Falar sobre o Monstro do Pântano e o escritor Alan Moore chega a ser quase uma associação de ideias. De fato, o personagem se tornou verdadeiramente cultuado após o escritor inglês assumir suas histórias e levá-lo a um patamar de qualidade que o diferenciava muito de outras histórias no gênero de terror.

Há quem diga que o sucesso do Monstro de Moore foi um dos principais motivos para a criação do selo Vertigo, especializado em histórias mais adultas do que os leitores de super-heróis da editora DC Comics estavam acostumados a ver.

Apesar de não ser exatamente um personagem identificável como “super-herói”, o Monstro do Pântano trazia várias características que o assimilaria com o universo de uniformizados que o rodeava. Mesmo sendo um personagem de terror quase genérico, tinha suas histórias serializadas, ocasionalmente se encontrava como personagens como Batman e Superman, e, principalmente, trazia uma índole… heroica.

O que Alan Moore fez foi explorar mais a mitologia em volta do personagem. Não foi uma reformulação radical, como acontece hoje em dia. Foi mais uma explicação do que já existia (para o próprio personagem, inclusive), de forma que ele aceitasse sua real condição, sem mudar o que pensava. Afinal de contas, o clima das histórias do Monstro levava o personagem a sempre se perguntar “o que sou eu” ou “no que me tornei”.

Mas o que inspirou Moore a enriquecer a mitologia de tão peculiar personagem? De que universo o Monstro do Pântano surgiu para se tornar o protagonista de tão rica “peregrinação” pelo mundo dos quadrinhos de terror? A verdade é que o personagem já tinha um relativo sucesso entre os leitores mesmo antes de Moore assumir os roteiros. No Brasil, esta fase também foi publicada pela Editora Ebal no final da década de 70, contando, inclusive, com uma revista própria do personagem que durou por treze edições.

Essa fase inicial é agora devidamente encadernada pela Editora Panini em dois volumes dedicados ao personagem. Trata-se das primeiras histórias do Monstro em sua própria revista. Como curiosidade, a primeira história apresentada não pertence a essa série, mas ao título House of Secrets, onde o personagem “mais ou menos” apareceu pela primeira vez.

Mais ou menos porque foi ali que o escritor Len Wein e o desenhista Bernie Wrightson apresentaram o personagem que tinha a mesma história que o Monstro do Pântano que conhecemos, mas não a mesma identidade.

A primeira história do Monstro do Pântano foi planejada para ser apenas mais um conto de terror. Não havia a menor pretensão de seus criadores em torná-lo protagonista de uma série. A premissa contava a história de Alec Olsen, que foi morto em uma explosão de seu laboratório (fruto de sabotagem) e teve seu corpo jogado no pântano próximo a casa onde morava. No entanto, Alec (ou a mente de Alec) voltou na forma de uma criatura feita do lodo desse mesmo pântano, para exigir a vingança contra o homem responsável por sua morte.

Era uma história simples, que se dava até ao luxo de ter elementos clichês, como o detalhe da pulseira dada a Alec por sua esposa e o drama do Monstro perceber que a mesma já não estava em seu braço depois que se tornou feito de lodo. Afinal, quem nunca ouviu histórias de terror do tipo que acabavam com uma criatura sobrenatural perguntando algo como “onde está minha pulseira?”

Porém, a história, surpreendendo até mesmo seus criadores, fez muito sucesso entre os leitores. Sucesso suficiente para que Joe Orlando, editor da revista, infernizasse a dupla para que continuassem a Saga do Monstro do Pântano. A dupla foi até relutante em continuar, mas, depois de um tempo e certo amadurecimento da ideia, voltaram a produzir a história do Monstro do Pântano, mas não DAQUELE Monstro do Pântano.

Visualmente o personagem pouco mudou. Mas agora Wein e Wrightson apresentavam o cientista Alec Holland, que criou uma espécie de fórmula biorestauradora que seria vendida ao governo. Com tons mais voltados para espionagem, esse Alec também foi vítima de sabotagem de seu laboratório, porém menos insidiosa que a versão anterior. Aqui, ele conhece seus agressores que deixam claro que ele não escapará com vida. O laboratório explode e Alec, com o corpo em chamas, se atira no pântano. Acredita-se que a fórmula biorestauradora agiu de alguma forma com seu corpo, criando um novo corpo com o lodo do pântano. Nascia assim, o novo (e serializado) Monstro do Pântano.

O interessante dessa versão é que o leitor pode ler os balões com seus pensamentos no qual demonstra que Alec ainda habita o monstruoso corpo. Mas a criatura, salvo uma ou outra palavra, não pode se expressar através da fala. Os personagens a sua volta, portanto, apenas podem supor o que ele realmente pretende.

O fio condutor da série fixa personagens coadjuvantes importantes e que seriam de extrema utilidade para a narrativa de suas histórias. Entre ele podemos citar Abigail Arcane e Matt Cable. Este último, inclusive, se tornaria um implacável perseguidor da criatura, por acreditar que ela havia matado seu amigo Alec, sem saber que ele, na verdade, estava “vivo” (modo de dizer, é claro) dentro do Monstro. Tentando proteger a dupla (e quem mais a índole de Alec apontasse como pessoas do bem), o Monstro do Pântano acaba se deslocando, quase que involuntariamente, por vários locais onde sempre acabava por encontrar alguma ameaça bizarra.

As aventuras iniciais do Monstro do Pântano mostram que Alec carregava o drama do homem errado na hora errada (a da sua “morte/transformação”). Mas a criatura sempre estava nos locais mais improváveis que se possa imaginar, porém sempre se mostrando útil para resolver as situações incomuns que eram mostradas. Desde uma cidade feita de robôs com feições de pessoas mortas (inclusive do próprio Alec), passando por lobisomens, monstros clássicos e até mesmo conhecer um de seus principais inimigos, o cientista e místico Anton Arcane, tio de Abigail.

Abigail, por acaso, se tornaria uma espécie de “mocinha a ser salva pelo herói” em praticamente todas as aventuras. E, apesar de seu envolvimento com Matt Cable se tornar mais sério em edições posteriores (praticamente criando uma espécie de triângulo amoroso na série), ela seria personagem importante na fase escrita por Moore, anos depois.

A arte de Bernie Wrightson é perfeita para o gênero, sem ser excessivamente sombria, o que também torna perfeito para que a Panini publique essa edição especial em papel pisa brite e não em um papel mais sofisticado para especiais. Esse detalhe, inclusive, dá certo charme para a coleção, aproximando-o mais do tipo de material a que se refere: uma antologia de histórias de terror (com um toque de heroísmo).

Há quem estranhe o fato dessa edição ser desaconselhável para menores, uma vez que isso se aplicaria apenas a fase do personagem publicada no selo Vertigo. Mas também é verdade que o terror visual de Wrightson, apesar de não ser do tipo sanguinolento, chega a ser impactante em algumas cenas.

E, apesar de Alan Moore ser cultuado como um dos melhores escritores da série, Len Wein surpreende a cada conto/história criada para o Monstro. Por mais que o próprio autor se dedique aos seus roteiros, acaba se surpreendo com o resultado alcançado entre leitores e crítica. Vale dizer que, entre outras de suas criações, está aquele que era pra ser apenas um coadjuvante de segunda em uma história do Hulk, ninguém menos que Wolverine.

Com o Monstro do Pântano, Wein não só desacreditava em uma série mensal, como também nem imaginava que a criatura faria tanto sucesso futuro. Prova de que Wein tem um verdadeiro toque de Midas para os quadrinhos, sendo capaz de transformar até mesmo lodo em ouro. Nada mal para um personagem, considerado vegetal, que consegue ir tão longe.

Monstro do Pântano – Raízes
Editora Panini – DC Comics
Roteiro: Len Wein
Arte: Bernie Wrightson
Lombada quadrada
Capa em Cartão
Papel Pisa Brite
Colorido
17 x 26 cm
164 páginas
R$ 19,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasAlan Moore,Bernie Wrightson,DC Comics,Len Wein,Monstro do Pântano,PaniniFalar sobre o Monstro do Pântano e o escritor Alan Moore chega a ser quase uma associação de ideias. De fato, o personagem se tornou verdadeiramente cultuado após o escritor inglês assumir suas histórias e levá-lo a um patamar de qualidade que o diferenciava muito de outras histórias no...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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