Sempre fui de opinião de que os quadrinhos, no Brasil, careciam de renovação dos leitores. Havia um mercado feito para um público específico, uma gama que se mostrava fiel aos lançamentos, principalmente naqueles que chamamos de mensais. O problema é que a preocupação sempre foi em manter esse público, sem se dar conta que esse mesmo público iria crescer e, anos depois, a mesma parcela de leitores (ou seja, os MESMOS leitores) estaria ali, firmes e fortes, adquirindo mensalmente sua leitura de quadrinhos favorita. Olhando o mercado hoje, sabemos que não foi assim que aconteceu.

Bom… mais ou menos. Também temos que contar com aqueles que desistiam com o tempo. Mas o fato é que nem mesmo para repor os desistentes era trabalhado em algo que pudesse trazer mais leitores para as fileiras.

Em muitos casos, ao contrário dos rumos do próprio mercado americano, não se trata de atualizar mitos já conhecidos, mas de tentar mostrar ao pretenso novo leitor quem é, afinal, aquele “novo” personagem do qual ele se identificou e passou a ser fã. As reformulações feitas hoje se baseiam em detalhes que parecem ultrapassados ao leitor moderno, dando a impressão de serem enfadonhos.

Ledo engano. Afinal, existem histórias que se tornam atemporais não apenas pela abordagem do personagem na época e muito menos pela relação com o momento histórico em que passava. Uma história boa e competente traz um elemento que, se bem trabalhado, pode se manter “vivo” por várias e várias gerações de leitores. E esse elemento se chama… diversão.

A Coleção História Marvel, lançada pela editora Panini, é um exemplo de como um material de qualidade, quando bem trabalhado na apresentação, pode ainda aumentar em muito seu valor no quesito diversão. Em uma caprichadíssima produção (com direito a capas que simulam envelhecimento do papel, tal qual uma revista “antiga, e uma caixa para acondicionar os volumes), a coleção é formada por quatro volumes dedicados a específicos títulos da Marvel: Capitão América, Thor, Homem de Ferro e Vingadores.

É claro que o rol de personagens da editora americana é bem maior do que os abordados na coleção (e até mesmo os fãs dos outros personagens sentem a falta de abordagem em seus heróis prediletos…). Mas o gancho aqui é justamente a superpopularização dos heróis Marvel através do cinema, representado pelo filme que fechou o pacote de adaptações: Os Vingadores.

É justamente com o último volume da Coleção, dedicada ao grupo, que a Panini espertamente fecha essa coleção. Os anteriores formam o trio de personagens considerados os “diretores” dos Vingadores, até mesmo por serem os mais constantes personagens dentro do grupo, que já contou com inúmeras formações (praticamente todos os principais personagens da editora). Na Marvel, não basta ser herói, tem que ser vingador!

Não se trata de uma coleção que mostra a ordem cronológica de publicação do grupo. Na verdade é uma seleção de histórias que se tornaram clássicos não apenas por algum momento ou acontecimento dentro da mitologia dos personagens, mas chamam a atenção pelo estilo divertido e descompromissado, como toda história de super-herói deveria ser (algo que a película cinematográfica conseguiu captar bem).

Os desenhos de John Buscema são bem diferentes daqueles que os leitores conhecem em histórias mais recentes (digo, de outros desenhistas). Mas cada página… cada quadro… cumpre muito bem a tarefa de transmitir visualmente toda ação ou emoção contida nos roteiros.

Por falar em roteiros, o escritor Roy Thomas, autor das histórias desse volume, teve um papel fundamental em transformar a Marvel em um universo. Foi Thomas quem teve a árdua tarefa de substituir Stan Lee na autoria das histórias, quando este deixou de escrever os personagens que criou.

Mas, como já vinha acompanhando anos atrás, sabia como ninguém a interligação de praticamente todos os personagens Marvel e, quando não havia essa ligação, tratou de criar vínculos nas histórias que escrevia, deixando tudo muito bem amarrado, tal qual uma fileira de dominós (e tão delicada quanto: qualquer tropeço tinha consequências em outras histórias de outros personagens e em outras revistas).

Uma característica daquela época (e do texto de Thomas) é que as histórias eram extremamente verborrágicas. Mas isso não significa que eram chatas. Muito pelo contrário. Em algumas ocasiões, os herói falavam de forma tão empolada (e não estou falando do Thor…) que a impressão é que estavam tirando sarro.

Por vezes, davam a impressão que estavam tirando uma do próprio leitor. E isso não se limita apenas aos personagens principais. As melhores tiradas estavam nos figurantes, gente comum no meio da rua ou em algum ambiente onde os heróis e vilões apareciam, que não perdiam a oportunidade para um comentário espirituoso.

Um destaque para essa edição vai para o robô vilão Ultron. Sua influência e presença é vista em praticamente todas as histórias. Se os Vingadores não fossem os donos do título, com certeza este seria uma Coleção Histórica do Ultron. Nas sagas apresentadas (os novos Mestres do Terror, a estreia do Visão e o casamento de Vespa com o Jaqueta Amarela) de uma forma ou de outra, Ultron ou sua influência estão sempre presentes.

É uma edição perfeita para aqueles que nada conhecem dos heróis, além do que foi apresentado no cinema. Não tem a séria carga de mostrar o origem do grupo (apesar desta também ser mais divertida do que séria) e, principalmente, porque mostra uma equipe que NÃO É a que foi apresentada no cinema. Aqui vemos Pantera Negra, Vespa, Gigante e um Gavião Arqueiro com visual original).

A capa, portanto, é uma isca para os que não são leitores tradicionais do grupo. Mas não é uma “armadilha” para os novos leitores. Muito pelo contrário. É um bem (ou “mal necessário”, como queiram) que a Panini faz para catequizar novos marvetes. Isso porque as histórias, personagens e a arte (é claro) são tão carismáticos, que se tornam ideais para que se “entre no clima” do entretenimento… essa palavrinha que é sinônimo de respeito ao leitor de super-heróis.

Coleção Histórica Marvel – Os Vingadores
Editora Panini (Marvel)
Roteiro: Roy Thomas
Arte: John Buscema
Lombada quadrada
Colorido
17 x 26 cm
164 páginas
R$ 22,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasJohn Buscema,Marvel,Panini,Roy Thomas,VingadoresSempre fui de opinião de que os quadrinhos, no Brasil, careciam de renovação dos leitores. Havia um mercado feito para um público específico, uma gama que se mostrava fiel aos lançamentos, principalmente naqueles que chamamos de mensais. O problema é que a preocupação sempre foi em manter esse público,...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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