Qual o limite ou a diferença entre a realidade e a ficção?

Quando você conta algo que lhe aconteceu, trata-se de realidade, pois você é o protagonista dessa “história”. Até mesmo para a pessoa que ouve sua história, dependendo do grau de intimidade e/ou confiança, não resta a menor dúvida de que se trata de algo real.

Agora, quando você conta sobre algo do qual soube por meio de, digamos, um noticiário, note que o “grau” de realidade pende um pouquinho. Mesmo que a fonte da notícia lhe seja confiável, o fato é que você não estava lá e ficou sabendo apenas pelas palavras e ponto de vista de quem ou do meio que as passou. Note, então, que é natural que a pessoa que ouve a notícia por você recorra a uma pesquisa (ainda mais na velocidade do mundo virtual) sobre o mesmo assunto, por vezes com detalhes que ou enriquecem ou até mesmo vão contra o que você contou.

Seria, portanto, as notícias que lhe chegam um tipo de ficção, pelo simples fato de serem… histórias? E as histórias do passado? O que aprendemos sobre a História ou até mesmo através das religiões… O quanto de realidade existe nelas? Ou… quanto da ficção está em nossa realidade?

A série O Inescrito, publicado recentemente pela editora Panini, traz ao leitor essa intrigante questão, na forma de uma nova série do selo americano Vertigo.

Escrita por Mike Carey e desenhada por Peter Gross (dupla que já é havia se consagrado através da série Lúcifer), conta a história de Tom Taylor, filho do escritor Wilson Taylor, que desfruta da fama do pai, uma vez que esse simplesmente sumiu deixando ansiosos todos os fãs de sua série de literatura fantástica. Wilson inspirou-se em Tom para criar seu principal personagem, não por acaso chamado Tommy Taylor, motivo pelo qual seu filho mantém certo prestígio entre os fãs.

Os problemas começam quando Tom é assediado pelo que parecem ser fãs mais afoitos, que praticamente assumem o papel dos personagens do universo fictício criado por seu pai. Um destes fãs o surpreende com informações a respeito do próprio Tom. Ou melhor, a falta delas. Não há registro de que Tom seja realmente filho do escritor, de sua vida passada até ali e, o mais incrível, sequer um registro “civil” de sua existência.

Um mistério tamanho que deixa intrigado o próprio rapaz, que decide investigar a procura de respostas a esse respeito. Mas o caminho que percorre está sendo observado por pessoas que não veem esse seu interesse com bons olhos, e muito menos terão escrúpulos para detê-lo. O motivo? É algo a ser desvendado no decorrer da série, onde Tom muitas vezes questionará sobre os limites da realidade e da ficção… se é que esses limites existem.

A série abusa de referências ao mundo da literatura, mas, em momento algum, se torna enfadonha para quem não tem conhecimento prévio das obras apresentadas. Pelo contrário. É apresentado de forma a despertar a curiosidade do leitor em potencial. Vale lembrar que é permeado por muita ação, voltando-se mais para o clima de uma elaborada história de conspiração e até mesmo com toques de espionagem.

É interessante notar que, apesar de O Inescrito tratar dos limites entre a realidade e a ficção, tem como pano de fundo as mazelas do universo literário, com suas convenções, jogadas de marketing, negociações e, principalmente, da tietagem descontrolada dos ditos fenômenos de vendas.

A coleção de livros com o personagem Tommy Taylor é claramente uma cópia de Harry Potter, com todos os seus elementos. Isso, inclusive, é tratado pelo próprio Tom, que ainda cita a série de quadrinhos Os Livros da Magia (não por acaso publicada pelo mesmo selo Vertigo e que já foram motivo de polêmica por acusar, vejam só, J. K. Rowling de plagiá-lo em Harry Potter).

Até mesmo os subtítulos da série escrita por Wilson seguem o mesmo padrão da obra de Rowling. A “brincadeira” vai além, dando a esse primeiro volume de O Inescrito (que compila as cinco primeiras edições da série) um subtítulo nesse molde: Tommy Taylor e a Identidade Falsa.

Apesar das capas não serem desenhadas por Peter Gross, mas sim pela japonesa Yuko Shimizu (em um inspiradíssimo trabalho), os dois traços não destoam em suas diferenças, cada qual transmitindo corretamente o clima da série, a sua respectiva maneira.

Para quem já é fã de séries como os já citados Livros da Magia ou, mais recentemente, Fábulas, esse lançamento da Editora Panini vai agradar ainda mais pela costumeira chuva de referências, inclusive a quadrinhos do gênero.

Mas, o jogo com realidade e ficção vai agradar uma variedade maior de leitores, inclusive aquele não afeito com o mundo dos quadrinhos. A quinta edição da séria, aqui contida, é uma espécie de interlúdio que mescla os personagens da mitologia da série com a dramática história de vida do escritor Rudyard Kipling e o universo literário da época em que atuou.

Para os mais novatos, vale lembrar que o encadernado não apresenta exatamente uma saga fechada, mas um início de um longo (e misterioso) caminho para o próprio leitor e para Tom Taylor… cada qual em sua realidade… cada qual em sua própria ficção.

O Inescrito
Editora Panini – linha Vertigo
Roteiro: Mike Carey
Arte: Peter Gross
Lombada quadrada
Colorido
17 x 26 cm
148 páginas
R$ 18,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasInescrito,Mike Carey,Panini,Peter Gross,Vertigo,Yuko ShimizuQual o limite ou a diferença entre a realidade e a ficção? Quando você conta algo que lhe aconteceu, trata-se de realidade, pois você é o protagonista dessa “história”. Até mesmo para a pessoa que ouve sua história, dependendo do grau de intimidade e/ou confiança, não resta a menor dúvida...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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