Conversando com meu amigo Mário Latino sobre literatura, ele me disse que basicamente todas as histórias contadas pela humanidade são apenas uma variação de dois textos primordiais: a Ilíada e a Odisséia.

Resumindo: estamos sempre escrevendo sobre um amor perdido, uma viagem em busca da amada, uma guerra, o regresso e suas consequências. Pois bem, esse é o grande espírito encontrado na graphic novel Asterios Polyp, lançando no segundo semestre de 2011 pela Quadrinhinhos na Cia.

Eu vejo algo disso na história em quadrinhos sobre a vida do arquiteto Asterios Polyp, americano de ascendência grega, que na noite em que faz cinquenta anos perde tudo em um incêndio, causado por um raio (mandado por Zeus?).

Em sua fuga, só consegue pegar três objetos: um isqueiro, um relógio e um canivete, que tiveram, tem ou terão algum significado na sua vida. E tenha calma! Antes que você ache que eu já contei toda a aventura do álbum, saiba que o grande mote não é o caminho percorrido, mas a transformação que Asterios passa durante 344 páginas.

Afinal, o mais interessante é se perguntar: quem é Asterios? Um arquiteto que nunca viu um projeto desenhado por ele ter sido transformado em algo real, sua fama se resume aos projetos no papel. Sua “glória” o transforma em um professor universitário, arrogante e narcisista. Entre nós, Asterios é uma personagem bem humana, que ao perceber que havia perdido tudo, inclusive o seu grande amor, resolve fazer uma viagem.

E que peregrinação! Brilhantemente ilustrada por David Mazzucchelli, artista já consagrada por suas passagens pelos personagens Demolidor e Batman, e que ainda fez uma HQ a partir de um texto de Paul Auster, chamada Cidade de Vidro.

Premiada em 2010 com o Eisner e o Harvey, a saga de Asterios Polyp é uma graphic novel que é uma verdadeira festa para os olhos, Mazzucchelli com seu estilo próprio, redescobriu, ou melhor, propôs narrativas inusitadas, nem sempre lineares, bem elaboradas, complexas, mudanças de cor e traço a cada página, e mesmo assim, chegou a um resultado que ultrapassa a linguagem dos quadrinhos.

Mazzucchelli usa os recursos gráficos a serviço da narrativa, até a tipografia faz parte de todo um labirinto de referencias visuais que transforma a história não só em uma aula de quadrinhos, mas sim de design gráfico também, pois na graphic novel, nenhum elemento gráfico foi usado sem ter um objetivo.

Asterios Polyp foi uma das 10 melhores HQs lançadas no Brasil no ano passado (e olha que foi lançado muita coisa boa em 2011). A Quadrinhos na Cia. está de parabéns, pois o projeto gráfico do artista foi respeitado, principalmente no quesito composição, com a extraordinária competência de Lílian Mitsunaga. Imperdível.

Asterios Polyp
David Mazzucchelli
Quadrinhos na Cia.
Tradução: Daniel Pellizzari
19,7 x 26 cm
344 páginas
R$ 63,00

Floreal Andradehq que aconteceAsterios Polyp,Daniel Pellizzari,David Mazzucchelli,Lilian Mitsunaga,Quadrinhos na CiaConversando com meu amigo Mário Latino sobre literatura, ele me disse que basicamente todas as histórias contadas pela humanidade são apenas uma variação de dois textos primordiais: a Ilíada e a Odisséia. Resumindo: estamos sempre escrevendo sobre um amor perdido, uma viagem em busca da amada, uma guerra, o regresso...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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