É comum dizer que quanto mais o personagem se aproxima da realidade de um leitor, mais fácil a assimilação e a popularização do mesmo. Em um universo cheio de ameaças sobre-humanas, sobreviver a uma batalha é mais que uma questão de sorte. É a chance de o leitor sentir um pouquinho que é capaz de estar ali, afinal, ele não tem superpoderes. Batman que o diga (ainda que conte com muita, muita grana).

Mas, existe um personagem que ainda tem esse efeito, só que com uma camada a menos do que um Batman, por exemplo. Tire a camada “ser um milionário e poder financiar muitos brinquedos tecnológicos para enfrentar o crime” e temos um personagem que tem que se virar com o disponível. De certa forma, assim é o Justiceiro, personagem sem nenhum pingo de superpoder faz o possível para sobreviver dentro do Universo Marvel.

É bem verdade que o Justiceiro também conta com a plena ciência de suas limitações. Não foca sua batalha contra o crime em personagens superpoderosos, dedicando-se a enfrentar cartéis do submundo, com bandidos comuns (mas não menos perigosos do que ele mesmo). Ainda assim, apesar de se desviar dos seus conterrâneos poderosos (e seus respectivos inimigos), uma vez que sabe que há gente mais especializada para cuidar desses casos, é o próprio Universo Marvel que, vez ou outra, esbarra no Justiceiro. Ou seja, a fama (ou má fama) de Frank Castle é tamanha, que os superpoderosos é que insistem em esbarrar nele. Talvez até (tentar) detê-lo.

A nova série de histórias do Justiceiro (escrita por Greg Rucka, desenhada por Marco Checchetto e publicada no especial encadernado pela Editora Panini) traz o personagem um pouco mais para o Universo Marvel. Não de mais, como nas rocambolescas fases anteriores, onde o personagem era até mesmo mostrado com uma espécie de monstro de Frankenstein (aliás, chamado de Frankencastle, vejam só…) e nem de menos, como suas histórias solo pela versão adulta da Marvel, o selo Marvel Max (mesmo sendo essa uma fase muito bacana).

Mais do que fazer o dia a dia do Justiceiro trombar com outros heróis da casa, Rucka prefere dar um interessante enfoque nos personagens coadjuvantes, criados por ele nessa nova fase. Dessa forma começamos com a, digamos, origem da oficial Rachel-Cole, que tem seu quase-marido e todos os convidados de seu casamento assassinados, trazendo uma similaridade (intencional) com a origem do próprio personagem título (que também se surgiu quando toda sua família foi morta por mafiosos). Aliás, como a própria personagem lembra a todo o tempo (quase se tornando seu bordão), seu nome agora é Rachel-Cole ALVES, sobrenome de casada, mesmo vindo de uma casamento que não veio a se consumar.

Entre os coadjuvantes ainda temos a repórter Norah Winters, que foi “emprestada” de histórias do Homem-Aranha e serve como principal investigadora do mito chamado Justiceiro e, consequentemente, acaba se tornando uma auxiliar involuntária, senão do anti-herói, pelo menos do próprio leitor (servindo-lhe como alter ego).

Mais curiosa é a inserção de um policial que é uma espécie de homenagem ao detetive William Somerset (interpretado no cinema pelo ator Morgan Freeman no filme Seven, onde fez dupla com Brad Pitt). Trata-se, aqui, do Detetive Oscar Clemons. As semelhanças com o próprio Freeman ficam evidentes em algumas cenas onde o quadro parece mais um trabalho fotográfico feito pelo desenhista Marco Checchetto. Não só isso. Algumas cenas envolvendo Clemons e seu principal parceiro na investigação do “furacão” chamado Justiceiro, o Detetive Walter Bolt, remetem diretamente à algumas cenas de Seven no cinema.

Bolt, aliás, apesar de não ter uma semelhança tão acentuada com Brad Pitt, claramente tem o mesmo tipo de amizade com seu parceiro, tal qual a dupla de investigadores de Seven. Ao contrário do filme, no entanto, a diferença aqui não é investigar um psicopata temático e cruel, mas algo semelhante, supostamente do lado “dos mocinhos”, uma vez que está eliminando não só criminosos, mas aqueles que a polícia ainda só tem como suspeitos. Para o Justiceiro, ser um suspeito já basta para figurar em sua lista de eliminação. Se o suposto meliante não estiver envolvido com o crime investigado, com certeza estará envolvido com outro crime. Ainda assim é um crime. Que merece ser punido.

Nesse primeiro encadernado, não há tanto envolvimento com o Universo Marvel como inicialmente se imaginava (isso ficou para o segundo encadernado). A única incursão superpoderosa é o vilão Abutre. Vilão também oriundo das histórias do Homem-Aranha, ainda que em uma versão mais monstruosa do que o clássico vilão (também inimigo do Aranha) de mesmo nome.

Completando essa edição, a título de curiosidade do leitor, também é publicada a primeira aparição do Justiceiro nos quadrinhos que, adivinhem, também veio de uma história do Homem-Aranha. Apesar de ser um personagem que remetia a violência urbana (tal qual o sucesso de filmes com anti-heróis violentos da primeira metade da década de 1970, quando foi criado), ainda assim o personagem demonstrava certa nobreza em seus atos, diferenciando-o de um mero vilão fanático.

Para completar a edição, uma curta história mostrando a interação do Justiceiro com outros personagens do grupo conhecido como Marvel Knights. Mesmo não interagindo diretamente com ele, Viúva Negra e Demolidor sentem o que representa um exterminador de criminosos como Castle.

A intenção da série, assim como as novas incursões das revistas do Demolidor e do Cavaleiro da Lua (sendo a primeira também publicada pela Panini em forma de encadernado) era revitalizar personagens urbanos do selo Marvel Knights. Algo que não durou por muito tempo, uma vez que o evento editorial conhecido como Marvel Now reiniciou a revista do Justiceiro, pouco mais de um ano depois, fazendo o escritor Greg Rucka pular fora dos rumos que foram dados ao personagem.

O Justiceiro já foi muito mais violento e sanguinário, mas também já passou por fases absurdas. Rucka consegue um contrapeso nesse reinício do anti-herói, que tem a chance de se reapresentar para os leitores. Simples e direto como a boa mira de Frank Castle.

Justiceiro 1
Editora Panini – Marvel Comics
Roteiro: Greg Rucka
Arte: Marco Checchetto
Lombada quadrada
Colorido
17 x 26 cm
148 páginas
R$ 18,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasGreg Rucka,Justiceiro,Marco Checchetto,Marvel Comics,PaniniÉ comum dizer que quanto mais o personagem se aproxima da realidade de um leitor, mais fácil a assimilação e a popularização do mesmo. Em um universo cheio de ameaças sobre-humanas, sobreviver a uma batalha é mais que uma questão de sorte. É a chance de o leitor sentir...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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