O escritor Garth Ennis odeia super-heróis. Odeia TANTO, que tem paixão por eles. É a mesma opinião que ele tem sobre religião. Sua crítica contra religiões é tão ácida e crua, que só com sua insistência n1esse tema é que percebemos que ele sabe tanto a respeito a ponto de ser muito religioso. Sua crítica, então, não é exatamente contra a religião, mas contra a hipocrisia que a conduz.

Da mesma forma isso funciona com seu ódio/amor por super-heróis. Sua raiva é direcionada a indústria dos quadrinhos que desrespeitam o que os super-heróis representam.

A obra de Ennis não sai muito do local comum onde seu estilo é reconhecido. Crítica sem limites, com o máximo de cenas politicamente incorretas que se possa imaginar, tudo regado a muito sangue (mas pense… muuuuito sangue), sexo, uma dose certa de escatologia… e humor do mais negro possível. O nome Garth Ennis já dispensaria qualquer aviso sobre uma obra “recomendada para maiores de 18 anos”. Se ele estiver envolvido, isso já é automático.

Com a criação da série Jennifer Blood, Ennis volta aos mesmos temas e estilo com os quais ele é reconhecido. A personagem é uma dona de casa exemplar, esposa dedicada, mãe de um casal de filhos que ela (aparentemente) dedica todo o carinho que uma mulher exemplar dedicaria. Jennifer, inclusive, sabe muito bem que o trabalho de uma dona de casa nunca termina… isso durante o dia.

Ao anoitecer, após dopar toda sua família, ela se torna uma implacável, experiente e sanguinolenta justiceira. Nem tem tanto trabalho para lidar com criminosos (os quais elimina com requintes de sadismo). Seu maior problema, na verdade, é manter seus dois mundos (a dona de casa e a justiceira) devidamente afastados.

Há quem diga que a personagem é uma forma de Ennis escrever mais histórias com o personagem Justiceiro, com o qual trabalhou na Marvel, só que em versão feminina. Em momento algum o escritor nega essa “influência”. A começar pelo título da primeira história, “Diário de Guerra”, mesmo nome do subtítulo de uma das revistas do super-herói, e a forma como a personagem usa esse mesmo diário como fio narrativo das suas aventuras noturnas, também da mesma forma que o Justiceiro se apresentava na Marvel Comics.

Ennis usa o estereótipo de vigilante e anti-herói que foi tão imitado em outras publicações. Algo parecido com o que faz com o estereótipo mais generalizado de super-herói outra série de sua autoria, The Boys. Por mais que vá contra o que declare em sua entrevista, no final desse encadernado, The Boys ainda tem mais humor negro do que Jennifer Blood. Apesar de algumas piadas ainda estarem lá, sua crítica à hipocrisia do dia a dia e da mesmice de uma família típica são mais fortes do que qualquer momento engraçado.

Exceto pelo recurso, também típico de Ennis, em inserir um coadjuvante atrapalhado e extremamente azarado durante a trama (apesar deste ainda contar com a sorte de sempre escapar com vida, dependendo do ponto de vista).

Reunindo as 6 primeiras edições da série própria da personagem, o encadernado conta com os desenhos de um trio brasileiro, formado por Adriano Batista, Marcos Marz e Kewber Baal. Mas a sanguinolência proposta por Ennis é tamanha que o leitor sequer percebe a troca de desenhistas (Adriano, por exemplo, é responsável pelas três primeiras partes).

As capas das edições (mostradas no encadernados) foram feitas por Tim Bradstreet, velho parceiro de Ennis em outras obras envolvendo o escritor, entre elas Justiceiro, Hellblazer e Soldado Desconhecido.

Também é uma típica história de origem da personagem, explicando, através de suas lembranças, todas as dúvidas a respeito de seu passado e também o porquê dela fazer o que faz. Uma história mais próxima de ação policial que beira o gênero de terror… mas, para se ler sozinho e não chocar curiosos. Ou afastá-los de uma forma tão bizarra quanto Ennis propõe.

Sinceramente.

Jennifer Blood

Editora Panini (Dynamite)
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Adriano Batista, Marcos Marz e Kewber Baal
Lombada quadrada
Colorido
17 x 26 cm
164 páginas
R$ 19,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasdriano Batista,Dynamite,Garth Ennis,Jennifer Blood,Kewber Baal,Marcos Marz,PaniniO escritor Garth Ennis odeia super-heróis. Odeia TANTO, que tem paixão por eles. É a mesma opinião que ele tem sobre religião. Sua crítica contra religiões é tão ácida e crua, que só com sua insistência n1esse tema é que percebemos que ele sabe tanto a respeito a ponto...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe