Um registro histórico do underground brasileiro

Há algumas semanas, antes da gravação do podcast do Impulso HQ (se você ainda não escutou, então, ouça), o editor do site perguntou se eu gostaria de escrever sobre essa coletânea, que ele havia comprado em um evento aqui em Sampa. Ele se vangloriava do álbum autografado pelo autor, igual a uma criança que conheceu um de seus ídolos, o que pra mim foi uma grande surpresa, afinal, Marcatti foi uma figura emblemática da minha geração, e não da dele.

Coprólitos é realmente isso, um registro histórico da obra de Francisco Marcatti, talvez o mais underground autor de histórias em quadrinhos que já surgiu no nosso país. Formado em artes gráficas pelo Senai, em São Paulo, Marcatti tornou-se uma lenda entre os fãs de HQ do Brasil, por desenhar, imprimir e distribuir, ou melhor, vender as próprias revistas de mão em mão, principalmente pelos bares da cidade, tudo isso numa época em que não havia internet, lojas especializadas, muito menos eventos badalados, nos hoje longínquos anos 70 e 80.

Influenciado por autores dos anos 60 como Gilbert Shelton e Robert Crumb, a obra de Marcatti é uma crítica ao homem comum, ao sistema e a sociedade, com histórias curtas, bem humoradas, e na maior parte das vezes escatológicas, mostrando seus personagens em situações sempre constrangedoras.

É o lado mais ridículo da vida mostrado num verdadeiro festival do baixo e do sujo, porém, extremamente bem desenhado, não raro superando em muitos momentos alguns dos artistas que o influenciaram.
Suas revistas tinham títulos muito diferentes do padrão certinho das revistas da Editora Abril, que dominava o mercado na época, eram nomes como Lôdo, Mijo, Pântano, Tralha, tudo milimetricamente planejado para chocar os leitores e quebrar a caretice que reinava no nosso mercado editorial, numa época em que o máximo de rebeldia eram publicações como Chiclete com Banana e Circo.

Agora velho desenhista mostra que não parou no tempo e lança esse compêndio dos seus trabalhos, financiado pela plataforma Catarse, via internet, recurso muito usado por vários artistas que estão longe dos grandes grupos editoriais que dominam o país, dizendo o que devemos e como devemos ler, porém ele não deixou de lado o underground, pois aqui também ele próprio imprimiu o livro numa máquina da década de cinquenta, devidamente reformada.

Pelos títulos das histórias é possível ter uma ideia dos temas abordados: Renato mão peluda (que não é uma homenagem ao nosso editor Renato Lebeau); Liberô Geral; Saudosa Velhota; Que tal uma farrinha; A cura da Aids; e por aí vai.

Uma das histórias que eu mais gosto, Ah Mocidade, que li anteriormente, muito antes dessa coletânea, narra a aventura de três moscas, Huguinho, Zezinho e Luizinho, que gostavam de entrar na boca de um cara nojento enquanto ele cochilava e, bem, digamos de forma educada, elas defecavam nos buracos das cáries do coitado. Esse foi o quadrinho do Marcatti que eu nunca esqueci, e que traduz em parte o espírito de sua obra.

Por ironia do destino minha namorada viu o álbum, antes desse texto ser escrito, e a reação dela foi: não é o meu tipo de quadrinho – dito com uma expressão de nojo e repulsa estampada em seu rosto.

Na verdade Coprólitos, assim como todas os quadrinhos de Marcatti são exatamente assim, digamos, nojentas, porém, são leituras obrigatórias para qualquer um entender como eram os quadrinhos brasileiros independentes, o que foi o underground no Brasil, mas não é algo fácil de ser digerido, de ser lido e assimilado.

Mas, deixe seus preconceitos de lado e corra para livraria especializada mais próxima, ou acesse o site www.marcatti.com.br, e compre, afinal não é todo dia que temos a oportunidade ver um relato histórico do quadrinho brasileiro que poderia facilmente ter se perdido no tempo.

Coprólitos
Roteiro e arte: Marcatti
Edição do autor
Formato 15,5 x 23 cm
128 páginas
R$ 48,00

Fred Tavareshq que aconteceCoprólitos,MarcattiUm registro histórico do underground brasileiro Há algumas semanas, antes da gravação do podcast do Impulso HQ (se você ainda não escutou, então, ouça), o editor do site perguntou se eu gostaria de escrever sobre essa coletânea, que ele havia comprado em um evento aqui em Sampa. Ele se vangloriava...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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