O estilo noir (pronuncia-se no-ar) foi popularizado no cinema, tendo seu auge durante a década de 1930. Foi tão copiado que muitos consideram mais que um estilo, tratando-o como um gênero ou subgênero dos filmes policiais. Curioso notar que, entre os filmes que ganham esse rótulo, há o que alguns considerariam uma repetição de clichês. A mulher fatal e misteriosa, o protagonista quase inocente enfrentando o mundo podre a sua volta, a solidão diante de situações que parecem piorar a cada passo.

Todos esses elementos estão, de uma forma ou outra, presentes em um filme noir. Há também aspectos mais técnicos que envolvem a iluminação (basicamente natural), o clima sufocante, a narrativa in off do protagonista (ou de outro personagem, no caso de uma reviravolta) destacando ainda mais a solidão (por ter apenas o espectador como testemunha de seus problemas), a impressão de existir conspiração em cada canto, o recurso de se contar a história como recordação de algo que já deu errado e, por assim dizer, o final, que nem sempre encontra uma situação em que o “bem vence o mal”, por mais dúbia que seja a tarefa de separar o “bem” em um mundo corrupto.

A editora americana Marvel Comics criou um universo paralelo para seus conhecidos super-heróis, onde eles vivem em um mundo que tem todas as características de um bom noir. Homem-Aranha, Homem de Ferro, Justiceiro, Wolverine, Luke Cage e até mesmo os mutantes X-Men tiveram suas versões noir apresentadas em minisséries nesse contexto. Muitas dessas séries já foram publicadas no Brasil pela editora Panini, que as transformou em belos encadernados. O mais recente desses lançamentos é Demolidor Noir.

Há quem diga que essa versão do Demolidor é um dos melhores lançamentos da linha Noir. Isso talvez aconteça por um motivo muito evidente. O Demolidor, o herói cego que atua no submundo urbano do universo Marvel, mesmo em seu universo Marvel “normal” já é um personagem cujas histórias têm seu clima e muito dos elementos noir. Pegue qualquer história do herói e leia com uma trilha sonora embalada por um saxofone jazzístico e perceberá a incrível mudança.

A ambientação em um novo universo, destacando essa temática, se não fosse essa a intenção seria mais uma aventura do Demolidor, como em muitos momentos já aconteceram nas histórias do personagem. A mudança aqui é mais visual do que conceitual, focando mais em detalhes de sua origem, uniforme e coadjuvantes.

Assim como nos bons filmes noir, a ambientação para as histórias dessa linha supostamente se passam durante a década de 1940. Nesse contexto, é bom lembrar que ainda não era tão comum utilizar temas que envolvesse a radioatividade. Isso foi recorrente na maior parte da origem dos personagens Marvel, quando surgiram na década de 1960 (reflexos de um mundo em polvorosa com a Guerra Fria e o temor de um possível conflito nuclear, tão alardeado por obras de ficção), mas aqui isso ainda era mera ficção científica.

Dessa forma, a origem do personagem em versão noir teve um motivo para a adaptação. No caso do Demolidor, herói que ganhou seus poderes de percepção sensorial ao ser atingido acidentalmente por material radioativo (porém, perdendo a visão), aqui tem uma interessante versão da mitologia.

O pai de Matt Murdock (identidade do Demolidor) era um boxeador que foi morto pelo submundo corrupto dessa modalidade. Cercado em um beco escuro, Matt viu seu pai ser assassinado e, ao revidar contra o criminoso (lembrando que Matt ainda era criança), acabou levando uma pancada tão forte em sua cabeça, que acabou perdendo a visão. Porém, mais tarde, Matt percebeu que, mesmo cego, seus outros sentidos também foram afetados, só que de forma a serem mais ampliados.

Assim, o herói é capaz de ouvir perfeitamente as batidas do coração de outra pessoa, sentir odores de forma a identificá-los perfeitamente ou mesmo sentir a textura do solo aos seus pés de uma forma que não perceberia caso ainda tivesse visão.

O interessante aqui é que essas capacidades são narradas de acordo a percepção do próprio personagem e somente ele. Recurso utilizado no estilo noir, essa “conversa solitária com o espectador” dá outro lado dos poderes do Demolidor: teria ele realmente adquirido poderes ou é apenas sua imaginação que o faz acreditar nisso, uma vez que ninguém mais poderia provar se realmente é verdade?

De qualquer forma, a fé que Matt tem em suas novas capacidades o leva a se tornar uma espécie de artista de entretenimento, fazendo sucesso por ser um cego capaz de movimentos e acrobacias tão complexas. Nesse universo, um advogado cego (como ele é no universo Marvel original) não é muito comum perante a sociedade. Cabe a Matt, portanto, assistir a julgamentos apenas como espectador.

Essa é a única forma de vigiar crimes que clamam por justiça. Com isso, cria a identidade de Demolidor, que já utilizava em sua vida artística. Porém, somado a suas capacidades acrobáticas, a utiliza para atacar o submundo.

Há, ainda, uma mudança notável nessa versão. Esse Demolidor não é um mero vigilante que apenas intimida criminosos. Aqui, Demolidor é uma espécie de justiceiro, bem mais violento do que sua versão original. Em certo momento, tem-se a impressão que ele executa seus inimigos implacavelmente, algo que os autores não mostram tão explicitamente, mas também não negam, deixando a interpretação para o próprio leitor.

Um destaque de mudança quanto à adaptação a esse novo universo fica por conta do principal inimigo do Demolidor, Wilson Fisk, o vilão conhecido por Rei do Crime. Na versão noir, Fisk lembra muito o vilão Lex Luthor, inimigo do Superman (da editora concorrente DC Comics). Bem mais esbelto do que sua versão original, porém ainda careca, o Rei do Crime se assemelha a Luthor devido ao seu cinismo, muito mais acentuado aqui. Sem exagero nenhum, e até mesmo intencionalmente, Fisk domina esse especial, provando que também é um típico personagem do mundo noir.

Essa edição brasileira ainda conta com uma entrevista exclusiva com os autores e um prefácio, também exclusivo da edição brasileira, feito pelo próprio escritor, Alex Irvine. Ambos, inclusive, mostram-se claramente simpáticos com o público brasileiro.

A arte sombria de Tomm Coker (com o perfeito trabalho de cor de Daniel Freedman) dá o clima perfeito para o clima da história, destacando-se o tratamento quase fotográfico dado aos coadjuvantes, que acabam se tornando mais fantásticos do que o herói fantasiado.

Demolidor Noir é um especial no qual se nota o carinho com que foi feito. Não é o tipo de material no qual se encontra o maniqueísmo típico de uma história de super-heróis. Mas, quando o leitor mais ingênuo perceber, já estará envolvido com esse mundo de corrupção, reviravoltas e onde a escuridão, acredite, é o lugar onde se está mais seguro. Mesmo para um herói cego.

Demolidor Noir
Editora Panini – Marvel
Roteiro: Alex Irvine
Arte: Tomm Coker
Cores: Daniel Freedman
Lombada quadrada
Capa dura
Papel Couché
Colorido
17 x 26 cm
112 páginas
R$ 22,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasAlex Irvine,Daniel Freedman,Demolidor,Marvel,noir,Panini,Tomm CokerO estilo noir (pronuncia-se no-ar) foi popularizado no cinema, tendo seu auge durante a década de 1930. Foi tão copiado que muitos consideram mais que um estilo, tratando-o como um gênero ou subgênero dos filmes policiais. Curioso notar que, entre os filmes que ganham esse rótulo, há o que...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe