Tem como apresentar algo de novo de um romance escrito em 1899 e que já foi revisto, estudado e adaptado por inúmeras mídias e linguagens?

Essa pergunta sempre é inevitável quando se anuncia algo envolvendo Dom Casmurro, livro de autoria de Machado de Assis, que até hoje é considerado como um leitura fundamental da literatura brasileira. Quando a NEMO editora anunciou a publicação de mais uma adaptação do romance, confesso que recebi a notícia com desconfiança.

Para a alegria dos amantes da obra machadiana, e para quem aprecia um bom quadrinho quem assumiu essa adaptação foram dois autores que já conquistaram o seu lugar de destaque na produção dos quadrinhos nacionais. Estou falando de Wellington Srbek e José Aguiar, e a partir daí já comecei a dar crédito à publicação.

A genialidade desse romance de Machado de Assis é que ele nos apresenta um velho solitário, apelidado de Dom Casmurro, que é o narrador-personagem que se coloca também no papel de escritor. Mas o ponto chave a se ressaltar é o fato de o narrador não ser confiável. Ele mente, distorce, confunde o leitor, com quem conversa ao longo da narração, e reproduzir todas essas nuances não é uma tarefa nada simplista.

A editora acertou em cheio em convidar a dupla para esta empreitada. Srbek nunca escondeu o seu amor pelos textos machadianos, e em seu roteiro nos oferece uma leitura bem introspectiva da obra do autor carioca, e consegue concentrar a narrativa no ponto que em minha opinião é o mais acertado: centrar a história em seu enigma central e dar maior destaque as palavras da própria figura deste que ao mesmo tempo a vive e relata os acontecimentos.

Claro que a questão sobre o amor sombrio que o narrador tinha sobre Capitu, uma das protagonistas desta clássica história, também está presente, mas o roteiro inteligente de Srbek foca-se nas lembranças do seu passado e que vão ressurgindo do subsolo da memória à medida que ele procura a reconstrução de si mesmo. Assim você leitor acompanha uma narrativa sobre uma jornada pelo universo infernal e onírico do velho perdido em pensamentos e tormentas.

O roteiro está impregnado pela forma incomum com que o escritor transporta para o papel seu jeito de ver o mundo e de lidar com o amor e a amizade. Srbek na publicação conseguiu apresentar os vários temas dentro da obra original: o suposto triângulo amoroso; a resistência do jovem a ser seminarista; a separação; a preocupação com as aparências; a dúvida da traição, e o sentimento de impotência perante a dúvida; o amor contrapondo-se ao ódio; o pensar na morte e no valor da vida; a solidão; a velhice; a necessidade de reparação.

Linha após linha, Machado de Assis conduziu seus leitores pela “mistura de observação”, nessa adaptação é possível afirmar que nós fomos conduzidos quadro a quadro, e aí entra o talento de José Aguiar, que como já sabemos já possui uma vasta experiência em contar histórias com imagens.

O primeiro acerto, e também confesso que achei até mais prudente e sábio, foi realizar toda a produção gráfica do álbum em preto e branco. A maneira que José Aguiar apresenta os personagens e os caracteriza ficou de fácil identificação pelo leitor, e o seu traço realçou ainda mais a história.

Percebe-se que as ilustrações foram pensadas para provocar uma experiência inspiradora nos jovens leitores, principalmente naqueles que estão começando a descobrir os mistérios e os prazeres da arte sequencial e dos clássicos da literatura.

O quadrinhista se utilizou das inúmeras possibilidades e ferramentas da linguagem dos quadrinhos para alcançar uma qualidade gráfica inimaginável com uma ilustração de muita originalidade e fácil identificação pelo leitor, embora seja uma história de ficção com bastante fantasia e estímulos.

O resultado de todo esse trabalho é uma releitura de um clássico de forma acessível a todas as idades. Vale muito a pena!

E a resposta para a minha pergunta inicial não poderia ser outra a não ser SIM. A adaptação Dom Casmurro de Machado de Assis é uma incrível fusão de roteiro e ilustração totalmente estimulante para leitura! Aprovado como leitora e como educadora.

Terminei o livro com o gostinho de quero mais.

Dom Casmurro
Autor: Machado de Assis
Editora NEMO
Roteirização: Wellington Srbek
Desenhos: José Aguiar
Capa cartonada em cores
P&B
20 x 28 cm
80 páginas
R$ 34,00

Thina Curtisresenha hqbDom Casmurro,HQB,José Aguiar,Machado de Assis,Nemo,resenha,Wellington SrbekTem como apresentar algo de novo de um romance escrito em 1899 e que já foi revisto, estudado e adaptado por inúmeras mídias e linguagens? Essa pergunta sempre é inevitável quando se anuncia algo envolvendo Dom Casmurro, livro de autoria de Machado de Assis, que até hoje é considerado como...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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