioli, chegando até o simples traço fino e uniforme, representando seres com três olhos e chifres, em uma história de Heitor Yida.

Gibi Gibi nº1 é uma grata surpresa, além de apresentar um pouco mais do trabalho de quadrinhistas que estão cada vez mais em evidência com a nova geração de profissionais independentes de destaque, ainda nos traz aquela sensação de underground transgressor, algo que hoje em dia não é muito comum nas publicações que se encontram por aí e que se propõem a ser desse gênero.

Para finalizar: a sensação que eu estava lendo uma publicação não convencional me veio em dois momentos. Primeiro quando percebi que uma senhora, que não tinha muita idade, e que estava sentada ao meu lado do metrô, olhava aterrorizada para as páginas da revista, e depois quando uma amiga perguntou se ela poderia dar Gibi Gibi para o primo dela de 10 anos para ele iniciar a leitura nos quadrinhos e eu respondi: “hum… melhor não.”

Sem frescuras e sem pudores. Gibi Gibi deve ser lida principalmente para quem quer sair do mais do mesmo. Vale a pena.

Gibi Gibi nº1

Edição independente
Autores: Heitor Yida, Luiz Berger, Mateus Acioli, André Berger e Vandão Miranda
26 x 18 cm
36 páginas
R$ 10,00
Contato: [email protected]

Renato Lebeauresenha hqbAndré Berger,Gibi Gibi,Heitor Yida,HQB,Luiz Berger,Mateus Acioli,resenha,Vandão MirandaSempre que me dizem a sensação que era ler uma revista em quadrinhos underground nos anos 1980 eu imaginava como eram essas publicações. Claro que nada me impede de ir a algum sebo e ir procurá-las, mas sempre fica a pergunta: como seria esse sentimento? Finalmente, depois de quase 15...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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