Auto da Barca do Inferno, originalmente é uma peça teatral escrita por Gil Vicente em 1517 que agora ganha sua versão para os quadrinhos nos traços de Laudo Ferreira e cores de Omar Viñole.

A história da peça/HQ gira em torno da morte e do julgamento das almas: Num indeterminado cais dois barcos esperam a chegada dos mortos; um deles vai para o inferno, o outro para o céu. Conforme as almas vão chegando, o diabo tenta convencê-las a embarcarem com ele, mas quase todas preferem entrar no barco no qual um anjo guarda a entrada – e que acaba impedindo o acesso de muitas delas.

Os textos da edição, nas orelhas e no prefácio, atentam para a atualidade da obra (diferentemente de muitos textos pedidos em vestibulares), que satiriza a nobreza, a justiça, os artesãos que enganavam o povo cobrando altos preços por trabalhos propositalmente mal realizados, os ignorantes (que aceitam morrer para livrar outros do pecado) e até a própria igreja – na figura de um padre que chega acompanhado de sua amante.

E, pensando bem, é incrível como em 500 anos pouca coisa mudou no gênero humano – incluindo ai seu medo da morte. Nesse quesito, ponto para os autores que souberam resgatar um texto importante e que dialogasse com os tempos atuais.

Mas, focando na adaptação propriamente dita, penso que é chover no molhado elogiar a qualidade do trabalho de Laudo, seus traços caricatos, sua diagramação e sua câmera. Entretanto seu empenho na criação e expressão física dos personagens merece destaque, sobretudo no trabalho que ele faz com o diabo (em sua versão, não aquele monstro terrível das histórias de terror e até mesmo de algumas passagens bíblicas, mas sim um ser muito feio e sarcástico que deixa as pessoas se iludirem com o paraíso mesmo sabendo do horrível destino que as aguarda). As cores, a cargo de Omar Viñole, também merecem destaque pelo predomínio dos tons vermelhos que vão acrescentando a dramaticidade que o tema sugere.

Mas não há como negar que o que chama a atenção mesmo é o fato da obra ser escrita em português arcaico. Segundo Laudo, num texto disponível em seu site, essa opção foi para preservar o texto original, que ficaria totalmente descaracterizado se fosse traduzido para o português brasileiro dos dias de hoje.

Contudo, essa decisão transforma-se numa faca de dois gumes, pois a peça era para ser exibida em praças públicas, para distração do povo (foco no qual Gil Vicente foi percussor em Portugal), logo seu idioma original era o idioma que o povo usava na época. Manter o texto no português daquele país e daquela época dificulta um pouco sua leitura nos dias atuais e isso vai contra a idéia original do texto que é ser acessível para as pessoas comuns.

Fora essa questão, é um grande barato ler uma HQ na qual os diálogos são praticamente poesias (lembrando que eles seguem a métrica medieval). E mesmo que a gente não entenda todas as palavras do texto, isso não impede que compreendamos e nos divirtamos com a história.

E essa característica torna a HQ ousada e muito diferente de todos os outros títulos – sejam adaptações ou não – disponíveis no mercado.

Auto da barca do inferno
Autores: Laudo Ferreira & Omar Viñole
Editora Peirópolis
56 páginas
Data: Agosto de 2011
R$ 35,00

Alexandre Manoelresenha hqbAuto da Barca do Inferno,Editora Peirópolis,Laudo Ferreira,Omar ViñoleAuto da Barca do Inferno, originalmente é uma peça teatral escrita por Gil Vicente em 1517 que agora ganha sua versão para os quadrinhos nos traços de Laudo Ferreira e cores de Omar Viñole. A história da peça/HQ gira em torno da morte e do julgamento das almas: Num indeterminado...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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