13581_gg“No dia em que ouvimos Houses of The Holly deitadas no chão, nos empolgamos mais uma vez com a Viagem sem Planejamento. Havia uma quantidade infinita de cidades desinteressantes a serem descobertas, e aquele disco parecia um combustível para nossos planos de liberdade. Mais uma vez, no entanto, nós não saímos do quarto, não descemos correndo as escadas, não alcançamos o carro antes de a faísca desaparecer. Para falar a verdade, continuamos olhando para o teto, embora o volume e o tom da nossa voz deixassem evidente uma boa dose de empolgação.

Era como se você passasse meses cogitando pintar o cabelo de azul, e de repente percebesse que tanto tempo cogitando, analisando, imaginando tinha acabado por satisfazer por completo seu desejo de rebeldia”.

Eu tinha dito que sim, felizmente ainda existem jovens escritores brasileiros bons, embora em pequeno número. Bensimon conquistou meu coração. Eu leria praticamente qualquer coisa que essa mulher escrevesse. Mentira, não sei se leria a lista de compras dela. Mas enfim. (Copiando John Green, que indecência…).

Ela me pareceu o tipo de pessoa que tem uma ideia de narrativa, não só de enredo, e começa a escrever para ver no que vai dar. Como uma experiência, mesmo. Talvez eu só tenha tido essa impressão por ter visto o vídeo da Companhia em que ela fala sobre como surgiu a ideia para Sinuca embaixo d’água, e essa impressão tenha ficado mais forte ao ler Todos nós adorávamos caubóis…

Screen Shot 2013-12-04 at 9.34.35 PMMas, ela é uma deusa da literatura, de forma que qualquer experiência literária dela inevitavelmente resultará em uma espécie de obra-prima. Obra-prima pode ser exagero, mas quem está acostumado a ler, sempre sente quando está diante de um livro bom de verdade, mesmo que não saiba nada de Teoria literária para comprovar suas suspeitas. O tipo de livro que você lamenta que tenha acabado, e por isso recomeça a leitura.

Claro que o enredo atrai bastante, pois ela tem muito talento, transmite através das páginas a confiança que os veteranos da boa literatura transmitem, seus personagens são profundos, interessantes. Você se torna íntima deles, passa a amá-los, a se preocupar com o fim que ela lhes reservou.

1Bons autores nos fazem refletir sobre o poder quase divinal que eles possuem de criar, nos fazer apaixonamos por suas criações e em seguida destruí-los se assim desejarem.

Eu, com a minha sempre ativa empatia, sofri muito pela Cora. Acontece que ela é apaixonada por Julia, sua amiga, e elas não se viam a muito tempo, já que Cora estava em Paris e Julia no Canadá. Durante a narrativa, apesar de estar sentada ao lado da amiga no banco do passageiro, Julia se mantém distante de Cora, que sofre. Eu me impressiono fácil, mergulho no livro até esquecer meu nome, e por isso sofri de verdade com essa história de Friend Zone, em alguns momentos fiquei com raiva das duas. Odeio Friend Zone.

Ouso dizer que a melhor parte seja a narrativa, mesmo. É uma narrativa tipo Road Trip, que intercala lembranças do passado com uma viagem por cidades do Rio Grande do Sul, de carro. Aos poucos, Bensimon vai te dando detalhes das vidas delas a conta gotas, como os mestres da narrativa sabem fazer muito bem … Gente, que sofrimento.

Esse livro nos faz sofrer… e nós acabamos gostando de tudo isso. Dessa maravilhosa tortura.

646198_5351c329ce944b6aaf5f69eda3febf69.jpg_srz_p_693_490_85_22_0.50_1.20_0.00_jpg_srzEstive lendo Travessia Marítima com Dom Quixote, livro de ensaios de Thomas Mann em que ele diz: “O mistério da narrativa é tornar interessante o que deveria ser enfadonho”. Se assim for, posso dizer que Bensimon sabe tudo a respeito do mistério da narrativa!

É um romance doce. Feminino. Um tanto erótico. Só falta subir perfume de mulher das páginas do livro. Quase podemos sentir o vento bagunçado nossos cabelos enquanto elas atravessam o estado de carro. Você emerge tanto na leitura, que é como se estivesse indo visitar Paris e o Rio Grande Do Sul. Mesmo que você não for capaz de se deixar ser absorvido pela narrativa, ainda vai ser capaz de sentir o cheiro de perfume, tenho certeza. Se não for capaz, culpe sua imaginação. A mim, nunca.

E é sobre um relacionamento gay, sim. Mas cá entre nós, é uma bobagem imensa ter que ficar frisando que qualquer um pode ler um romance entre protagonistas gays… que isso não tem nada a ver, e que se você tem plena convicção de sua orientação sexual, não tem nada a temer. Mas devo admitir que é muito difícil indicar esse livro.

13354356Por mais que eu argumente que sou heterossexual, e que eu amei o livro, e que não precisa ser gay para gostar, não dá para indicar para uma senhora conservadora, entende? Ela volta com o livro e usa ele como arma para te bater. E mesmo os que se sentem mais liberais, pensam duas vezes antes de levar o livro. No entanto, ele é superforte com o público LGBT, e costumamos indicar para pessoas que curtiram Azul é a cor mais quente, HQ que eu amei em igual medida.

Mas, independente disso, Carol tem todo o meu apoio, e espero ler todos os que ela já publicou. Para mim, ela é a melhor escritora brasileira jovem. Quando você passa muito tempo procurando uma boa escritora, é só felicidade quando você finalmente a encontra. E eu tenho a intenção de publicar aqui só a melhor parte do monte de coisa que leio todo ano. Pois, nesse caso, é boa literatura, mas também existe a melhor parte da literatura de entretenimento, que merece destaque.

Falando em romances com temática gay, estava discutindo o assunto com o Eduardo, que inclusive também amou o livro, e trabalha na editora do mesmo. Eu tinha lhe dito que livros assim contém algum tipo de magia inexplicável, e me parecem mais sensíveis, mais profundos, diferentes, e por isso eles me atraem tanto. E ele me perguntou se, para mim, esse tipo de romance equivale hoje ao que seriam histórias de “romances proibidos tipo Romeu e Julieta”. Talvez né? Acho ótimo que a despeito de vivermos em uma sociedade que se diz liberal, mas que ainda é machista e preconceituosa, livros como esse estejam ganhando mercado.

Depois de ter lido, descobri o book trailer. Nunca havia visto um book trailer antes, e dei sorte, porque este é muito bom! É mais um argumento para se apaixonar pelo livro, confira:

Será que um dia verei uma adaptação cinematográfica de Todos nós adorávamos caubóis?

Todos nós adorávamos caubóis
Companhia das Letras
Autora: Carol Bensimon
Gênero: Romance
Ano 2013 – número (edição): 1
192 páginas
R$ 37,00

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/08/Screen-Shot-2013-12-04-at-9.34.35-PM.pnghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/08/Screen-Shot-2013-12-04-at-9.34.35-PM-300x300.pngSue Lobofora das HQsCarol bensimon,Companhia das Letras,Todos nós adorávamos caubóis“No dia em que ouvimos Houses of The Holly deitadas no chão, nos empolgamos mais uma vez com a Viagem sem Planejamento. Havia uma quantidade infinita de cidades desinteressantes a serem descobertas, e aquele disco parecia um combustível para nossos planos de liberdade. Mais uma vez, no entanto, nós...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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