salTendo em vista que a partir de agosto o ano geralmente tende a desaparecer diante dos nossos olhos, não poderei mais procrastinar a resenha de Sal, de Letícia Wierzchowski (sim, a mesma que escreveu A casa das sete mulheres), pelo fato de ele ter sido lançado em julho de 2013, e um livro como esse merecer mais destaque do que teve.

Ele foi e continua sendo o melhor livro de literatura contemporânea que li desde o ano de 2013. E fiquei ainda mais feliz por saber que se trata de uma autora brasileira! Apesar de não ser literatura engajada, não imprimir críticas sociais, ou não ser um livro revolucionário na literatura brasileira, ele é a prova de que em alguns lugares a vida intelectual do Brasil não acabou.

Pode ser esperar muito, mas de onde mais poderiam vir os livros cuja força artística nos despertasse? Cujas sentenças nos causem estranhamento, desconforto? De onde mais esperaríamos que a arte engajada saísse para combater e questionar o atual estado das coisas na sociedade?

Entendam, esse livro é arte pura, arte pela arte. Mas ler Wierzchowiski me fez ter alguma esperança. Me fez acreditar que ainda há chances de algumas tochas estarem acesas aqui e ali, e que as pessoas nesse país não tenham simplesmente parado de reagir. A arte, literariamente, musicalmente, etc., é o nosso poder bélico contra os poderes que nos oprimem.

Não há necessidade de listar aqui todas as circunstâncias, situações e causas que nos encurralam dia após dia. Creio que todos nós saibamos, mas a algum tempo paramos de reagir, pois nos acostumamos ao desrespeito, à humilhação. Como se não bastasse, teimamos em fingir que tudo vai bem, e desde que possamos comprar as coisas que acreditamos desejar, não reclamaremos de nada.

foto_livros_sal_blogA vida pós-moderna nos dá o refresco de sermos intelectualmente preguiçosos se quisermos ser. Mas desde que este mundo é mundo, a massa sempre conseguiu justificativas para simplesmente não fazer nada a respeito.

O que me impressiona é que ultimamente ninguém parece notar que a qualidade das criações artísticas no Brasil e no mundo estão caindo perigosamente. Isto é, as pessoas estão execrando tudo o que não é entretenimento, o que causa desconforto e o que exige delas algum tipo de esforço. E parece que ninguém está preocupado. Dessa forma, não há espaço, não há modo de boas criações ganharem o mundo.

Mas voltemos ao belíssimo Sal. Devo admitir que não fora a nota sob o nome da autora na capa, avisando que ela não era uma total desconhecida, que me fez querer ler o livro. Muito menos o fato de ele ser da Intrínseca, que geralmente publica obras estrangeiras famosinhas. Na verdade, o título na prateleira das literaturas nacionais me fez querer confirmar se ele estava no lugar certo.

E então eu vi a capa. E reparei na lombada colorida, e no título prateado, lembrando a brisa com gosto de sal, que flutua sobre o mar. Depois o Farol, fora de foco, atrás do título, e uma casinha. E o aspecto enevoado da capa. Eu gostei tanto que decidi ler, apenas pela beleza da capa. Fora uma atração imagética e fútil, admito. Mas foi ainda melhor quando comecei a ler.

Dona-por-Julieta_blogLi entre um sábado e um domingo de folga, desesperadamente. A diagramação continua te fazendo sentir como se pertencesse ao lugar estampado na capa. Você continua sentindo a brisa tocando seu rosto. E você não consegue parar de ler, muito embora o começo não seja muito empolgante.

Artisticamente, Leticia fez um belo trabalho. A arte narrativa, o enredo, etc., me fez sentir que estava lendo uma espécie de obra de arte. A história começa da forma mais literária e poética possível: uma mãe, já idosa, sozinha em uma casa grande, numa ilha chamada La Duiva. Seu nome é Cecília, e ela informa que a casa já esteve cheia de gente, seus filhos, seu marido. Mas que todos foram embora, de um jeito ou de outro. Ela ficara apenas com as lembranças, então decidira tecer um tapete de tricô, que ficasse sobre cada degrau. Cada degrau seria de uma cor, seria uma lembrança. E quando ela terminasse, pularia do Farol, dando fim a tudo.

Então cada cor do tapete corresponde a um personagem. E até mesmo o Farol tem sua vez de falar. Cecília atribui a ele sentimentos, e ele de fato os tem. Flora, uma das filhas, também narra paralelamente. Ela usou a história da família para escrever seu primeiro original. E através dele, um homem apareceu em sua casa, e tudo mudou com a chegada dele.

Leticia-WierzLindamente, Wiezkowiski teceu em palavras na voz de Flora uma história que te deixa indignado, mas emocionado. A imersão na criação da autora é tão profunda e inevitável, que após terminar a leitura, me peguei sonhando com os personagens e com o local onde tudo acontece. Me peguei pensando que pelo amor de Deus, aquele lugar deveria existir, pois um dia eu gostaria de poder visitá-lo.

Feliz ou infelizmente, ele só existe no livro e na imaginação da autora. Mas é maravilhoso! Cada frase, cada oração de cada capítulo te arranca um suspiro. Cada frase te faz pensar no poder que a literatura tem de transformar a banalidade de vidas comuns em arte, pura arte. No poder transformador da literatura…
Para mim, Flora é o alterego da autora. É lindo quando ela diz:

“Escrever é uma espécie de poder sobrenatural. Como ver os mortos ou fazer levitar os móveis da sala. Tenho pensado muito nisso. Tenho pensado muito nisso depois que as coisas começaram a acontecer fora do meu livro do mesmo modo como ocorriam lá dentro.

Como? Como exatamente a invenção que eu desfiei por dias e noites de verdadeiro furor, trancada no meu quarto, exausta e feliz de descobrir, após tantos livros lidos, que eu também podia fazer aquilo, como é que a invenção extrapolou as páginas e ganhou a realidade?

ilha-farol-sal-770x472Não sei, mamãe. Juro que não sei… Eu queria muito contar uma história, queria muito brincar com a vida, e brinquei com ela como uma criança com a sua boneca preferida, balançando-me nos ferros da pracinha da ficção como uma dessas menininhas de meias frouxas que dão saltos temerários, subindo e descendo no seu balanço com as pernas lá no alto, como se quisessem sair voando sobre a cidade”.

Para mim, é uma reflexão da autora sobre seu próprio fazer literário, uma visão dela sobre a própria criação artística, que me deixou extasiada.

Se eu pudesse perguntar algo a ela, seria: por favor, você poderia me dizer qual é seu livro favorito? Pois um dia espero poder sair voando sobre a cidade, como você faz.

Alguma dúvida sobre a qualidade do romance? Apenas leia. Ou melhor: vocês PRECISAM ler esse romance. Leiam e se puderem, compartilhem sua opinião nos comentários. Esse é o único livro de literatura que eu insisto em ficar sabendo o que as pessoas pensaram dele. Até agora, todos a quem indiquei fizeram questão de voltar e me dizer o quanto gostaram.

Experimentem. Eu já li o livro duas vezes, e sei que lerei muitas outras mais.

Sal
Gênero: Romance
Editora Intrínseca
Autora: Letícia Wierzchowski
239 páginas
Ano 2013 – 1 edição
R$ 24,90

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/08/foto_livros_sal_blog.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/08/foto_livros_sal_blog-300x300.jpgSue Lobofora das HQsIntrínseca,SalTendo em vista que a partir de agosto o ano geralmente tende a desaparecer diante dos nossos olhos, não poderei mais procrastinar a resenha de Sal, de Letícia Wierzchowski (sim, a mesma que escreveu A casa das sete mulheres), pelo fato de ele ter sido lançado em julho de...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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