Em 1974 eu economizava uns cobres para o cinema e gibis levando marmita, além é claro, da leitura das tiras de quadrinhos de dois jornais. No final desse ano comprei um exemplar do gibi semanal da editora RGE nº9 que continha uma HQ “The Christmas Spirit”, uma fábula de aventura de um personagem que nunca tinha visto antes: “The Spirit”. Para minha surpresa, o herói só aparece em um quadrinho da página 3 para dizer que no dia de natal “…um outro espírito combate o crime à sua moda!”.

No ano seguinte foram publicados os Almanaques Nostalgia com várias HQs do The Spirit e foi lançada a coleção gibi especial. Adivinha qual personagem foi escolhido para estrelar a edição de número 1? Claro que foi o personagem criado por Will Eisner em 1940.

A menos que essa seja a primeira vez que você está em busca de assuntos relacionados a quadrinhos, com certeza você já ouviu falar desse grande mestre mundial dos quadrinhos. Caso você nunca ouviu falar dele, a dica é o livro “Will Eisner, um sonhador nos quadrinhos” que a Editora Globo Livros lança pelo selo Biblioteca Azul. A obra é uma biografia desse genial desenhista de histórias em quadrinhos e criador do termo graphic novels, ou se preferir, novelas gráficas.

A obra tem destaque tanto por mostrar algumas coisas sobre a vida de William Erwin Eisner já conhecidas do leitor brasileiro, como a grande influência da literatura de Tchecov, O. Henry, Ambrose Bierce entre outros nos seus roteiros, e fatos que não foram tão revelados, como as histórias da compra dos direitos para o cinema do The Spirit por Anthony Perkins (o Normam Bates do filme Psicose de Hitchcock), a legião de desenhistas fabulosos que começaram a vida em seu estúdio como Jules Feiffer, Wallace Wood, Lou Fine, Reed Crandall e muitos outros batutas. E, é claro, como não deveria deixar de faltar, as disputas pela criação de alguns personagens.

É incontestável, Will Eisner percorreu mais de 50 anos de carreira e suas ideias revolucionaram a forma de ver as histórias em quadrinhos. Segundo Neil Gaiman “um dos primeiros a acreditar que os quadrinhos eram de fato uma forma de arte”. Na verdade toda a trajetória de Eisner e a própria história dos quadrinhos nos Estados Unidos da América são mostrada nessa biografia.

Aliás, bonita biografia escrita por Michael Schumacher, que não deixa nada de lado. Com acesso a arquivos do próprio Eisner e por meio de entrevistas com vários profissionais que trabalharam e viveram com esse grande gênio da Nona Arte (incluindo a sua esposa, Ann), Schumacher apresenta fatos e declarações interessantes sobre Eisner, inclusive a sua irritação ao ver desenhistas amigos receberem o prêmio Pulitzer. Jules Feiffer diz a respeito “ele transformou os quadrinhos em algo mais e sozinho, enquanto outros saiam com prêmios e destaque. Espere um pouco! Fui eu que comecei isso! O que posso dizer é que ele e sua esposa Ann foram das pessoas mais amáveis que conheci na vida.”

Quem conhece o trabalho de Schumacher não se espanta em ler uma obra tão aprofundada e realista. Apresentar aos seus leitores as experiências, frustrações e alegrias de seus “biografados” é praticamente uma especialidade do autor, que já escreveu sobre a vida e obra de Allen Ginsberg, Eric Clapton, Phil Ochs, George Mikan e Francis Ford Coppola.

Brasil, novembro de 1987. A Press Editorial lançou The Spirit no MIS (Museu da Imagem e do Som) em São Paulo. Assisti à palestra de Will Eisner, comprei meu exemplar e peguei meu autografo. Na saída, Gualberto Costa, editor da revista me convidou para um almoço dia seguinte. Era uma sexta-feira no Bar Brahma. O convidado de honra foi Will Eisner e sua esposa.

Fui. Além do Gualberto, lembro-me de estarem presentes Marcatti, Bira Dantas, Franco de Rosa, Newton Foot, Fábio Zimbres e outros bambas da arte. Sentei em frente ao casal. Não falava (e não falo) uma palavra em inglês e fiquei conversando com Antônio Pinto (filho de Ziraldo) sobre sua HQ para a revista “Monga” e do personagem que ele havia criado “Dick Tira”.

Na ocasião, Ann Eisner perguntou por que nós dois não estávamos juntos com os outros na alegre roda de bate-papo, e eu disse ao tradutor que não falava inglês e era tímido (acho que Antônio era mais ainda), mas ela disse que isso não era problema. Lembro até hoje do que comi, bebi e conversei naquele dia inesquecível naquela tarde quente de primavera em são Paulo.

Inesquecível como a leitura da biografia “Will Eisner, um sonhador nos quadrinhos”. Mais que um sonhador, um “gênio expressionista”nas palavras do jornalista Marcos Faerman. Will Eisner morreu em 2005, aos 87 anos, deixando muitos admiradores e com tenho certeza que a sua trajetória inspirou muitos outros sonhadores.

Will Eisner: um sonhador nos quadrinhos
Editora: Biblioteca Azul
Autor: Michael Schumacher
Tradução: Érico Assis
424 páginas
16 x 23 cm
R$ 59,90

Floreal AndradeNas bancas / Nas livrariasÉrico assis,Biblioteca Azul,Globo Livros,Michael Schumacher,um sonhador nos quadrinhos,Will EisnerEm 1974 eu economizava uns cobres para o cinema e gibis levando marmita, além é claro, da leitura das tiras de quadrinhos de dois jornais. No final desse ano comprei um exemplar do gibi semanal da editora RGE nº9 que continha uma HQ “The Christmas Spirit”, uma fábula de...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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