A primeira vez que li o jargão do Wolverine, onde diz que é o melhor no que faz (seguido do complemento explicando que o que ele faz não é nada bonito), foi na minissérie Wolverine, na década de 1980. Essa revista foi uma espécie de teste definitivo da popularidade do personagem (que já vinha se destacando na revista dos X-Men) e trazia o suprassumo das equipes criativas Marvel da época.

Nesse especial, tínhamos como escritor Chris Claremont, o papa dos mutantes (na época), que durante seu longo período escrevendo sobre os pupilos de Charles Xavier, calçou todos os principais elementos do que hoje é uma franquia multimídia. Nos desenhos, ninguém menos que Frank Miller, que também salvou outro título do cancelamento e o alçou para uma das séries de super-heróis mais cultuadas de todos os tempos: Demolidor.

Essa minissérie original, em quatro partes, mostrava um Wolverine mais crível, sem os “efeitos especiais” de superpoderes mutantes e, inclusive, pouco usa do recurso principal de um super-herói, que é usar um colorido uniforme. Chega ao ponto de suas garras mais parecerem armas brancas como as carregadas por qualquer assassino profissional, fazendo o leitor esquecer até mesmo que saíam de suas mãos e eram banhadas com o fictício e resistente metal adamantium.

Bem diferente, no entanto, é a série O Melhor No Que Faz, publicada recentemente pela editora Panini. Aqui é deixada longe a resposta imediata quando se questiona o que ele faz melhor (que é matar). Porém, cumpre com a sinopse onde se diz que é uma das mais bizarras aventuras de Wolverine (e mesmo levando em conta que o personagem já esteve nas mãos do amalucado escritor Grant Morrison, nos X-Men).

O encadernado publica a segunda metade da série original (sendo a primeira foi publicada em 2012), que havia sido planejada para ser a nova revista mensal do Wolverine no mercado americano. Não deu muito certo e acabou sendo cancelada na décima segunda edição, tornando-se uma espécie de maxissérie do personagem (que, neste caso, também levou um ano para se concluir).

Com roteiro do escritor Charlie Houston (que já escreveu o não menos perturbador Cavaleiro da Lua) e desenhos do espanhol Juan José Ryp, dá continuidade ao confronto do anti-herói com o sádico vilão Winsor. A obsessão de Winsor é usar o fator de cura de Wolverine (este, o verdadeiro poder mutante do herói), assim como de outros personagens com poder semelhante. Até mesmo o obscuro Capitão Louco, capaz de sofrer avarias diversas por seu corpo sem sentir dor, é lembrado nesse pacote.

A intenção do vilão é aprimorar seu próprio poder, que é o de criar e transmitir os mais variados tipos de doença com seu próprio corpo. Dessa forma, cria males cada vez mais mortais, infecta suas vítimas que, com seus superpoderes de cura, encontram uma forma de combater o mal e, assim, fornecem “informação” para que ele crie uma variante da mesma doença cada vez mais forte.

A megalomania do vilão é tão grande, que a extensão de seus poderes não está apenas em um vírus que atinja de forma costumeira. De fato, seu intento é criar uma doença que afete até mesmo o campo místico. Ou seja, ele deseja disseminar seu mal não só para a Terra, mas também para outros planetas e até outras dimensões. E tal maldade, misturando ciência e magia, é uma dica para que o leitor saiba que Winsor foi pupilo de um dos maiores vilões do Universo Marvel que também atuava nesses dois campos. Mas Houston escapa do clichê e mostra que esse “mestre” não é do círculo mutante, o que se torna uma interligação interessante.

Apesar das aventuras de Wolverine já serem naturalmente violentas, aqui isso é muito mais explícito do que se costuma ver. De fato, faltou informar que não se trata de quadrinhos para menores, a ponto de ser digno de uma versão MAX, o selo adulto da Marvel que mostra seus personagens em situações e cenas nem um pouco inocentes. Mesmo assim, não é apenas a violência que choca nas histórias, mesmo que cada requadro esteja recoberto de sangue, tripas, eviscerações, amputações e o que mais a mente doentia dos autores conseguiram colocar.

Levando em conta o poder do vilão, o que é mais forte ainda é certa escatologia nas cenas. Chega a um ponto que o leitor de estômago mais forte vai se sentir compelido a pesquisar sobre os efeitos das diversas doenças ali mostradas e se sentir um tanto frustrado quando descobrir que muitas delas são meramente fictícias. Quem chega até o final da aventura vai ter, sim, a mórbida sensação de querer ver mais.

Fora a parte graficamente escatológica e violenta, outros pontos são importantes na série. O sarcasmo entre outros membros dos X-Men. Diálogos e explicações que não parecem ter sido escritos por uma pessoa normal (e os normais vão reler mais de uma vez para constatar se tem alguma lógica ali). E até mesmo um relacionamento que, por falta de termo melhor, pode ser taxado como homossexual-interdimensional.

Como saldo final, diverte pela curiosidade bizarra e já choca desde o início ao mostrar um Wolverine tentando lutar contra todos os tipos de doença com que foi infectado (em uma continuação dos acontecimentos do primeiro volume). O resultado é uma (aqui) discreta mudança no status quo do personagem, mostrando um passo no que talvez seja uma ambiciosa jogada de marketing que a Marvel planeja com seu mais famoso mutante.

Mesmo assim, Wolverine é resistente e não deixa, em momento algum, de fazer o que faz melhor. Sobra, inclusive, tempo para somar mais uma conquista com o elenco feminino dos x-men. Afinal, como diria a música dos Titãs… o pulso… ainda pulsa.

Wolverine – O Melhor no que Faz nº2
Editora Panini – Marvel
Roteiro: Charlie Houston
Arte: Juan José Ryp
Lombada quadrada
Colorido
17 x 26 cm
148 páginas
R$ 19,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasCharlie Houston,Juan José Ryp,Marvel,O Melhor no que Faz,Panini,WolverineA primeira vez que li o jargão do Wolverine, onde diz que é o melhor no que faz (seguido do complemento explicando que o que ele faz não é nada bonito), foi na minissérie Wolverine, na década de 1980. Essa revista foi uma espécie de teste definitivo da popularidade...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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