Uma grande novidade no mundo dos quadrinhos! Um super-herói gay tratado sem estereótipos! E mais: o casamento desse citado super-herói! E uma análise sobre a diferença que realmente vale: como um ser humano comum pode suportar o relacionamento com alguém superpoderoso, que está arriscando sua vida constantemente! Tudo nesse parágrafo é verdade. Exceto a primeira frase.

Estrela Polar, super-herói assumidamente gay no Universo Marvel, e não é o único, obviamente não levanta aqui essa bandeira por conta do casamento. Ao contrário do que a própria indústria dos quadrinhos costuma fazer, sequer tornaram o casamento do herói uma espécie de evento. Afinal, em um universo habitado por mutantes de todas as formas, chega a ser um evento corriqueiro.

Quando o super-herói canadense foi criado pelo escritor e desenhista John Byrne para integrar a super-equipe, também canadense, chamada Tropa Alfa (da qual Wolverine tem forte ligação) já planejava revelar a opção sexual do personagem de forma sincera. Isso já na década de 1980.

Não era uma revelação feita de forma banal, mas tratada com certo planejamento de quem quer mostrar que super-heróis também podem ter suas decisões. Byrne deu diversas dicas em seus roteiros sobre um grande segredo de Jean Paul (identidade de Estrela Polar), alguns até mais do que claros sobre o que se tratava. Mas, não aconteceu.

Há quem culpe a Marvel daquela época por ser moralista demais ou digamos… “careta” demais, por não dar abertura e abordar esse tipo de assunto. E isso sequer era uma bandeira levantada por Byrne. Ele mesmo já levantava outras questões consideradas tabus e o fazia de forma discreta, passo a passo, mas nunca chegava a concluir a abordagem. Chegava, sim, ao ponto de deixar clara sua intenção. E esse era o limite.

Outros autores, igualmente talentosos, também seguiram caminho parecido. O escritor J.M. DeMatteis, pouco antes, apresentava um coadjuvante gay nas aventuras do Capitão América, de importância tão vital para o desenvolvimento de sua fase na revista que batia de frente com o preconceito nazista dos vilões Caveira Vermelha e Barão Zemo. No entanto, nunca citou ou mostrou explicitamente. O seu talento com o texto tratava o assunto com delicadeza e excepcional clareza do que estava querendo transmitir. Até mais que Byrne. Talvez por colocar o assunto de forma que o público infantil não pudesse perceber do que se tratava, ao mesmo tempo em que o leitor com mais experiência captasse a mensagem.

Mas a verdade é que a Marvel não era totalmente culpada por esse restrição. Havia, sim, um real respeito pelas regras ao Comics Code, o selo que regulamentava os quadrinhos (e não só os da Marvel) para o grande público. Verdade que, sempre que possível, encontravam um brecha para burlar essa censura, mas ainda era um selo temido na ponte entre autores e distribuidores (note: antes de chegar ao leitor).

Tudo o que Byrne planejou por meses para revelar a opção de Estrela Polar, infelizmente culminou com a confissão do herói de que utilizava sua supervelocidade para trapacear em competições de esqui, modalidade na qual era campeão e celebridade. Tá. O herói deixou de ser uma celebridade do esqui. E daí? Daí nada. A vida de super-herói continuou correndo normalmente.

Anos depois, Byrne nem fazia mais parte da revista da Tropa Alfa. Nem da Marvel. De certa forma, nem mesmo do gênero de super-heróis queria mais saber (apesar do escritor dominar como ninguém a arte do “tô de mal / tô de bem” com a indústria). E foi aí, com um Comics Code absolutamente caquético, que a Marvel coloca Estrela Polar gritando, no meio de uma batalha, em um quadrinho explosivo, em um balão de fala destacadíssimo “eu sou gay”!

Enfim, era um período (e uma situação) em que o Comics Code sabia que ia morrer, mas também sorria por imaginar que iria levar a indústria dos quadrinhos junto. Para o nosso bem, só a primeira parte aconteceu.

O tempo passou e, entre trabalhos sinceros e banalizações, o tema foi abordado diversas vezes. Mais rápido no que diz respeito aos roteiros do que nos desenhos, pois o mundo ainda se chocava com uma abordagem visual.

E chegamos ao chamado Casamento do Ano que, principalmente no Brasil, poderia ser chamado tão simplesmente de O Casamento de Estrela Polar se não fosse por uma série de fatores de divulgação na imprensa pra lá de bizarros.

A editora concorrente da Marvel, a DC Comics, também abordou o tema ao reformular um de seus primeiros e principais personagens de forma a revelar que ele também era gay. E o nome do escolhido foi Lanterna Verde. Até aí, nenhum problema. Exceto e justamente o nome, literalmente, do escolhido.

Como o público estava acostumado com Hal Jordan como a identidade de Lanterna Verde, principalmente por ele ser a estrela do filme cinematográfico do herói, a grande imprensa não pensou duas vezes em fazer a divulgação de forma a revelar que Hal Jordan era gay. Inclusive dando ênfase a cenas do filme. Acontece que essa “dita” grande imprensa sequer reportou que o Lanterna Verde que se revelou gay era Alan Scott, o primeiro personagem da DC a se chamar Lanterna Verde (e pouco conhecido pelo grande público brasileiro).

Como se o estrago já não fosse enorme, ainda optaram por mostrar outros heróis gays (e até inventar alguns extremamente estereotipados, preconceituosos e de mau gosto), sendo que o casamento de Estrela Polar acabou se tornando apenas “mais um” entre outros. Quase que uma imitação do que a DC queria fazer. De qualquer forma, grande parte da notoriedade da história, por aqui, se deve a esse desastroso caso de falta da informação por parte de quem se profissionalizou em passar a informação.

No caso da DC, infelizmente, o que marcou mais foi o fato de dois personagens do sexo masculino se beijarem. A cena, o quadro, foi mostrado à exaustão em todos os meios de comunicação visual. Acabou se tornando não o fato de existir um personagem gay, mas de existir um beijo gay nos quadrinhos.

Já a história da Marvel, diluída em edições da revista Astonishing X-Men, teve como tratar até de outros assuntos perfeitamente relacionados, como o dilema do namorado de Estrela Polar, Kyle, um ser humano comum, lidar com seu futuro marido supervelocista e que se arriscava contra poderosos vilões. Prova disso é a aventura em si, onde os heróis mutantes enfrentam uma ameaça que está controlando o supergrupo de vilões conhecido como Os Carrascos.

E há também a questão de aceitar ou não se casar com o namorado por uma simples questão de segurança, de acreditar que alguém com uma rotina tão diferente poderá ser o par perfeito até que a morte (que sempre os ronda) os separe. Muito levemente, bem à moda de John Byrne, é interessante notar a repercussão do fato em alguns personagens que se consideram antiquados. E, nem por isso, se consideram donos de uma verdade universal.

A edição da Panini, dentro da revista mix X-Men Extra (que ainda traz histórias dos títulos X-Men Legacy e a divertidíssima New Mutants), se beneficia das pataquadas de divulgação de algo que poderia ter sido feito de forma bem diferente. E, como visto, a editora (e digo tanto a Marvel quanto a Panini) não tem culpa nenhuma quanto a isso. Trata-se de uma edição extra da X-Men Extra. Tanto que a numeração é a de 136.1 (tendo a 136 saído no mesmo mês).

E, sim. Há vários beijos de Estrela Polar na edição. Beijo. Beijo. Sabe beijo? Daqueles que só podem ser chamados de “evento” quando é o primeiro na vida de qualquer pessoa.

Estrela Polar está casado. Na própria história, porém, é citado que algumas das cadeiras, na cerimônia, estão vazias. Diante dos inúmeros personagens que ali estão, supõe-se que essas cadeiras vazias não sejam tantas. Fica a critério do leitor, que compareceu, tentar imaginar quem são aqueles que ainda pensam como décadas atrás.

Duas delas, no entanto, são fáceis de adivinhar. Uma é do Comics Code, que não tem mais força para se locomover. A outra pertence a grande imprensa, que não tem mais bom senso sequer para se atualizar.

X-Men Extra 136.1 – O Casamento do Ano
Editora Panini – Marvel
Roteiro: Marjorie Liu (O Casamento do Ano); Cristos Gage (X-Men Legado); Dan Abnett e Andy Lanning (Novos Mutantes)
Arte: Mike Perkins (O Casamento do Ano); David Baldeon (X-Men Legado); David López e Leandro Fernandez (Novos Mutantes)
Arte-final: Jordi Tarragona (X-Men Legado); Álvaro López (Novos Mutantes)
Lombada quadrada
Colorido
17 x 26 cm
156 páginas
R$ 15,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasEstrela Polar,John Byrne,Marjorie Liu,Marvel,Mike Perkins,O Casamento do Ano,Panini,X-men ExtraUma grande novidade no mundo dos quadrinhos! Um super-herói gay tratado sem estereótipos! E mais: o casamento desse citado super-herói! E uma análise sobre a diferença que realmente vale: como um ser humano comum pode suportar o relacionamento com alguém superpoderoso, que está arriscando sua vida constantemente! Tudo nesse...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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