Na década de 1980 o termo graphic novel era sinônimo de qualidade gráfica acima do que era publicado normalmente, além de roteiro e arte mais elaborados. Com o tempo e os avanços gráficos, o que antes era um material especial acabou se tornando o “publicado normalmente”. Até então, não seria problema, uma vez que os mesmos avanços proporcionariam materiais com uma qualidade cada vez maior. Graficamente.

Porém, até mesmo a qualidade das graphic novels dos anos 80 caíram no grande problema dos quadrinhos de grande massa (principalmente os do gênero de super-heróis): a quantidade acima da qualidade. Nesse quesito, banalizou-se o próprio trabalho, ou seja, os roteiros e a arte já não tinham um tratamento tão específico para esse tipo de publicação e nem mesmo havia uma seleção tão criteriosa do que poderia ser publicado como um material especial.

Mesmo assim há de se destacar histórias que eram de tão alta qualidade em roteiros e desenhos, que estavam acima até mesmo da qualidade gráfica do álbum. É aquele tipo de quadrinhos que se tornam marcantes e que ficam para sempre na memória dos leitores e são procurados pelos novos leitores por sua importância e boa fama. Graças a esses bons trabalhos, a seleção de um material especial acabou tomando um caminho contrário. Afinal, haviam muitas histórias publicadas mensalmente (no ritmo “industrial” dos quadrinhos de super-heróis), que mereciam uma republicação mais luxuosa, com o que há de mais elaborado dentro do que os avanços gráficos permitem atualmente.

Triunfo e Tormento, originalmente uma graphic novel do final dos anos 80 (no Brasil publicada pela primeira vez nos anos 90), é justamente o tipo de material que, se já não fosse planejado para ser um material especial em sua época, com certeza merecia uma republicação à altura devido ao carinho que os leitores têm por ele. Um material único que independe de cronologias e mitologias dos personagens. Talvez uma das mais cultuadas graphic novels de seu período. E é justamente esse material que a editora Panini republica com a qualidade gráfica digna de sua importância.

Chega a ser inusitada a reunião de dois personagens tão diferentes quanto o super-herói místico Doutor Estranho e o super-vilão Doutor Destino. Este último, inclusive, tinha como seu ambiente, as histórias do Quarteto Fantástico, bem diferente do clima pseudo-místico do Estranho. Mas a ideia faz sentido quando se nota os extremos dos dois personagens.

Em comum apenas o fato de serem “doutores” em seus codinomes. O extremo que vemos aqui é a velha luta da magia contra a ciência. E mais interessante ainda quando esses dois elementos tem que se unir para superar um grande desafio.

O fio condutor da história, na verdade, está ligado às origens do Doutor Destino. Nascido em uma tribo de ciganos que foram cruelmente perseguidos pelos governantes de um país da Europa, Victor Von Doom perdeu sua mãe quando ainda era bebê. Antes de sua morte, Cynthia Von Doom, mulher batalhadora que não se conformava com as injustiças praticadas contra seu povo (de certa forma, de uma genialidade forte, a qual seu filho herdou, em parte, em temperamento), procurou no misticismo uma forma de revidar contra seus opressores.

A busca levou a fazer um pacto com o demônio Mefisto, que lhe deu poder suficiente para acabar contra aqueles que os perseguiam. Porém, pactos com o demônio nunca acabam bem. Mas Cynthia percebeu que seu poder não direcionava e nem mesmo lhe permitia um maior controle. Com isso, caiu em desgraça e sua alma foi levada por Mefisto para as profundezas do Hades.

Voltando aos dois protagonistas da história, vemos uma espécie de torneio entre místicos do universo Marvel no qual todos se surpreendem com a presença de Destino que, até então, em nada tinha em comum com os presentes. Mas, apesar de seu poderio estar mais relacionado com a ciência, Destino acreditava que qualquer tipo de conhecimento era válido para se obter poder. E os conhecimentos místicos de sua mãe estavam inclusos na vasta busca por saber a que se submeteu. Dessa forma, mesmo em uma proporção menor, o vilão tinha sim algo de místico em sua existência.

Vencer um torneio místico não era apenas uma disputa por um status dentro do círculo de místicos. Tinha a ver também com a sabedoria do envolvido e a índole diante de um grande desafio. Para tanto, após o Mago Supremo ser eleito, cabia a ele conceder uma dádiva a um dos derrotados. Como nem sempre as coisas saem como planejado na magia, o escolhido, Doutor Estranho, se vê na dura tarefa de conceder uma dádiva ao Doutor Destino. Porém, para a surpresa de Estranho, o vilão não é tão insidioso diante da oportunidade. Tudo que ele quer (como se fosse tão simples) era resgatar a alma de sua mãe das garras de Mefisto.

A jornada que ambos percorrem traz uma interessante visão sobre o conceito de cada um. O herói carrega ao tempo todo a insegurança em confiar em alguém que pode traí-lo a qualquer momento. De certo ponto de vista (e, em dado momento, chega a ser evidente), chega a transparecer certo preconceito por parte do Doutor Estranho.

Já o vilão carrega ao tempo todo a honra e a palavra que seu nome carrega. Vale lembrar que Destino não é um mero vilão do tipo que pretende conseguir dinheiro ou riquezas. Como Doutor Destino, ele se tornou governante em seu país. Um ditador temido ou adorado pelo povo que vive aos seus pés, algo que nem mesmo o mais sábio dos heróis é capaz de distinguir. E, como monarca, a palavra de Destino está longe de ser falsa.

Mesmo quando demonstra segundas intenções, planeja de forma a não recorrer a mentiras ou truques. Apenas comanda a situação a seu favor de forma que seus próprios oponentes o subestimem. Algo que Estranho faz o tempo todo. Nem mesmo Mefisto, em toda sua onipotência, chega aos pés do coração negro de Destino.

O roteiro do escritor Roger Stern é recheado de detalhes das origens de ambos os personagens. Destino, nesse caso, tem mais momentos inéditos aos leitores do que Estranho. E se há uma comparação entre essas origens, é possível identificar outra espécie de paralelos inversos entre eles. Destino surgiu de um ambiente de certa forma humilde e passou por momentos traumáticos que o tornaram o vilão arrogante (ou com uma honra exagerada) que é hoje. Já Estranho era um cirurgião extremamente arrogante e mesquinho, passando por momentos traumáticos que o tornaram o sábio herói que é hoje.

Já os desenhos são um espetáculo a parte. Sendo exatos para o clima sombrio que a história pede, são feitos por Mike Mignola, que ficaria futuramente famoso por uma criação não menos infernal que o reino de Mefisto: Hellboy. Um traço simples, muito eficiente e com extrema perspicácia em tratar o ritmo narrativo da história, permeando com momentos que mais se assemelham a quadros em uma galeria.

Sua obra ainda ficaria mais estilizada do que aqui é mostrada. No entanto, o estilo é o mesmo. O que diferencia sua arte em Triunfo e Tormento de seus trabalhos atuais é que na primeira ele foi auxiliado pela arte-final de Mark Badger. Não é uma comparação desse ou daquele ser melhor, uma vez que Badger acompanhou essa incrível jornada de forma digna e perfeita.

Trinfo e Tormento se tornou lendária na época de sua primeira publicação e hoje é notável como se tornou atemporal. Uma graphic novel, no mais atualizado sentido do termo, que nasceu para se tornar inesquecível no passado e perpetuar todas essas qualidades no presente.

Doutor Estranho e Doutor Destino – triunfo e tormento
Editora Panini – Marvel
Roteiro: Roger Stern
Arte: Michael Mignola
Arte Final: Mark Badger
Lombada quadrada
Capa dura
Papel Couché
Colorido
20,5 x 27,5 cm
86 páginas
R$ 21,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasDoutor Estranho,Mark Badger,Michael Mignola,Roger SternNa década de 1980 o termo graphic novel era sinônimo de qualidade gráfica acima do que era publicado normalmente, além de roteiro e arte mais elaborados. Com o tempo e os avanços gráficos, o que antes era um material especial acabou se tornando o “publicado normalmente”. Até então, não...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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