É real? Delírio? Imaginação? Ou tudo não passa de um imenso sonho? O mesmo sonho! Os mistérios que circundam “Acordes” podem ser tão profundos que até o seu título pode significar outro sentido, como muito bem apontado por Sidney Gusman em sua apresentação.

Mas espere, estou me adiantando. É necessário ter um parágrafo antes.

Lançado em julho de 2012, pela Devir Livraria, Acordes é mais um projeto financiado pelo ProAc – programa paulista de incentivo para produção de quadrinhos – contemplado em 2010. O autor é conhecido tanto no universo dos quadrinhos como na televisão. Falo de Rogério Vilela, ilustrador, roteirista, dublador, quadrinhista, diretor de animação, ator, improvisador e comediante stand-up.

Com um currículo desses dá para esperar uma história vinda de uma imaginação fértil e sem limites, e como muitos já sabem, Vilela tem uma arte espetacular e característica que dispensa apresentações. Confesso que estava ansioso para ler “Acordes”.

Claro que grande parte da minha expectativa estava no fato de “Joquempô” (lançada em 2010) ter sido muito boa e deixado várias questões em aberto. E se você procurar em “Acordes” essas respostas, pode ser que aconteça uma decepção porque elas não estão lá, ao contrário, Vilela usa a mesma estratégia que usou no volume nº1 de sua publicação anterior: páginas com muitas perguntas e promete as respostas só na continuação. “Acordes” está planejada para ser uma história em três partes.

Obviamente como leitor, considero incrível como Vilela consegue nos prender em sua narrativa logo nos primeiros momentos, mas assim como em “Joquempô”, bate o receio de não saber a resolução da história, ou no caso de “Acordes”, que tudo não vire um sonho sem fim.

“Acordes” sabe criar expectativa desde a sua apresentação: “Um casal viaja de carro pela Patagônia. Um velho desmaia em um posto de gasolina. Um sonho recorrente”. Deu pra sacar que a construção das frases já foram feitas para confundir? Qual é o sonho recorrente e de quem é o sonhador?

O velho da frase não é qualquer um. A narrativa gira em torno desse ancião que se diz o homem mais famoso do mundo, mas ninguém se lembra dele, e que tem uma maneira peculiar de aprender um idioma. E mesmo se alguém considere absurda a forma que é explicada, particularmente considero a ideia genial, deixando o personagem ainda mais interessante.

E interessante é a vida do velho, que se chama Antônio, e diz ter menos de 50 anos nas aparenta ter mais de 100. Durante os seus relatos ficamos sabendo de sua história, seu dom e outras lembranças. Todos esses fragmentos de memórias são recheadas de referências dos anos 1970 e 1980, e fica a cargo de Beatriz, a jovem garota do casal que está em viagem, registrar a trajetória intrigante do velho. E como perguntas em “Acordes” nunca são demais, essa não é a única Bia da história.

O álbum nos apresenta um novo ângulo sobre a arte de Vilela: o traço P&B com marcações de luz e sombra com hachuras. O destaque é justamente a angulação e a habilidade do quadrinhista em distorcer a imagem de forma competente e utilizando esse recurso como ferramenta narrativa para construir os momentos oníricos e surreais.

Como dito anteriormente, “Acordes” é estruturada por perguntas em cima de perguntas, o que faz o leitor construir suas próprias questões como: “Se o velho nos disse que aprendeu a falar ainda bebê por que no começo da HQ ele teve que reaprender a nossa língua?”

“Acordes” é outro álbum da geração ProAc que merece ser conferido. Só esperamos que o autor não dependa totalmente do programa para produzir os dois volumes seguintes porque a história promete. Se não houver final, certamente, muitos leitores ficarão com os seus sonhos frustrados.

Acordes
Devir Livraria
História e arte: Rogério Vilela
PB e Azul
20,5 x 27,5 cm
72 páginas
R$ 29,50

Renato Lebeauresenha hqbAcordes,Devir,HQB,resenha,ROGÉRIO VILELAÉ real? Delírio? Imaginação? Ou tudo não passa de um imenso sonho? O mesmo sonho! Os mistérios que circundam “Acordes” podem ser tão profundos que até o seu título pode significar outro sentido, como muito bem apontado por Sidney Gusman em sua apresentação. Mas espere, estou me adiantando. É necessário...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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