Guy Delisle tem uma vida muito diferente daquela profissão solitária dividida entre o computador e a prancheta, com a qual muitas pessoas costumam associar, não sem razão, como sendo o dia a dia de um quadrinhista.

Como profissional no setor de animação, ele trabalhou em lugares como França, China e a fechada Coréia do Norte. Como marido de uma mulher que trabalha na instituição Médicos Sem Fronteiras, ele viaja para países que necessitam da presença dessa e de muitas outras organizações humanitárias, como é o caso da Birmânia, por exemplo.

E esse estilo de vida diferente acaba refletindo também em suas HQs mais recentes, fruto de uma estadia de um ano da família Delisle na cidade sagrada de Jerusalém.

Crônicas é um título muito apropriado para esta edição, uma vez que o autor não está preocupado em contar uma história com começo, meio e fim, seguidora de gêneros como ação, aventura, terror ou carregando surpresas ao virar das páginas. Ao invés disso, a HQ é uma espécie de diário de viagem, composta por registros rápidos e aleatórios do cotidiano. Como se, ao invés de fotografias, Delisle preferisse registrar sua estadia com uma história em quadrinhos, sob um olhar atencioso para as questões do dia a dia, como um verdadeiro turista que chega a determinado lugar e esta aberto a todas as experiências que a região tem a lhe oferecer.

Auxiliado por seu traço e diagramação simples e uma tonalidade monocromática de suas páginas (que refletem toda a aridez da região), essa proposta acaba envolvendo completamente o leitor, tornando-o também um turista na cidade, passando por situações banais ou curiosas.

E situações é que não faltam. Entram na lista perder a chave do carro no fosso do elevador; frequentar o terraço de um hospício para ter uma vista privilegiada do lugar; passar um final de semana em tel aviv; se perder no centro de Jerusalém; conhecer um padre que lê Hellsing; visitar o único campo de futebol no mundo localizado dentro do terreno de uma catedral; se confundir com as regras e horários dos estabelecimentos (cada um de acordo com sua religião, de modo que um mercado cristão vende bebidas alcoólicas e fecha aos domingos, um mercado mulçumano fecha na sexta e não vende álcool, um estabelecimento judeu fecha aos sábados e por ai vai); se surpreender como o fato de não haver pontos de ônibus (você pode pegá-lo em qualquer lugar) etc.

Isso acaba nos dando uma visão muito mais rica da cidade do que teríamos lendo algum panfleto de viagem ou pelo noticiário.

Por falar em noticiário, claro que as hostilidades entre judeus e palestinos esta representada na edição (e talvez seja o principal motivo pelo qual as pessoas se interessarão pela obra), mas não é seu foco principal. Ao que parece, exatamente como no dia a dia dos moradores de Jerusalém, uma parte importante, mas não a única de suas vidas.

Não é uma obra que vai encantar o leitor mais acostumado com a pancadaria do gênero de super-heróis ou com o ritmo acelerado dos mangás. Até mesmo quem procura por algo mais politizado pode acabar se decepcionando – embora haja uma veia política na obra, revelada principalmente por uma pontinha de impotência que o autor deixa transparecer em relação ao modo diferente como são tratados judeus e árabes na cidade.

Mas para quem aprecia a linguagem dos quadrinhos por si mesma ou adora conhecer coisas novas (sejam essas coisas HQs ou cidades) é um prato cheio.

Crônicas de Jerusalém
Editora Zarabatana Books
Autor: Guy Delisle
336 páginas
R$ 65,00

Alexandre Manoelhq que aconteceCrônicas de Jerusalém,Guy Delisle,ZarabatanaGuy Delisle tem uma vida muito diferente daquela profissão solitária dividida entre o computador e a prancheta, com a qual muitas pessoas costumam associar, não sem razão, como sendo o dia a dia de um quadrinhista. Como profissional no setor de animação, ele trabalhou em lugares como França, China e...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe