Para a indústria dos quadrinhos, os anos 1990 foram, no mínimo, espalhafatosos. Mas em uma gama tão ampla da palavra que ela pode ser aplicada em praticamente TODOS os sentidos e em qualquer área. Indo das tiragens megalomaníacas (trapaceada com gente que estocava vários exemplares de uma única edição, acreditando que ela valorizaria no futuro), passando por capas com todo e qualquer tipo de efeito especial (e quanto mais especial melhor, assim o leitor não perceber o “miolo” da revista) e uma nova tendência de desenhos que saltavam aos olhos, quase literalmente.

O fenômeno começou a correr rápido demais, saturando o mercado não só de diversos novos títulos, mas também novas editoras disputando um mesmo espaço. Até os mais tradicionais quadrinhos da época tiveram que ser reformulados para se adaptar a essa nova tendência. E se não tinham um resultado qualitativamente positivo era meramente porque o modelo copiado também não o tinha.

Desenhistas se portavam como super-astros do cinema. Seus nomes atropelavam até mesmo a fama dos personagens que produziam. Não tinham, no entanto, super poderes. Mas se valiam da superexposição. Tão rápido quanto à ascensão, também veio a queda dessas estrelas cadentes que pareciam querer conquistar o mundo com mais obstinação do que o mais ambicioso dos vilões nos quadrinhos. No final das contas, o segredo era administrar a carreira e não apenas escorá-la em seu próprio nome. Dentre os que saíram relativamente ilesos está o escritor e desenhista Todd McFarlane.

Ele já vinha se destacando cada vez mais na preferência dos fãs por seus desenhos e diagramação tão espalhafatosos quanto aqueles tempos. Mas sua consagração dentro da indústria veio através do importante lançamento de uma nova revista de um dos mais icônicos personagens dos quadrinhos. Chamada simplesmente de Spider-Man (sem a palavra “Amazing” que a revista mensal do personagem já carregava), o título foi um sucesso em vendas em sua estreia como nunca havia sido visto antes. Era como se o mercado, os editores, os fãs e os autores gritassem que queriam mais e mais do traço de McFarlane.

O encadernado “Homem-Aranha – Tormento” lançado recentemente pela editora Panini trás as 5 partes onde o herói aracnídeo se vê enredado (ou seria… “enteiado”) em um verdadeiro conto de horror envolvendo vodu, vítimas em becos escuros, recados escritos com sangue nos muros e dentes. Muitos dentes. Uma boca enorme cheia de dentes. Como co-vilão do arco, McFarlane (que também era responsável pelo roteiro) escolheu o Lagarto e o mostrou muito mais feroz e animalesco do que os leitores estão acostumados ver.

E, apesar da história ser um tanto sombria (a seu modo), temos um Homem-Aranha aqui bem mais despreocupado do que popularmente se costuma ver. Então casado com a curvilínea Mary Jane, mostra que realmente gosta do que faz: ser herói. Suas dúvidas aqui estão mais voltadas para quando, como e porque existem inimigos que querem derrubá-lo.

A história nem é tão cheia de reviravoltas ou mistérios assim. O que se vê em cinco edições, em mãos hábeis seria possível de se contar em apenas uma. Exceto quando McFarlane desenha. Normalmente, em uma história em quadrinhos, o texto auxilia o entendimento das imagens sequências e vice-versa. Tudo se encaixa e se complementa. Em Tormento, a narrativa atira o leitor no verdadeiro furacão de cores proporcionado pelo desenhista. Praticamente o lança dentro da boca do Lagarto.

E há as teias. Muitas teias. Saltando aos olhos e a cada requadro meticulosamente ignorado pela diagramação vertiginosa do desenhista. São as famosas teias em formato de espaguete que McFarlane popularizou. E pensar que havia desenhistas que reclamavam do trabalho que as teias do uniforme do herói davam. Chega-se a um ponto que a própria narrativa insiste em dizer ao leitor para prestar atenção no universo de teias que existe em uma única cena (como se ele pudesse ignorar).

O estilo de McFarlane agradava os leitores e, consequentemente, a indústria. Não só por cada página parecer uma arte promocional, mas, sim, cada quadro. Tempos atrás, a ousadia gráfica do artista chegava a ser um problema. Não se lia uma história de McFarlane no sentido convencional. Ia-se do lado para cima, partia-se para a diagonal e… ops… talvez você perdesse algum detalhe ao chegar ao final. Sem problema. A própria arte tratava de quicar o olhar do leitor para um canto impossível de se imaginar antigamente.

Impossível também eram as posições com as quais o Homem-Aranha era desenhado. Muitas vezes flexionando ossos que se costumava imaginar mais rígidos. Mas a intenção, aqui, era das melhores. O leitor mais atento (e, acredite, você vai querer ser atento com cada detalhe, a arte chama pra isso) vai perceber que o “homem” finalmente está em posições que mais lembram uma “aranha”.

Se os quadrinhos tivessem som, a arte de McFarlane falaria alto. Muito alto. Tão alto quanto o barulho que sua presença fez na indústria. Jogador de beisebol frustrado (ele teve que desistir da carreira após sofrer uma lesão), McFarlane, que já era grande fã de quadrinhos, ganhou o público com sua arte de forma relativamente rápida. Chegou às grandes editoras, mas esse céu estava longe de ser seu limite. Após a passagem pela Marvel, ajudou (praticamente liderou) na criação da Editora Image com outros artistas tão “superstar” quanto ele foi à época.

A revolução durou por um tempo. Mas o que sobrava em iniciativa, faltava em know-how que as grandes editoras (ligadas a conglomerados de mídia) tinham de sobra. Tinham. Pois até mesmo as grandes decidiram ouvir o barulho causado pela Image e tentar se adaptar àquela nova forma de apresentar quadrinhos. No saldo final, todos caíram, cada qual aprendendo uma lição importante (em alguns casos a lição era a falência da empresa).

Todd McFarlane via muito além dos quadrinhos. E isso talvez o salvou do pior. Em paralelo a produção de quadrinhos, investiu no mercado de bonecos articulados, produzindo os mais detalhados e variados “brinquedos” de luxo já vistos. Para os quadrinhos (e, verdade seja dita, nem era exatamente tão entusiasta dessa arte), trouxe o personagem Spawn, que representa tudo aquilo que não conseguiu fazer na grande indústria, percebendo que até mesmo os super-astros tem suas limitações.

Curiosamente, essa edição de Tormento traz uma história final com o personagem Gatuno (coadjuvante das histórias do Homem-Aranha), que em muito lembra o visual de seu Spawn, mais até do que o vilão Venom, também criado pelo artista, ao qual atribuem como sendo um “pré-Spawn”.

O Homem-Aranha de Todd McFarlane, com suas teias “macarronescas” e seus olhos gigantes, marcou época e o personagem como a muito não se via. Tornou-se imprescindível para qualquer fã do herói em conhecer essa fase emblemática para a mitologia do personagem e construída pelo artista em sua passagem pelos títulos. Uma responsabilidade ao qual assumiu por vinte e duas histórias espalhadas pelos dois títulos do personagem. Talvez até se atribuindo poderes maiores do que ele imaginasse. Ou talvez o fenômeno que causou no mercado o fizesse ver-se com poderes acima do que um profissional dos quadrinhos era capaz de lidar… de uma só vez… e tão rapidamente.

Lição que aprendeu mais pra frente. Lição que talvez fosse reflexo da época que estava com um personagem que sabe muito bem o peso de se ter grandes poderes.

Homem-Aranha – Tormento
Editora Panini – Marvel
Roteiro: Todd McFarlane
Arte: Todd McFarlane
Lombada quadrada
Capa cartonada
Papel LWC
Colorido
17 x 26 cm
132 páginas
R$ 18,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasHomem-Aranha,Marvel,Panini,Todd McFarlane,TormentoPara a indústria dos quadrinhos, os anos 1990 foram, no mínimo, espalhafatosos. Mas em uma gama tão ampla da palavra que ela pode ser aplicada em praticamente TODOS os sentidos e em qualquer área. Indo das tiragens megalomaníacas (trapaceada com gente que estocava vários exemplares de uma única edição,...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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