Por mais que super-heróis dos quadrinhos pareçam atemporais, vez ou outra é necessária que seja feita uma reformulação, não só no que diz respeito a renovar o visual, mas até mesmo em alguns conceitos. O que parecia apenas uma fantasia de ficção científica no passado, com o avanço tecnológico de décadas já pode ter se tornado real demais, perdendo-se assim o clima fantasioso de determinado personagem.

Muitas vezes, o que resta mesmo é a essência do que o personagem representa, a moral que transmite em suas histórias e, principalmente, sua índole. Outras reformulações são tão profundas e radicais, que nem mesmo isso resta.

Superman: Terra Um é uma dessas tentativas de se reformular um personagem mundialmente conhecido, cuja fama está muito além da esfera dos fãs dos quadrinhos. Existe, portanto, uma regra fixa nesse tipo de história: quanto mais popular, menos se deve mexer na origem do personagem. E, em termos de popularidade, Superman talvez seja o cúmulo do gênero de super-heróis.

Publicada em forma de graphic novel (quadrinhos com um acabamento superior ao que costumamos ver normalmente), essa repaginada é escrita por J. Michael Straczynski (oriundo de roteiros de cinema e tv, apesar de já ser conhecido na indústria dos quadrinhos) e desenhada por Shane Davis. Foi um dos quadrinhos mais vendidos nos Estados Unidos recentemente e traz uma trama que simplifica a mitologia do Superman, por ignorar todos os acontecimentos de décadas de histórias do personagem nos quadrinhos. É um “começar de novo” para um público mais amplo.

O único maneirismo oriundo do mundo dos quadrinhos (não que seja uma exclusividade dele) é a forma não linear de se contar a história, ou seja, ela se passa no presente e vamos conhecendo o passado do personagem através de suas lembranças. Da forma que é colocado, no entanto, esse recurso tem a vantagem de trazer o herói mais próximo ao leitor, uma vez que nem mesmo ele sabe muito sobre si mesmo, sendo muitas dessas lembranças uma espécie de conclusões e descobertas a respeito de suas raízes.

Por ser tão famoso e vir de longa data, Superman coleciona uma incrível quantidade de vilões e personagens coadjuvantes, que se tornaram tão icônicos quanto o próprio herói. Dessa forma é de se sentir a falta de figuras como Lex Luthor, o arqui-inimigo do personagem principal, não tendo nem mesmo uma “palhinha” em citações ou homenagens escondidas.

Isso é ainda mais sentido devido à aparição de um vilão novo, exclusivo da série, que corre o risco de ganhar a antipatia do leitor, tal qual um penetra em sua própria festa. Mais interessante que o próprio é a explicação sobre a ligação entre sua raça e a do próprio Superman, o que traz mais respostas e reformulações quanto ao seu surgimento em Kripton.

O texto ainda dedica boa parte de seus recordatórios para mostrar como o herói teve seu caráter moldado de forma a não usar suas capacidades para intenções mesquinhas. É algo para ler, reler e tentar entender se isso funciona ou não, uma vez que o próprio Superman tem lá suas dúvidas quanto aos ensinamentos que recebeu ao longo da vida. Pesa, aí, o fato do personagem ainda ser muito jovem (ou “menos adulto” do que estamos acostumados a ver).

Em termos de reformulação dos conceitos de personagens, destaca-se a presença dos principais coadjuvantes, focados no trio de colegas do jornal Planeta Diário (o editor-chefe Perry White, o fotógrafo Jimmy Olsen e a repórter Lois Lane). Retratados de uma forma franca e respeitosa, não só aos anos que esses personagens existem, mas também a profissão que exercem. O próprio Planeta Diário, nesse sentido, assume uma posição de não ser apenas o local de trabalho dos coadjuvantes, sendo retratado de uma forma que, discretamente, dá a impressão de torna-lo, também, um personagem.

De modernização mesmo está à ambientação em elementos dos dias de hoje. Internet, câmeras digitais e a velocidade das informações que rodam o mundo. Tudo está ali, exatamente onde não existiam na época em que outras reformulações do personagem foram feitas. O próprio Planeta Diário, jornal tradicional com profissionais que estão entre os ousados e modernos contra os antiquados e (talvez) decadentes (apesar de terem a insistente faísca necessária para o ramo).

Esse mesmo recurso já foi usado pela concorrente editora Marvel, quando reformulou seus personagens da linha conhecida como Ultimate. Os resultados tiveram mais sucesso do que essa tentativa da DC Comics e já trouxe uma nova geração de personagens (e leitores) por quase uma década. E, impressionantemente, sem se desfazer do seu universo tradicional dos mesmos personagens.

Inicialmente, acreditava-se que a série Terra Um poderia ser uma tentativa da DC Comics começar de novo seus personagens que já vinham lutando fora dos quadrinhos para se manterem como líderes de vendas. E foi algo que se realizou… mas, não com essa série. A DC ainda tinha outra série, chamada All-Star, que chegou a dar a mesma impressão, por mostrar visões pessoais de outros artistas sobre esses mesmos personagens.

Mas a editora optou por um caminho inverso, criando o conceito dos Novos 52, que trazia (como o nome diz) cinquenta e duas novas revistas com novas versões dos seus heróis. Não era exatamente um começar do zero e, além de tornar confuso para os novos leitores, ainda complicou até mesmo para o leitor que acompanhava as antigas versões de seus heróis favoritos. De novo mesmo só a numeração para novos colecionadores.

Terra Um se tornou uma “reformulação feita após a reformulação”, mas com o intento apenas de matar a curiosidade de como seria mais simples o universo de heróis, se as decisões editoriais fossem outras.

Superman – Terra Um

Editora Panini (DC Comics)
Roteiro: J. Michael Straczynski
Arte: Shane Davis
Capa Dura
Colorido
17 x 26 cm
140 páginas
R$ 22,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasDC Comics,J. Michael Straczynski,Panini,Shane Davis,Superman,Terra UmPor mais que super-heróis dos quadrinhos pareçam atemporais, vez ou outra é necessária que seja feita uma reformulação, não só no que diz respeito a renovar o visual, mas até mesmo em alguns conceitos. O que parecia apenas uma fantasia de ficção científica no passado, com o avanço tecnológico...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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