resenha_hqb_alexandria

Li esta revista já faz um tempinho, mas como notei algumas qualidades interessantes, além do fato de ser uma revista desconhecida até para as pessoas envolvidas na cena independente e dos editores prometerem um novo número para abril próximo, resolvi resenhar a edição de estréia:
Por serem somente dois os responsáveis pelos desenhos (Jader Corrêa e Matias Streb), é surpreendente a variação de traços encontrados na revista, indo de um estilo mais carregado e cheio de sombras, passando por uma linha mais cartunesca até chegar ao mangá.

A edição apresenta ainda uma história colorida pintada em estilo realista, que me lembrou muito aquelas pinturas de panfletos distribuídos pelas testemunhas de Jeová (e é bom deixar claro que isso não é nenhum comentário pejorativo!).

Depois de um bom editorial que nos informa a origem do nome da revista – e justifica a capa em estilo “bíblico”, a edição começa com a ótima HQ “As cores do descobrimento” (roteiro: Carlos Francisco, arte: Jader Corrêa & Matias Streb), a tal da pintura de panfleto evangélico, que trata sobre a histórica condição dos índios desde a chegada dos portugueses até os dias atuais. Destaque para o uso ideológico que Corrêa & Streb fazem da cor.

Histórias de uma página só, como o caso da HQ “Um rosto na escuridão” (roteiro: Carlos Francisco, arte: Jader Corrêa, arte-final: Matias Streb), são curtas demais para que o leitor consiga se envolver com a trama, mas essa aqui compensa pelo final surpreendente.
A HQ seguinte, “Quiromante”, de Jader Corrêa, fala de uma charlatã que, no meio de uma leitura de mãos, de repente, como que acometida por uma epifania, prevê o fim do mundo. Os desenhos são um pouco cabeçudos demais, mas combinam com o espírito charlatão da quiromante. Destaque para o final, que também usa do efeito surpresa e de uma boa carga política.

“Um sonho de François”, de Jader Corrêa, é bela e singela como um bom poema. Em estilo cartum, acompanhamos os devaneios de um ancião preso a uma antiga paixão.

“Ariel”, de Matias Streb, é feita em estilo mangá, se passa na idade média e reúne guerreiros distantes no espaço e no tempo: um pirata, um samurai, um cavaleiro medieval e um viking – que mais parece Gimli, o anão do filme “O Senhos dos Anéis”.

Apesar de ser uma reunião interessante, é uma história com continuação, e as 4 páginas que ocupa nessa edição não são suficientes para apresentar um enredo que nos faça aguardar ansiosamente o próximo número.

A última página do miolo também é colorida e nos apresenta um texto sobre H.P. Lovecraft (1890-1937).

Para encerrar, na 3ª capa, encontramos uma HQ na horizontal que também é feita em estilo mangá por Matias Streb, também se passa na idade média e também apresenta a indesejada mensagem “Continua…”

Ao término da leitura ficamos com a sensação de que a revista tem muito mais páginas do que aparenta, dado o número de histórias. Isso é muito bom, mas o efeito poderia ser muito mais intensificado se no lugar do texto sobre Lovecraft, que não tem nenhuma relação com o restante do material, houvesse outra HQ colorida para fechar a revista com chave de ouro.

Textos são sempre complicados de se colocar numa revista de HQ porque quebram o ritmo de leitura e, quase sempre, apresentam temas que não tem nada a ver com as histórias publicadas. Ademais, se a opção é publicar textos, por que não publicar sobre assuntos que se relacionem com as histórias (e não com o gosto particular de seus editores) ou que reforcem a cultura local e desconhecida?

Que Lovecraft é um baita escritor ninguém duvida, mas penso que ele não precisa de mais textos atestando sua qualidade. Poderia ser um espaço melhor aproveitado, ainda mais por ser colorido.

É sabido de todo mundo que as revistas independentes quase nunca, infelizmente, conseguem manter uma periodicidade regular. Por isso não vejo com bons olhos as HQs com continuação, já que o leitor que se interesse por elas não vai saber quando terminarão – se é que chegarão a ser publicadas até o fim.

Claro que numa revista curta, a separação por capítulos é uma alternativa para abrir espaço para outras histórias, mas penso que é melhor fazer uma edição com uma única história que seja, desde que finalizada, do que dividi-la em capítulos e não dar ao leitor o conhecimento de quando sairá o próximo número nem o prazer de ver a HQ finalizada.

Claro que nem tudo são críticas. A quantidade, variedade e qualidade das HQs publicadas, mesmo as que têm continuação, fazem com que seja um item interessante para o público fã dos quadrinhos independentes.

Mas o ponto mais forte da edição é, sem dúvida, conseguir reunir os estilos da HQ ocidental (cartum, pictórico, noir etc.) com o mangá que, infelizmente, mesmo nas produções independentes, é tratado e publicado separadamente, como se houvessem dois mundos independentes: um para os quadrinhos ocidentais e outro para os orientais.

Essa reunião de estilos, se conseguir uma periodicidade regular e de preferência não muito dilatada, tem um potencial para atrair muito leitores e tornar a revista um referencial na produção independente nacional!

Alexandria
Autores: Carlos Francisco, Jader Corrêa & Matias Streb
Revista Independente
Nº de páginas: 20
Data: Setembro de 2007
R$ 4,90
Contato: [email protected]

Alexandre Manoelresenha hqbAlexandria,Carlos Francisco,HQB,Jader Correa,Matias Streb,resenhaLi esta revista já faz um tempinho, mas como notei algumas qualidades interessantes, além do fato de ser uma revista desconhecida até para as pessoas envolvidas na cena independente e dos editores prometerem um novo número para abril próximo, resolvi resenhar a edição de estréia: Por serem somente dois os...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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