Publicado no finzinho do ano passado pela Devir Livraria, a HQ “A Dama do Martinelli” fechou 2012 com chave de ouro. Uma pena a obra não ter sido mais divulgada (talvez pela data que foi publicada) porque com certeza é uma das melhores publicações nacionais do último ano.

O projeto foi contemplado pelo ProAc 2009, apesar das primeiras ideias terem surgido em 2006, como explica a roteirista Marcela Godoy no pósfacio. E talvez, já esteja aí um dos grandes motivos do projeto ser tão bom. Marcela Godoy é autora dos romances “O Primeiro Relato da Queda de um Demônio” e “Liah e o Relógio”, além de ser roteirista das HQs “Fractal”, “Romeu e Julieta” e “Macbeth”, essas duas últimas, adaptações das obras de William Shakespeare, publicadas pela Editora Nemo. Ou seja, quem conhece o trabalho de Marcela sabe que pode esperar nada menos que uma excelente história.

Em “A Dama do Martinelli”, a roteirista não só demonstra a sua habilidade com a escrita, como também dá uma aula de narrativa, misturando pesquisa histórica com as suas influências literárias em um thriller de terror sobrenatural que prende a atenção do leitor do começo ao fim. Marcela escolheu o cenário adequado, nos insere em um contexto perfeito e nos apresenta uma história de arrepiar.

Para quem não está familiarizado, o Martinelli é um edifício localizado no centro de São Paulo que já foi símbolo da burguesia e que nos anos de 1960 e 1970 virou um cortiço que abrigava todos os tipos, inclusive marginais e degenerados. Somente a partir de 1975 é que o prédio que foi inaugurado em 1929 seria retomado pelas autoridades.

Se já não bastasse esse contexto histórico, a trama se passa em plena ditadura militar (há período mais sombrio para uma história de terror?) onde o prédio também abrigava fugitivos da perseguição. E para ser mais exato, é justamente um casal de fugitivos e seu filho que acompanhamos nessa história. Em um local onde se abriga tantos residentes clandestinos, ficar rondando os corredores pode ser muito desagradável, afinal o seu vizinho pode ser um indivíduo perigoso ou até mesmo bizarro. E nesse ponto a história toma outro rumo.

Se conhecer as antigas estruturas abandonadas do edifício pode ser perigoso, mais espantoso ainda é saber que enterrado nessa construção há um antigo mistério que causará situações e reações sobrenaturais. Agora, além de perseguidos pela ditadura, a família tem que se preocupar com fantasmas e presenças vingativas. Marcela que nunca escondeu a sua paixão pelo escritor americano Edgar Allan Poe deixa registrada nas páginas desse álbum, uma bela homenagem aos contos do mestre do terror.

E se o roteiro é bom, a arte não fica aquém. Jefferson Costa nos vislumbra com um traço que se encaixa perfeitamente com a proposta. O quadrinhista soube nos transportar para as décadas de 1960 e 1970 com um estilo gráfico que remete muito a época, caracterizando os personagens com calças, boca de sino, camisas estampadas com motivos daquele período e os cabelos blackpower. E sua pesquisa iconográfica não ficou apenas por aí, nas passagens que ambientam o Martinelli em sua inauguração o desenhista apresenta com detalhes o estilo de vida da burguesia paulista de 1929.

Um bom quadrinhista tem que saber contar uma história com desenhos, e Jefferson mostra que não é nenhum novato. Usando de uma arte densa e com muitos traços, mas que consegue ser sutil com os personagens estilizados, o quadrinhista soube colocar o ritmo nas páginas conforme o seu desejo. Até nas passagens em que ele utilizou muitos quadros, percebe-se que ele favorece sempre a ação, garantindo assim que a história seja sempre fluida. A ambientação dentro do Martinelli abandonado também é de primeira. A cada ângulo escolhido por Jefferson, o leitor é apresentado a um cenário rico em detalhes.

E se Jefferson merece os créditos pela arte, o quadrinhista também merece todas as congratulações pelas cores. Além de escolher uma paleta cromática com tons mais sóbrios e opacos dando o clima tenso necessário a obra, as cores também tiveram uma função narrativa para representar as épocas com flashbacks.

Detalhe que o álbum deveria ser preto e branco, mas Jefferson convenceu Marcela em tornar a história colorida. E de acordo com o texto que está no final da obra, o quadrinhista coloriu mais de 130 páginas em menos de um ano. A correria foi devido ao prazo de entrega estourado do projeto (a obra deveria ter sido publicada em 2010), mas em nenhum momento se percebe nas páginas esse aperto. Todas mantém a mesma coerência estética.

Sempre fui fã assumido das obras em quadrinhos de Marcela Godoy e o resultado de sua parceria com Jefferson só reforça essa minha posição. “A Dama do Martinelli” tem lugar garantido na minha estante assim como os próximos trabalhos que ela venha a escrever.

“A Dama do Martinelli” é uma obra ímpar que está no mesmo nível dos contos de Edgar Allan Poe. Se você é fã do gênero não deixe de ler e surpreenda-se.

A Dama do Martinelli
Editora Devir Livraria
Roteiro: Marcela Godoy
Arte: Jefferson Costa
Acabamento: brochura com laminação brilhante
20,5 × 27,5 cm
Colorido
Papel couché
152 páginas
R$ 45,00

Renato Lebeauresenha hqbA Dama do Martinelli,Devir,HQB,Jefferson Costa,Marcela Godoy,resenhaPublicado no finzinho do ano passado pela Devir Livraria, a HQ “A Dama do Martinelli” fechou 2012 com chave de ouro. Uma pena a obra não ter sido mais divulgada (talvez pela data que foi publicada) porque com certeza é uma das melhores publicações nacionais do último ano. O projeto...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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