13671_ggAlguns dizem se tratar de um Romance Policial. Discordo veementemente. Um romance policial envolve investigação, um detetive, um delegado, perícia, etc. Não é o caso de Dias Perfeitos. Ele é um suspense embasado na imaginação do autor sobre como um psicopata vê o mundo. Devo dizer que não concordo com tudo, mas cada um tem seu ponto de vista.

A despeito desse detalhe insignificante, eu realmente gostei de toda a ironia das coisas e situações, e realmente gostei do fato de ser bastante verossímil, pois se uma história assim acontecesse aqui no Brasil, muito provavelmente teria o mesmo final. Deixe-me explicar melhor.

Téo está no último ano da faculdade de medicina. Sua única e melhor amiga é um cadáver chamado Gertrudes. Mora com a mãe, que é paraplégica, e um cão labrador. Quando sua mãe insiste para que ele vá a uma festa, onde ele se sente muito desconfortável, seja pelo funk, seja pelas pessoas, ele conhece uma garota muito peculiar, que se veste de maneira exótica, e estuda História da Arte. Essa é Clarisse, e Téo gosta dela desde o primeiro momento.

O problema é que Clarisse não sente o mesmo por ele, embora tenha dado um beijo em Téo naquela festa. Téo decide então que vai ensina-la a amá-lo. Tem início um momento de puro terror para a pobre Clarisse, que é sequestrada, enfiada numa mala e feita prisioneira. Téo tem plena certeza de ser a salvação daquela garota sem limites, e decide fazer o mesmo trajeto que os personagens do roteiro que Clarisse está escrevendo, para que ele o melhore, e consiga termina-lo. O nome do roteiro é Dias Perfeitos.

O tempo todo paira sobre o enredo a boa e velha impunidade que cerca inevitavelmente todos os brasileiros, e uma ironia escancarada. Mas a narrativa é muito simples, conferindo uma leitura bastante rápida e agradável. Nessa história podemos nos deparar com as contradições a que se deparam as mentes perversas, e tomamos pelo menos dois grandes sustos. É um livro bacana para quem está curtindo umas férias, ou precisa relaxar das leituras sérias e pesadas.

“Enxergava Clarisse como um diamante bruto. Todo relacionamento pressupõe troca, um escambo de favores, de forma que os dois polos se seduzem mutuamente relegados às próprias surpresas”.

urlExiste ainda um Romance Policial de Raphael Montes que ainda não li, mas pude ler a sinopse. Foi considerado um dos maiores ficcionistas jovens por causa desse livro, mas sinceramente, mesmo sem ter lido, posso afirmar que Dias Perfeitos não merece o mesmo título e a mesma honra que Suicidas.

É bastante comum o segundo romance não ser tão genial quanto o romance de estreia, às vezes passam-se anos sem que o autor produza nada à altura. De toda forma, lerei Suicidas assim que conseguir um exemplar, e garanto uma resenha para confirmar ou refutar essa minha suspeita. O que me consola, é que Dias Perfeitos nem pode ser classificado no mesmo grupo que Suicidas. Talvez isso justifique a diferença na qualidade, também.

Como gosto muito de Literatura Policial, tenho essa mania de ficar comparando, e até agora concluí que os melhores nesse nicho da literatura, são os suecos e os norte-americanos. Mas é agradável ter um autor como Montes para guarnecer nosso lado, também.

Uma das coisas que mais me desgosta, é o fato de a literatura estrangeira ser tão mais popular no Brasil do que a literatura nacional. Existem alguns realmente muito bons e inexplorados romances, para os quais o leitor brasileiro faz vista grossa. Desiste de ler qualquer coisa escrita por um brasileiro, principalmente se for um jovem escritor, quando se depara com algum romance ruim.

Reconheço que mesmo entre a literatura despolitizada, a literatura de entretenimento, existe muita coisa que não tem uma boa qualidade… são livros que podiam não existir, que não fariam falta. No entanto, entre esse ano e o ano passado, pude conhecer alguns autores jovens muito bons, nos quais estou depositando minha fé, e com certeza resenharei suas obras aqui.

crimeOu seja, tem de procurar, tem de ter algum interesse de nossa parte. Esse descaso com o nacional não acontece só na literatura, eu sei, é realmente uma pena que o brasileiro se sinta tão inferior ao resto do mundo. E não se dê duas horas para se debruçar sobre Macunaíma. Ou para apreciar a ironia hilariante em cada capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas. (Desculpa aí sociedade intelectual, mas citarei Machado de Assis mesmo que vocês não gostem).

Claro que boa parte da culpa também recai sobre o famigerado mercado editorial, que muitas vezes não quer saber de investir em algo que não trará lucros exorbitantes, e logicamente prefere investir em sucessos internacionais que se tornam sucessos ainda maiores aqui no Brazilzão. No entanto, vemos iniciativas aqui e ali, algumas editoras realmente apostando na literatura para a posteridade, o que nos deixa felizes. O que nos dá algum orgulho. Já que nossa péssima memória não nos deixa relembrar obras de arte passadas, vamos focar nas que estão por vir.

Porém meu recado mais urgente nesse post, é para as pessoas que tem costume de ir na livraria, olhar por cima das mesas e falar que não tem nada de bom. Realmente, na maior parte das vezes, o que está em quantidade nas mesas é o popular, o que vende mais, e normalmente não é o melhor tipo de literatura. Mas antes de soltar essa barbaridade, pergunte ao vendedor se ele tem algo para te indicar. O vendedor conhece uns tesouros, e fica muito feliz em fazer uma indicação.

Dias perfeitos
Editora: Companhia das letras
Autor: Raphael Montes
Gênero: Romance, Suspense
274 páginas
Ano 2014 – número (edição): 1
R$ 34,90

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