o-trem-dos-orfãosQuando completei seis ou sete anos ia todo domingo ao cinema, bem quase todos. Quando não tinha a grana, engraxava os sapatos dos irmãos mais velhos e vendia latas ou garrafas no ferro velho. Dessa época, me lembro que um dos filmes mais reprisados na matinê de domingo era “David Coperfield”, uma versão de quase três horas, baseado no livro de Charles Dickens. Assisti umas cinco vezes.

O filme apresentava crianças pobres e abandonadas a própria sorte, criadas em orfanatos que mais pareciam câmaras de tortura. Em O Trem dos Órfãos publicação da BersouroBox conhecemos mais um capítulo que fizeram com essas crianças abandonadas – a maioria originada da imigração. Em 1854, em Nova York, Estados Unidos, devido ao alto número de crianças, foi criado o programa Orphan Train Riders.

Acho que para compreender melhor a história contada nessa bela HQ do o roteirista francês Philippe Charlot (exato, o mesmo de Bourbon Street: Os fantasmas de Cornelius e Turnê de Despedida), em parceria com o desenhista Xavier Fourquemin, o melhor é começar pelo final. Nas últimas páginas da graphic novel, a editora preparou extras com alguns textos que esclarecem o que era a Children Aid Society, fundada pelo reverendo Charles Loring Brace, para tirar as crianças pobres e abandonadas das ruas e encontrar um lar no oeste americano, que começava ser colonizado e precisava de mão de obra (barata).

o-trem-dos-orfãos-3O programa Orphan Train Riders é considerado até hoje como a maior migração de menores na história da humanidade, e Philippe Charlot foi muito inteligente em centrar a sua narrativa em dois personagens centrais e deixar como plano de fundo o programa e as suas consequências em cada parada. O leitor fica surpreso com as atitudes “boas” dos pretendentes à adoção das crianças. Em cada fala é possível perceber suas reais intenções e o fatídico destino que espera a quem é adotado.

Na HQ tudo começa em 1990, com a visita de Harvey a Jim, ou seria de Jim a Harvey? O interessante é que toda a história é bem amarrada em flashes backs, voltando 70 anos na história, onde é iniciada a preparação para mais uma longa viagem de trem, mais alguns meninos e meninos irão para longe, onde serão oferecidos para adoção. Nesse cenário conhecemos dois irmãos que tentam sobreviver no duro mundo que é o orfanato e esperam que o pai volte para tirá-los daquele lugar. É tocante a cena em que o pai retorna na estação, mas sem a intenção de buscar os filhos.

o-trem-dos-orfãos-4Essa é a triste história de Jim/Harvey e outras crianças que enfrentaram muitas dificuldades para encontrar um lar ou coisa pior, como a adolescente Lisa, que cuida dos menores e que vai ser disputada como um pedaço de carne num vilarejo de mineiros. Esse é outro ponto bem abordado nessa graphic novel, as “distribuições”, que eram realizadas em teatros, igrejas ou na própria plataforma da estação e se pareciam muito com as feiras de gado.

A arte de Xavier Fourquemin é, apesar de cartunesca, bastante agradável para a história. O artista deu a leveza necessária para não transformar a HQ em algo sombrio e ao mesmo tempo, agrada aos leitores com os seus cenários detalhados e bem trabalhados, ambientando melhor o leitor. Sua sequencia de quadros é monótona, sempre mantendo a mesma variável de quadros e sem ousar nos enquadramentos, mas confesso que mesmo assim, acredito que se encaixou muito bem com a proposta da obra, que relata uma passagem longa de 70 anos de Jim/Harvey. Não é pra ser impactante ou emocionante. É pra ser um sensível registro histórico.

o-trem-dos-orfãos-5Surpresas e reviravoltas são constantes até o final dessa história que mostra como bons atos podem ser deturpados. Lembra que comentei que as distribuições eram comparadas com feiras de gado? Obviamente, o programa foi um dos meios que facilitava a exploração infantil e prostituição, o que resultava na fuga de muitas crianças. Um sistema falho que ao invés de preservar, destruiu a vida de muitos inocentes. Em dois séculos as coisas mudaram, mas infelizmente muito pouco, principalmente em países pobres como o Brasil. É só ver as notícias sobre a Febem (agora Fundação Casa).

Parece que reverendo tinha as melhores intenções, e desejava que as crianças tivessem a oportunidade de serem criadas em lares religiosos, longe da corrupção das ruas, mas como diz o ditado: o inferno está cheio de boas intenções.

O Trem dos Órfãos é uma ótima pedida de leitura, principalmente para quem quer fugir dos super-heróis, e se apreciar mais sobre a história da humanidade. Estou torcendo que a BesouroBox publique aqui no Brasil os dois outros volumes da série.

Excelente leitura.

O Trem dos Órfãos
Editora BesouroBox
Roteiro: Philippe Charlot
Arte: Xavier Fourquemin
Tradução: Danielle Reichelt
16 x 24 cm
104 páginas
R$ 42,00

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2015/11/o-trem-dos-orfãos-2.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2015/11/o-trem-dos-orfãos-2-300x300.jpgFloreal AndradeNas bancas / Nas livrariasBesouroBox,Charles Loring Brace,Children Aid Society,Danielle Reichelt,O Trem dos Órfãos,Orphan Train Riders,Philippe Charlot,Xavier FourqueminQuando completei seis ou sete anos ia todo domingo ao cinema, bem quase todos. Quando não tinha a grana, engraxava os sapatos dos irmãos mais velhos e vendia latas ou garrafas no ferro velho. Dessa época, me lembro que um dos filmes mais reprisados na matinê de domingo era...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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