Com um toque dos quadrinhos dos anos 1960 e 1970, em que o uso de retículas e os temas da atualidade da época eram à base dos seus roteiros (religiões orientais, luta contra ditaduras ou governos coloniais, o uso e abuso da tecnologia e etc.) “V.I.S.H.N.U.” é uma graphic novel produzida a seis mãos, fruto da parceria entre o norte-americano Eric Acher e os brasileiros Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco.

Lançado em dezembro de 2012 pela Quadrinhos na Cia. o projeto levou cinco anos para ser concluído e é uma mistura de thriller e ficção-científica. É o primeiro livro de FC nacional publicado pelo selo de quadrinhos da Companhia das Letras, e tem como ambientação um futuro em que até cidadãos comuns podem ter seus robôs pessoais e muitas maravilhas tecnológicas.

E nesta terra de maravilhas nada parece superar em termos de satisfação os “Dudes”, robôs que fazem parte do dia a dia da humanidade. Essa tecnologia é usada para todos os serviços, desde dirigir o trânsito até para serviços sexuais. Só que como nada realmente é perfeito, os Dudes entram em colapso.

E aí começa de verdade a história. Mesmo anos depois, a humanidade ainda sente o impacto de não ter os Dudes. A sociedade simplesmente estava estrutura em cima desses robôs que controlavam inclusive órgãos vitais do estado como bancos, transporte, infraestrutura, ou seja, governos inteiros. Os Dudes representavam décadas de avanços científicos.

Depois do descontrole da humanidade, está na hora de se tomar novos rumos. E sim eles são tomados. Como sempre a incoerência do ser humano está presente e a inteligência do roteiro não deixa isso escapar. A humanidade trata os computadores e a alta tecnologia com desconfiança, mas em momento algum deixa de ser dependente dela.

Nesse ponto percebemos que apesar de se tratar de uma ficção, a obra está bem perto da realidade. Tocando em questões atuais da ciência como guerra de patentes e controle tecnológico, no “admirável mundo novo” que a humanidade emerge, quem manda agora são as grande corporações e os grandes complexos de pesquisa, dedicados a estudar a tecnologia, que foram criados ao redor do mundo.

E tudo dá errado de novo com o aparecimento de V.I.S.H.N.U., uma misteriosa entidade que desperta dentro de um dos complexos de pesquisa. Neste ponto a obra relembra muito outro romance de ficção científica “Um cântico para Leibowitz”, do escritor americano Walter M. Miller Jr., publicado em 1960. No romance, depois de uma guerra nuclear devastadora, a civilização se reconstrói, e mais uma vez ruma para outra guerra. E tudo pode ser condensado em um personagem que diz do homem “…nós não fomos feitos para o Paraíso, quando chegamos perto disso, destruímos tudo para recomeçar novamente.”

Já nos quadrinhos, uma referência que me vem à mente e que encontro ecos dentro de V.I.S.H.N.U., é a britânica série “Jeff Hawke” de Sydney Jordan oriunda dos anos 1955(aqui no Brasil essas aventuras foram publicadas na revista Eureka da editora Vecchi).

A partir do aparecimento de V.I.S.H.N.U. somos apresentados a novos personagens que serão os nossos guias daqui em diante, o norte-americano Leon Wilczenski e o grego-brasileiro Alexandre Karabalis, dois homens considerados gênios para a sua época. Pronto está armado uma grande estrutura para uma história com grandes surpresas. Temos cientistas em conflito, guerrilhas, jornalistas, hackers, políticos, artistas e religiosos tentando tomar o controle da situação.

Se o roteiro é inteligente, os quadrinhos em preto-e-branco do artista e ilustrador Fabio Cobiaco não deixam a desejar. Já falei da referência gráfica da retícula e não posso deixar de comentar a força dos seus planos e a utilização do alto contraste. Sempre bem executados.

A Quadrinhos na Cia., na época do lançamento de V.I.S.H.N.U. classificou o livro como “pioneiro”, referindo-se a ela como a primeira graphic novel brasileira de ficção científica publicada no Brasil. Não posso afirmar se estou de acordo, mas não nego que a obra tem sim um grande valor inovador. Para resumir as minhas considerações finais sobre essa graphiq novel brasileira, vou me utilizar das palavras que Sergio Augusto disse sobre os quadrinhos de Sidney Jordan, no ensaio “Space-comics – um esboço histórico”:

“… altíssima dose de sofisticação, invenção e observação de comportamento e qualidade gráfica”

Abaixo, deixo o trailer da graphic novel V.I.S.H.N.U.:

Para constar:
Vishnu na mitologia hindu é a suprema personalidade de Deus ou Krishna, responsável pela manutenção do universo.

V.I.S.H.N.U.
Quadrinhos na Cia.
Argumento: Eric Acher
Roteiro: Ronaldo Bressane
Arte: Fabio Cobiaco
Brochura
224 páginas
29 x 29 cm
R$ 55,00

Floreal AndradeNas bancas / Nas livrariasEric Acher,Fabio Cobiaco,Quadrinhos na Cia,Ronaldo Bressane,V.I.S.H.N.U.Com um toque dos quadrinhos dos anos 1960 e 1970, em que o uso de retículas e os temas da atualidade da época eram à base dos seus roteiros (religiões orientais, luta contra ditaduras ou governos coloniais, o uso e abuso da tecnologia e etc.) “V.I.S.H.N.U.” é uma graphic...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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