Vender a alma para o diabo em troca de fama, fortuna ou o saciamento dos prazeres da carne é uma das mais antigas histórias enraizadas na tradição humana.

E é justamente esse o tema explorado na HQ Estação Luz, de Guilherme Fonseca e Renoir Santos, livremente inspirada na história de Fausto, do escritor alemão Goethe, provavelmente a mais famosa obra literária a trabalhar com o tema de pactos com o demônio.

O grande problema em utilizar temas bastante conhecidos é o fato desses temas já estarem fortemente associados a gêneros específicos. Por exemplo, dificilmente você vai encontrar filmes românticos com personagens zumbis.

É um exemplo absurdo, mas serve para ilustrar a situação que, imagino eu, Estação Luz vai encontrar. Afinal, quando se pensa em histórias de pactos com o diabo, já nos vêm à mente as mais violentas narrativas de terror (que é o que a capa desta edição, muito bem executada e com uma pegada à lá Preacher, dá a entender) ou algo mais na linha psicológica, explorando os sofrimentos de ordem moral ou arrependimento que o pactuante possa ter.

Mas a HQ não segue nenhuma dessas linhas. O objetivo aqui é apenas contar essa história da maneira mais neutra possível, sem pender para nenhum lado.

E é justamente ai que o trabalho corre o risco de desagradar o leitor. Não que a história seja ruim, pelo contrário, mas toda a embalagem nos dá a entender tratar-se de uma obra dentro do gênero horror, seja ele visceral ou psicológico e esse será o público atraído para a obra quando, na verdade, é um trabalho voltado mais para o público que aprecia histórias de temática cotidiana, com alguns toques fantásticos.

Fora essa questão, é uma história bacana: Wagner é um monótono professor universitário que, ao conhecer um mendigo nas ruas centrais de São Paulo, começa a se dar bem com a mulherada – até o momento em que tem que tomar uma forte decisão envolvendo a vida e morte de pessoas próximas.

A narrativa oferece diversos atrativos. Como o fato de se passar na região da Luz, bairro localizado no centro de São Paulo (quem conhece o lugar sabe que é um cenário perfeito para uma história de clima gótico); o fato do demônio aparecer transvestido num inofensivo mendigo; a motivação do demônio, que embora não fique explícita, contribui para a HQ permanecer na memória da gente após a leitura; o tradicional “pacto de sangue” aparece de um modo não tão tradicional assim e o final é muito bacana e, a julgar pelo andamento da HQ, chega a ser surpreendente.

A arte é competente e o trabalho de cores é bem interessante, privilegiando tons fortes, predominantemente ocres, que pairam o tempo todo sobre a HQ prenunciando as coisas ruins que estão para acontecer.

A utilização de fotografias para os cenários se encaixa muito bem e é realizada de modo a não ficar com a costumeira estrutura rígida que as fotos tradicionalmente impõem às HQs.

O único senão vai para o fato da narrativa não permitir nenhum grande quadro de panorâmicas que, com as fotografias e a competência técnica que a equipe demonstrou ter, casariam perfeitamente para ambientar as cenas. Mas não é algo que prejudica o andamento da história.

Fora a discrepância entre capa e gênero, que pode criar alguma confusão entre os públicos, é uma obra competente que entretém e cumpre aquilo que se propõe a fazer.

Estação Luz
Autores: Guilerme Fonseca e Renoir Santos
Devir Livraria
80 páginas
Data: Dezembro de 2009
R$ 25,00

Alexandre Manoelresenha hqbDevir,Estação Luz,Guilerme Fonseca,HQB,Renoir Santos,resenhaVender a alma para o diabo em troca de fama, fortuna ou o saciamento dos prazeres da carne é uma das mais antigas histórias enraizadas na tradição humana. E é justamente esse o tema explorado na HQ Estação Luz, de Guilherme Fonseca e Renoir Santos, livremente inspirada na história de...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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