luiz-ge-quadrinhos-na-cia-1A primeira vez que li Luiz Gê foi no “O Bicho #2” (gibi editado pelo cartunista Fortuna) de março de 1975. Era uma estória verídica, e um balão no alto da página explicava “uma história do nosso correspondente em Londres, descolada do balão”. Tratava-se de Gê, que na quarta edição da publicação nos apresentava Deus como um lírio do vale. Logo após, (e dessa vez eu não lembro se foi em 1975) saiu um almanaque pela extinta editora RGE só com desenhistas brasileiros e mais uma vez Luiz Gê mostrava sua fina arte, sempre com um humor crítico e um traço inovador.

É indiscutível como Luiz Geraldo Martins é uma referência nos quadrinhos nacionais. Tenho quase tudo que ele publicou, mas também o cartunista e ilustrador tem uma grande importância, eu diria que até histórica, como chargista e a sua produção para o jornal Folha de São Paulo retratando a história dos últimos anos da Ditadura Militar no Brasil.

Em “Ah, como era boa a ditadura…”, álbum editado em 2015 pela Cia das Letras por meio do seu selo Quadrinhos na Cia, resgata essa sua produção reunindo trabalhos de 1981 até 1984, nos quais o autor era responsável no jornal para produzir charges sobre o que viria a ser o Brasil democrático.

luiz-ge-quadrinhos-na-ciaO álbum não pode ter vindo em hora mais apropriada. Aliás, ideia de reunir essas charges em um só volume pela primeira vez, veio do próprio cartunista, que diz achar um absurdo com o pedido de volta à Ditadura Militar (de 1964 a 1985), em algumas manifestações. Desde 2014, o povo vai às ruas por protestos contra o governo e exige uma transformação política, e, inconformado com o pedido da volta dos militares ao planalto, Gê propõe um álbum que vai além dos temas como tortura, terrorismo e censura, e se foca na economia da época.

O álbum tem a inteligente intenção de sair do viés comumente abordado e questiona: “Mas o que foi a ditadura e, sobretudo, qual o seu legado para o Brasil?”.

Particularmente, desse período lembro-me que trabalhava num banco no final dos anos 70 e começo dos 80 e vivi uma crise brava, com inflação e desemprego, e no meio a tudo isso houve saques a supermercados, bombas em bancas de jornal, Guerra das Malvinas, visita do Reagan, Paulo Maluf, Delfim Netto, Diretas Já e mais um presidente eleito pelo famigerado colégio eleitoral.

luiz-ge-quadrinhos-na-cia-3Tudo isso e muito mais passou pela pena de Luiz Gê, algumas coisas foram censuradas, como a charge sobre a morte de alguns jovens pela rota (Rota 77) e não está no livro. A coletânea de charges, muito bem escolhidas, revelam um panorama do processo político que ainda marca nosso país, e de acordo com o texto do autor publicado em seu blog “são uma amostra e testemunho dos acontecimentos daquele período. Entre as selecionadas aqui, a maioria se refere ao que falei acima, a questões econômicas, a situação lamentável que o país foi forçado a atravessar e da qual parece alegremente se esquecer.”

Para completar a edição, Luiz Gê escreveu textos prá lá de esclarecedores sobre essa época e uma galeria com as figurinhas carimbadas destes anos que parecem se apagar com o tempo. Felizmente, nem o autor e nem a editora pretendem deixar isso acontecer. As charges impressas no álbum é um recorte da produção de Gê entre 81 e 84, porém, os últimos quatro anos do regime e estão sendo reunidas num e-book que será lançado pela Cia. das Letras.

“Ah, como era boa a ditadura…” é uma aula de humor e história por um artista genial.

Ah, como era boa a ditadura…
Selo Quadrinhos na Cia.
Autor: Luiz Gê
Capa: Elisa von Randow
Acabamento Brochura
288 páginas
20,5 x 20,5 cm
R$ 59,90

luiz-ge-ah-como-era-boa-a-ditadura.jpgEM TEMPO:
Nesta quinta-feira, 17/3/2016, às 18h, o autor Luiz Gê estará na livraria Cia dos Livros (Rua da Consolação, 896), dentro do Mackenzie em São Paulo. Ótima oportunidade para garantir o seu autógrafo e conhecer esse gênio dos quadrinhos nacionais.

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/03/luiz-ge-quadrinhos-na-cia-2.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/03/luiz-ge-quadrinhos-na-cia-2-300x285.jpgFloreal Andradehq que aconteceAh como era boa a ditadura,Elisa von Randow,Luiz Gê,Quadrinhos na CiaA primeira vez que li Luiz Gê foi no “O Bicho #2” (gibi editado pelo cartunista Fortuna) de março de 1975. Era uma estória verídica, e um balão no alto da página explicava “uma história do nosso correspondente em Londres, descolada do balão”. Tratava-se de Gê, que na quarta...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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