00216240Desde que o exemplar foi captado pelos meus olhos eu soube que teria de ler. Por curiosidade, abri em uma parte qualquer para ver qual era o tipo de narrativa, e li o capítulo todo. Passei mal. Mal mesmo, caiu a pressão e tudo. Podem me chamar de fraca se quiserem, eu tenho estômago fraco mesmo, e além disso entro em pânico quando vejo qualquer coisa relacionada a morte, como sangue, hospital, cadáveres, etc. Mas eu PRECISAVA continuar lendo.

Meu namorado me acusou de gostar de sofrer, e talvez eu goste mesmo de sofrer quando leio livros. Mas eu não sei, acho que tem mais a ver com empatia. Gosto de me sentir empática, de imaginar que qualquer um pode passar por tais coisas, acho que pela sensação boa de ser mais humana. Se colocar no lugar do outro te faz entender algumas coisas sobre a natureza humana. E apesar de ser uma narrativa crua, forte e direta, Libertada me fez pensar sobre muitas coisas, me fez me sentir mais humana.

Me fez querer ajudar, embora seja tão difícil, em algumas situações. Nunca sabemos se as pessoas querem ser ajudadas. Algumas simplesmente repelem a ajuda. E algumas, como Michelle, tiveram a ajuda negada. Pessoas foram simplesmente negligentes, e por mais de uma década, ela viveu presa junto a um monstro, e mais outras quatro vítimas, em uma casa imunda.

O que mais impressiona são os detalhes da imundície do local onde ela viveu encarcerada. Mas os outros detalhes, os de manipulação, violência e terror psicológicos que estão narrados ali, não são tão diferentes dos muitos livros sobre psicopatas que eu já li. E o que mais me assombra hoje, é que toda aquela ficção seja perfeitamente possível, no mundo em que vivemos.

Michelle é a típica garota que nunca teve muita sorte na vida. Desde pequena já sofria abusos de um parente, era a empregada doméstica em casa, e mal frequentava a escola, onde era vítima de bulling. Quando você acha que nada pode ser pior, ela é forçada a se separar da única alegria de sua vida, Joey, um menininho lindo, filho seu com um namorado da escola. Numa viagem à uma das reuniões com a assistente pessoal, é sequestrada por um monstro, pai de uma amiga sua.

10382879_823000514390371_1952578511651493622_nA narrativa expõe cada detalhe que Michelle foi capaz de se lembrar, e o livro é seu processo de auto cura. Sua libertação. Lembrar de tudo é doloroso, mas é necessário, é a maneira dela de lidar com a dor.

Quando eu terminei de ler o livro, depois de ter chorado, passado mal, etc., pensei que era o livro mais triste que já tinha lido na vida. Nada ali é protegido pelo conforto da literatura, nada ali está seguro na imaginação de algum escritor mais criativo. Digo isso, pois li outro livro, chamado A lista no nunca, que tem uma história parecida, mas que foi escrita antes de Michelle ter sido encontrada com Amanda, Gina e Jocelyn, naquele pedaço de inferno. Mas A lista do nunca não tem a crueza, a realidade incontestável… É literatura, é seguro, fruto da imaginação.

Libertada é fruto da realidade mais podre que se pode imaginar. Fruto do pior lado humano, trazido à tona. Mas também é fruto da coragem sem limites, da resistência quase que impensável, da esperança.

Só consigo pensar que Michelle é a mulher mais corajosa que já tive notícia. E que eu só posso desejar o melhor do mundo para ela.

Tem uma parte em que ela diz:

“Eu não sei por que minha vida foi do jeito que foi. Às vezes me pergunto: qual a finalidade de toda essa dor que eu vivi? Por que Deus não pode tornar possível que nunca passemos por dificuldades? Um dia, no céu, vou ter que perguntar isso a Ele”.

Já me fizeram essa pergunta antes. Eu não tive resposta. Ainda não tenho. Eu não vi Deus, como Michelle viu, nem nunca passei para o outro lado para que isso acontecesse. Mas acredito nele, assim como Michelle, e como ela, um dia espero também poder perguntar isso a ele. É por isso que digo que esse livro coloca em xeque as nossas mais importantes questões. Que nos faz pensar sobre nossa condição.

E de que adiantaria viver sem pensar nessas coisas? Viver na ignorância é uma benção, mas quando você tem empatia, você não consegue estar alheio à dor dos outros. Esse não é um livro qualquer. É o livro mais forte e triste que já li, mas também um dos mais bonitos.

Se você for corajoso ou corajosa o suficiente, talvez consiga encarar. Mas prepare seu estômago e seu coração, que vai se partir em vários pedacinhos, se for tão empático quanto eu.

Libertada
Gênero: Biografia e memórias
Editora Fontanar
Autor: Michelle Knight com Michelle Bunford
Título Original: Finding me
Tradutor: Michele Vartuli
188 páginas (acompanha caderno de fotos)
Ano 2014 – 1 edição
R$ 29,90

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/08/10402566_10152274497207773_2911651668905990215_n.pnghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/08/10402566_10152274497207773_2911651668905990215_n-300x300.pngSue Lobofora das HQsFontanar,Libertada,Michele Vartuli,Michelle Bunford,Michelle KnightDesde que o exemplar foi captado pelos meus olhos eu soube que teria de ler. Por curiosidade, abri em uma parte qualquer para ver qual era o tipo de narrativa, e li o capítulo todo. Passei mal. Mal mesmo, caiu a pressão e tudo. Podem me chamar de fraca...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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