Sexto volume da Coleção Salvat agrada até quem não é fã do Capitão

Quando eu ainda era uma criança, nos longínquos anos 70, o primeiro gibi que ganhei do meu pai foi Capitão América. Eu ainda nem sabia ler, mas adorava ver as figuras que reconhecia dos desenhos animados (ou inanimados), que passavam na televisão, baseados nas histórias clássicas do Jack Kirby. Por ironia do destino muitos anos mais tarde eu achava o Capitão América um pé no saco, careta e chato. Se existisse um país dos coxinhas, provavelmente, o governo seria alternado entre o Super-Homem e o Capitão América, que disputariam o cargo de Coxinha Supremo!

Voltei a gostar de verdade do velho soldado só no final dos anos 1990, na fase escrita por Mark Waid, mas depois disso não li mais nada dele, apesar de escutar as boas críticas, principalmente das histórias escritas por Ed Brubaker. É justamente esse material que a editora Salvat lançou no Brasil como parte de sua coleção.

Brubaker deixa de lado aquela história de um homem fora do seu tempo, cujos os valores não conseguem acompanhar a modernidade para investir em uma trama de ação, mais voltada para espionagem, e acerta em cheio com isso.

O enredo é cinematográfico, privilegiando a ação, como um bom filme, mas sem esquecer de construir um bom roteiro. A primeira vista até parece que o autor seguiu o caminho mais fácil, afinal, ele começa o arco de histórias matando o principal inimigo do herói, o Caveira Vermelha, algo que já foi feito antes, e envolve o Cubo Cósmico nos acontecimentos.

Porém, o que acontece em seguida é uma modernização seguindo a história contemporânea, saem os nazistas como os principais inimigos da humanidade, e entra em cena a máfia russa. Na verdade isso já foi feito antes nos filmes do James Bond, e em vários outras produções; com a queda da antiga União Soviética era preciso encontrar um novo arqui-inimigo da democracia, então, as atenções se voltaram para as organizações criminosas russas, que contam com muitos ex-militares em suas fileiras, que buscaram uma outra ocupação mais rentável, após o desmantelamento da máquina estatal soviética. Pelo menos isso é o que dizem.

A partir daí o roteiro é construído, com o Capitão América e a Shield investigando a morte do Caveira Vermelha, que foi traído por um criminoso russo, ao tentar comprar um misterioso artefato, que não é revelado aos leitores, deixando o gancho para as próximas edições. O problema é que as investigações não avançam porque os heróis parecem sempre estar um passo atrás de um matador desconhecido, que entre outras coisas, assassina um antigo parceiro do Capitão: o Nômade.

A arte também não fica atrás do roteiro, contando com os talentos de Steve Epiting e Michael Lark. Epiting é um veterano desenhista de quadrinhos, cujo estilo sempre foi calcado no Marvel Way, tendo como principal influência na sua arte John Buscema. Aqui o que vemos é uma tentativa do artista de se modernizar, com um desenho mais sombreado, com composições mais trabalhadas, muitas vezes usando referências fotográficas.

Apesar dos ótimos desenhos, a arte de Steve Epting perde o tom mais exagerado, típico do quadrinhos Marvel, e fica mais séria, e em alguns momentos perdendo um pouco de expressão. Quase todas as vezes em que é mostrado o rosto de um personagem em close, há uma sombra pesada nele, com a tentativa de dar dramaticidade, mas o que acontece é a falta de expressão, pois todos parecem ter a mesma cara. Mesmo assim é um belo trabalho do artista.

Já Michael Lark se supera nas sequências de flash-back da Segunda Grande Guerra, com um desenho simples, bem construído, estilizado na medida certa, que enriquece muito as cenas passadas na década de 1940. O ponto fraco da arte fica por conta da última história, um interlúdio, em que o autor mostra o que aconteceu na vida do Nômade antes dele ser morto.

Talvez por um erro do editor original, foram reunidos dois ótimos profissionais, o desenhista John Paul Leon, e veterano arte-finalista Tom Palmer que, infelizmente, não se acertaram trabalhando em conjunto. O estilo de arte-final de Palmer descaracteriza muito a arte de John Paul, que é marcada por sombras densas e uma anatomia um pouco estilizada, que graças a arte-final, acaba ficando mais limpa e mais redondinha, mais tradicional.

Antes de ler a edição, que peguei emprestada da minha namorada, eu dei uma olhada e pensei: caramba lá vem aquela velha história do Caveira e do Cubo. Não há outro tema para se escrever uma história?

Mas qualidade do roteiro de Ed Brubaker realmente me surpreendeu, apesar do foco na ação, ao começar a ler a história é difícil querer parar de ler. O problema é que o encadernado contém apenas sete volumes da revista mensal, então, quando o enredo está próximo do seu desfecho, no momento em que Sharon Carter reconhece o matador, que é um velho conhecido do leitores da Marvel, que inclusive estará presente no próximo filme do Capitão América, a diversão chega ao fim, e temos que esperar até o lançamento do outro volume.

A boa notícia é que no começo do próximo ano será lançada a continuação, portanto, os leitores não terão que esperar tanto para conhecer o desfecho da saga. Para não perder meu hábito, encerro com meu velho bordão: vale a pena ler Capitão América – Tempo Esgotado, mesmo se você não for um grande fã do personagem.

Capitão América – Tempo Esgotado
Editora Salvat
Coleção Graphic Novels Marvel n° 44
Roteiro: Ed Brubaker
Arte: Steve Epting, Michael Lark e John Paul Leon
17 x 26 cm (formato americano)
168 páginas
R$ 29,90

Fred TavaresNas bancas / Nas livrariasCapitão América,Ed Brubaker,John Paul Leon,Michael Lark,Salvat,Steve Epting,Tempo EsgotadoSexto volume da Coleção Salvat agrada até quem não é fã do Capitão Quando eu ainda era uma criança, nos longínquos anos 70, o primeiro gibi que ganhei do meu pai foi Capitão América. Eu ainda nem sabia ler, mas adorava ver as figuras que reconhecia dos desenhos animados (ou...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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