Muitos têm medo de piscina. Ela parece o local propício para traumas. Já fui jogado em uma quando era criança e fui aprender a nadar com mais de 20 anos. O Laerte Coutinho em um álbum autobiográfico fala do seu medo de piscina em duas páginas: uma por causa de um episódio de “Jim das Selvas” e na outra quando assistiu o filme “O Monstro do Mar Revolto” (1955).

A piscina pode causar diferentes sensações e se transformar em um universo envolto de azulejos, água e cloro e silêncio. É nesse ambiente cheio de sensibilidade que se passa e excelente O Gosto do Cloro (Le Goût du Chlore), do jovem autor francês Bastien Vivès, publicada em março de 2012 pela Leya / Barba Negra.

Publicada originalmente em 2008, a graphic novel O Gosto do Cloro é a primeira obra de destaque de Bastien Vivès e já ganhou várias edições pelo mundo dando ao artista o prêmio de revelação no Festival d’Angoulême de 2009, o que faz de Vivès ser o quadrinhista francês mais celebrado da sua geração.

Todos acabam na piscina por algum motivo, nem que seja apenas para pura diversão. Em O Gosto do Cloro o personagem principal vai nadar por causa de um problema nas costas. A história quase não tem diálogos, mas impressiona por dizer muitas coisas. É como o fragmento do filósofo Heráclito: “um homem ao cruzar um rio, já não é o mesmo quando chega na outra margem”.

A falta de diálogos reflete o que você mais vai encontrar na obra: o silêncio extremo. Em uma piscina pública os nadadores são corpos anônimos que estão lá para nadar, não para conversar. É nessa piscina em Paris que acontece um encontro casual, e aí o silêncio passa a ser contemplação.

Nadar para ele é um ato repetitivo, só praticado por recomendação do fisioterapeuta. Para ela significa se distrair. A vontade dele de continuar indo a piscina toda quarta-feira à tarde só é motivada por causa do sorriso e do corpo esguio dela.

Com o passar das semanas as habilidades dele são aprimoradas graças a jovem nadadora, que já é a sua paixão, e nos dias em que ela não aparece, surge o desapontamento. Dessa relação flutuante presenciamos o momento mais importante da trama, que acontece embaixo da água. Algo é dito, mas não pode ser compreendido. Soa banal, mas não é, e sim, sufocante.

Bastien Vivès nos apresenta um grande álbum. Um traço simples com um colorido muito bacana, que expressam a calmaria das piscinas. Destaque para os ângulos que representam o ponto de vista do nadador no momento das aulas.

O Gosto do Cloro é mais uma publicação da Leya / Barba Negra com acabamento gráfico impecável, com papel, formato e impressão de primeira.

O Gosto do Cloro
Leya / Barba Negra
Autor: Bastien Vivès
18,5 x 27 cm
144 páginas
R$ 49,90

Renato Lebeauhq que aconteceBarba Negra,Bastien Vivés,Leya,O Gosto do CloroMuitos têm medo de piscina. Ela parece o local propício para traumas. Já fui jogado em uma quando era criança e fui aprender a nadar com mais de 20 anos. O Laerte Coutinho em um álbum autobiográfico fala do seu medo de piscina em duas páginas: uma por causa...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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