Finalmente, o Impulso HQ tem o prazer de publicar esta resenha do álbum Cachalote – o mais aguardado e badalado lançamento nacional dos últimos tempos.

A HQ apresenta 5 histórias paralelas, que nunca se encontram:

Xu é um famoso ator chinês, mas em estado de decadência, que não se importa muito com o que as pessoas pensam de suas atitudes e nem faz questão de posar como bom mocinho para ser aceito nos círculos sociais.

Hermes é um escultor antissocial que trata muito mal a sua namorada e que acaba aceitando, depois de muita resistência, um papel para interpretar a si mesmo num filme cujo roteiro é construído durante as gravações.

Vitório é um praticante de kinbaku, técnica de amarrar o parceiro para obterem prazer sexual. Ele conhece uma adorável garota e fica com medo de praticar seu fetiche, pois a pele dela é extremamente sensível. É a única história narrada em primeira pessoa e a utilizar uma diagramação mais rígida de 4 quadros simétricos por página.

Rique é um playboy arrogante, imaturo, fútil e trapaceiro que foi expulso de casa por ser amante da esposa de seu tio, que o sustenta. Ele foge para a Europa onde continua a destilar sua grosseria e insensibilidade.

Túlio e sua ex-esposa Vita mantêm um bom relacionamento depois de se separarem. Ambos carregam em si uma tristeza latente e injustificável.

O único elo comum às histórias é a autodestruição inerente a cada personagem, que os fazem, ao longo das quase 300 páginas da edição, descer ao fundo do poço.

Mas todos eles conseguem emergir, ao menos parcialmente, no final de cada trajetória. Contudo, fica aquela sensação de que as histórias não estão completas, que essa redenção é apenas um pequeno alívio momentâneo no constante vai e vem de suas vidas e que eles submergirão novamente, num mergulho ainda mais profundo, nesta que é a condição humana, uma eterna transição entre o céu e o inferno, amor e ódio, trabalho e diversão, felicidade e tristeza etc.

Aqui, podemos notar a relação do álbum com o título. A baleia cachalote é o animal, entre os mamíferos, capaz de fazer o mergulho mais profundo. Nos quesitos sociais, ambientais e psicológicos sabemos que o título fica com a raça humana, capaz de produzir coisas tão belas e sensíveis (como a música e a culinária, apenas para ficar em dois exemplos) quanto coisas abomináveis (como a guerra e a destruição dos recursos naturais).

As histórias são divididas em três momentos. O primeiro apresenta os personagens e seus mundos comuns. No segundo, eles se deparam consigo mesmo e enfrentam as conseqüências de seus atos – ou a falta de atos, uma vez que cada personagem manifesta sua autodestruição de forma variada (afinal, se fossem iguais não haveria sentido criar tantas histórias): uns são conscientes disso; outros, inconscientes e há também os apáticos, que não tomam atitude alguma.

Na terceira parte, vemos os desfechos de cada história, mas são desfechos abertos – como já mencionado – que pode frustrar alguns leitores, mas se mantém fiel à vida onde as coisas nunca são completamente encerradas e cujo verdadeiro desfecho final todos nós sabemos qual é.

Ainda em relação às histórias vale citar também que a alternância entre elas se dá por cortes secos, não há nada que indique ao leitor mais desatento quando começa ou termina um determinado núcleo narrativo. Essa característica é utilizada de maneira mais intensa na última parte do álbum quando a transição entre as histórias adquire um ritmo acelerado.

Mas o grande ponto alto é sem dúvida a arte. Coutinho tem domínio absoluto de câmeras e ângulos e nos presenteia com belas tomadas. Isso tudo, claro, trabalhando em função das histórias, assim, quando determinada parte pede, ele se utiliza da repetição de cenas, de ângulos mais tradicionais ou de ritmo mais lento.

Interessante que cada virada de página nos proporciona uma experiência estética diferente. O contraste vai variando, em determinadas passagens Coutinho é um desenhista minucioso que preenche toda a página com detalhes e informações; noutros, é mais ágil e suprimi cenários para destacar a atuação ou a solidão dos personagens; há também páginas com grandes áreas negras com a escuridão da noite.

Seu trabalho de expressão corporal é primoroso e por si só já vale a leitura da obra.
Bem, agora vamos às questões que todos querem realmente saber:

Com tantas especulações em torno da obra, fruto do competente marketing da Cia. das Letras, é natural que as pessoas criem expectativas exageradas com o material. Afinal, Cachalote vai mudar a sua vida? Vai mudar a história dos quadrinhos nacionais? É a melhor HQ que você vai ler?

Não sei. E penso que esses não são os objetivos da HQ.

O que sei é que Cachalote cumpre aquilo que seus autores se propõem a fazer, é bem contada, muito bem desenhada e entretém, principalmente se você aprecia histórias melancólicas.

Cachalote
Autores: Daniel Galera (roteiro) & Rafael Coutinho (desenhos)
Editora Quadrinhos na Cia.
280 páginas
Data: Junho de 2010
R$ 45,00

Alexandre Manoelresenha hqbcachalote,Daniel Galera,HQB,Quadrinhos na Cia,Rafael Coutinho,resenhaFinalmente, o Impulso HQ tem o prazer de publicar esta resenha do álbum Cachalote – o mais aguardado e badalado lançamento nacional dos últimos tempos. A HQ apresenta 5 histórias paralelas, que nunca se encontram: Xu é um famoso ator chinês, mas em estado de decadência, que não se importa muito...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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