O Demolidor é o personagem mais feliz do Universo Marvel. Enquanto todos os outros heróis e vilões Marvel vivem lamuriando por sua condição ou por alguma crise atual, o herói cego demonstra que gosta, e muito, do que faz: ser herói.

Não importa a tragédia por que passe. Sua maior preocupação, na verdade, está voltada para as pessoas que o rodeiam. Afinal, muitas das pessoas próximas a ele acabaram morrendo. Ainda assim, nenhuma tragédia o fez pensar em desistir de lutar. Tanto que, em muitas ocasiões, o mais próximo de ter crises foi uma espécie de estafa, excesso de ação.

Em comparação com os outros, nem se pode dizer que ele tem uma origem menos traumática. Cego por um isótopo radioativo (que lhe concedeu ampliação dos outros sentidos), ainda garoto perdeu seu pai para o crime organizado das lutas. Mas Matt Murdock insiste em ficar firme e forte.

O sub-universo do Demolidor tem como característica histórias mais sombrias, um clima mais urbano, beirando o suspense policial. Mas houve uma época em que o personagem era mais alegre. Quase brincalhão. Foi apenas depois do escritor Roger McKenzie e o desenhista Frank Miller trabalharem com ele, que suas aventuras ganharam mais peso. Crime organizado, ninjas e um leve e gótico tom de religiosidade marcaram o personagem e o tornaram cultuado por tanto tempo.

Cult até demais. Apesar de querido por um público fiel, nunca emplacou uma revista mensal no Brasil que durasse muito tempo (apesar de que a última tentativa da Panini durou quase três anos). Quando publicado pela Abril, se tornou a principal atração da revista Superaventuras Marvel. Como o nome demonstra, não era uma revista voltada a um único personagem.

Porém, com o Demolidor, que já saltava de prédio em prédio no primeiro número desse título, a revista encontrou seu principal protagonista entre boas histórias publicadas, e outras nem tanto. Mas, foi ali que o público se acostumou com o climão pesado que transformava o mundo do advogado herói em um beco escuro e gigante, onde a mais podre espécie de criminosos pudesse espreitar.

É notável, portanto, que uma volta às origens do personagem fosse tão alardeada. Tornar o Demolidor alegre como antigamente, deixando pra trás todo o clima pesado que tanto o caracterizou? Parecia loucura, uma tentativa final de exterminar o herói das bancas. Mas não para o escritor Mark Waid e os desenhistas Paolo Rivera e Marcos Martin. Ao “olhar para trás”, a dupla criativa elevou as histórias do personagem com uma fórmula muito simples: não há má ideia, isso só depende de como ela é contada.

E isso vale tanto para o roteiro de Waid, que coloca o personagem junto a personagens do segundo escalão da Marvel, devidamente explorados com muita competência, quanto para a arte de Rivera e Martin que trazem a essência de usar desenhos para se contar uma história sequencialmente.

Há situações em que uma equipe criativa de uma história em quadrinhos trabalha tão bem, está tão bem integrada, que isso é notável no decorrer da história. Quando deparamos com uma cena, uma apenas, que parece destoar do ritmo, mas que diz muito para o leitor, é uma prova de que o desenhista entendeu perfeitamente o clima proposto pelo escritor e o escritor conhece muito bem a capacidade de seu parceiro de arte para transmitir a mensagem, a cena ou mesmo a piada que surja em sua mente.

É aquele quadro que você olha e ele não precisa de uma cena antes e nem uma cena depois para se entender o que vai acontecer. É uma empatia que se transmite, com sucesso, para o leitor. Isso acontece em uma quantidade de vezes absurda em cada uma das histórias. Eu diria até que em cada uma das páginas dessa nova fase.

Essa nova série do Demolidor, traz o personagem alegre de antigamente, que é evidente por seu constante sorriso no rosto. Não um sorriso cínico dos anos 1980, ou um sorriso escancaradamente sem emoção dos anos 1990. Mas um sorriso sincero, que se torna (como dito antes) uma espécie de cena onde o leitor consegue compreender como Matt Murdock adora ser um super-herói. É uma mensagem dita muito claramente e sem palavras. Apenas com sorrisos aqui e ali. Sorriso que acaba se tornando quase que um personagem a parte.

Existem, sim, mudanças importantes feitas no sub-universo do Demolidor. Não vemos mais, por exemplo, o cenário claustrofóbico da Cozinha do Inferno em suas histórias. Até mesmo o escritório de Nelson & Murdock parece mais claro, arejado, amplo. No decorrer das histórias, até mesmo uma forma muito peculiar de advogar surge na mente do herói.

E até mesmo esse lado “sem super poderes”, do dia a dia de um advogado é feito de forma leve e muito interessante. E até ao final desse encadernado, no qual a editora Panini publica as seis primeiras edições dessa série, vemos que a situação do Demolidor (e mesmo de Matt Murdock) fica muito mais séria para um personagem “menos poderoso” que ele. Ao contrário do que se possa imaginar (ou como vocês já devem ter percebido) é uma situação que Murdock simplesmente adora.

Poderia se dizer que é uma reformulação radical do personagem, levando em conta que ela não foi exatamente gradual. Porém, ao contrário das reformulações de personagens de quadrinhos (algo que o leitor aprendeu a temer) que acontecem hoje em dia, ela respeita tudo que o personagem passou até agora. Assim como suas raízes mais alegres, os acontecimentos da fase sombria também são respeitados.

Um dos elementos mais interessantes dessa fase, que é identidade secreta se tornar pública, ainda traz reflexos tanto para os coadjuvantes quanto aos meros figurantes das histórias. Cabe a cada personagem questionar ou mesmo acusar Murdock de ser o Demolidor. E cabe a ele, como bom advogado, negar sempre essa situação, sem alongar maiores comentários a respeito.

Também é de muito bom gosto, e prova de carinho que os autores tiveram pelo personagem, a forma de introdução de cada história, resumindo o capítulo anterior em forma de uma página de jornal, onde aproveitam para homenagear cada um dos profissionais que escreveram ou desenharam o herói durante as décadas em que existe.

Há vilões que parecem estar sendo resgatados do limbo para essa “peneira” de reformulação de Waid, com resultados muito interessantes, visões e versões que até então não foram exploradas devidamente. Até mesmo outros personagens do Universo Marvel, quando participam dessas aventuras, são mostrados por um ângulo bem interessante. Ao mesmo tempo em que traz um clima de “como não pensaram nisso antes para esse personagem?”, também é bem dosado no que diz respeito a excessos.

A nova série do Demolidor não foi premiada ao acaso. Não está sendo ansiosamente esperada pelos leitores ao acaso. E muito menos está sendo elogiada (que eu saiba unanimemente) ao acaso. É, acima de tudo, uma excelente revista em quadrinhos, no melhor sentido do termo, sem se preocupar com sagas, continuações, interligações, reformulações ou excessos radicais feitos apenas para chocar visualmente o leitor. É uma história em quadrinhos que cumpre muito bem a nobre tarefa de entreter e deixar o leitor, assim como o herói, com um leve sorriso de satisfação no rosto.

Demolidor, de Mark Waid, Paolo Rivera e Marcos Martin
Editora Panini – Marvel
Roteiro: Mark Waid
Arte: Paolo Rivera e Marcos Martin
Arte-final: Joe Rivera
Lombada quadrada
Capa cartão
Papel LWC
Colorido
17 x 26 cm
148 páginas
R$ 18,90

Marcos DarkNas bancas / Nas livrariasDemolidor,Marcos Martin,Mark Waid,Marvel,Panini,Paolo RiveraO Demolidor é o personagem mais feliz do Universo Marvel. Enquanto todos os outros heróis e vilões Marvel vivem lamuriando por sua condição ou por alguma crise atual, o herói cego demonstra que gosta, e muito, do que faz: ser herói. Não importa a tragédia por que passe. Sua maior...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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