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Aproveitando o lançamento de “Malala – A menina que queria ir para a eEscola” decidi abordar o tema mais profundamente por meio do livro “Cabul no Inverno”, escrito por Ann Jones (jornalista americana e ativista dos direitos da mulher), que decidiu visitar a cidade de Cabul no intuito de levar algum conforto e auxílio à cidade bombardeada por seu país de origem (EUA).

Com uma narrativa interessante, envolvente e acima de tudo, séria, ela relata o que encontrou por lá, passando pela miséria, destruição, viúvas, talibã, problemas sociais, machismo, desamparo e tantos outros.

Ela trabalhou em Cabul como voluntária de 2002 a 2005 lecionando inglês para professores e professoras do ensino médio além de ajuda humanitária. Aproveitando a estadia, o acesso a informação e as declarações, ela aborda diversos temas além de dar várias explicações; poucas pessoas sabem a diferença entre pashtuns e hazaras, conhecem as tradições e como surgiram, como por exemplo, a origem da burca, e tanta outras coisas. Ann fala explana sobre tudo isso e um pouco mais.

19fev2014---mulheres-caminham-em-rua-coberta-de-neve-em-cabul-no-afeganistao-nesta-quarta-feira-19-1392810437729_956x500Nos anos 80, as mulheres de Cabul tinham amplo acesso ao trabalho e a educação e podiam usar minissaias. Após a expulsão do governo pró-soviético pelos EUA e com ajuda de fundamentalistas sauditas, que além de embolsar parte dos recursos e incentivar as rivalidades entre as facções, possibilitou que os mais conservadores fossem os mais favorecidos. Em consequência da expulsão dos russos, Washington suspendeu toda a ajuda econômica e humanitária e deixou que o Talibã assumisse. Os EUA esperavam um governo de “lei e ordem” que permitisse à Unocal (que foi uma das principais exploradoras e vendedoras de petróleo do final do século XIX ) contornar o Irã com um oleoduto do Cáspio ao Paquistão.

Não é preciso lembrar as consequências, mas com as informações de Ann Jones vemos os novos erros, cometidos pelos EUA depois de setembro de 2001. O país foi abandonado a mujahidins e traficantes de ópio, por isso, muitos afegãos julgaram o Talibã um mal menor. As promessas de desenvolvimento foram esquecidas e os EUA partiram para uma nova cruzada em Bagdá. A escassa ajuda, lenta e ineficaz, foi embolsada por consultorias e empreiteiras privadas, alheias à realidade local.

mulheres-refugiados-acnur-afeganistao-20111227-originalEm seu livro, Ann fala sobre a proibição das mulheres de andarem em público desacompanhadas, algo que para nós aqui no Brasil é inimaginável, todas temos nossas vidas particulares e no caso do Afeganistão, as mulheres que descumprissem essa ordem do Talibã eram passíveis de lesões corporais, como ter ácido jogado em seus rostos e até prisão.

“Em 1996 quando o Talibã tomou Cabul, a situação das viúvas tornou-se desesperadora. Eles decretaram que nenhuma mulher poderia sair de casa sem que estivesse acompanhada de um parente do sexo masculino, mas milhares de viúvas de guerra já não tinham parentes homens. Maridos, pais, irmãos, filhos; todos estavam mortos. Presas em suas casas, as viúvas passavam fome” descreve Ann Jones em um trecho de seu livro.

Em Cabul no Inverno, Ann fala de iniciativas de outras mulheres, como de Caroline, que criou programas que ensinavam essas viúvas a bordar, costurar e tecer em casa para Caroline vender e repassar o valor arrecadado para que essas mulheres tivessem o que comer.

Kabul_in_WinterO premiado filme afegão Osama de 2003 retrata essas dificuldades das viúvas. Do gênero drama e com direção de Siddiq Barmak, Osama mostra a história de uma mãe viúva que vestia sua filha de menino para que pudesse trabalhar para sustentar a família.

Ann conta em seu livro toda a história da obrigatoriedade dos véus e burcas além da luta das mulheres pelos seus direitos, já que é um lugar onde as mulheres têm pouquíssimos direitos e a maioria deles tem que ser aprovado por um membro do sexo masculino de sua família.

Nesta obra também é abordada as situações vividas dentro de suas casas, ela explica que enquanto os homens lutavam nas guerras o lugar da mulher era em casa, e hoje, os que retornaram, extremamente traumatizados pelo que viram e fizeram, além de se depararem com o desemprego, seja como comerciante, fazendeiro ou até soldados, agora o espaço doméstico os sufoca com reprovações do que poderia ter sido uma vida pacífica, como a autora discorre no trecho “Então eles espancavam as esposas, as estupravam, as usavam como animais e ardiam de desejo pelos belos meninos dançarinos, como faziam quando eram soldados. As mulheres espancadas, espancavam as crianças, e as crianças amarravam os cachorros e davam-lhes bordoadas com bastão até que eles se despedaçassem”.

Ann Jones, como dissemos, é uma ativista dos direitos da mulher, e se deparando com um lugar onde andar sem companhia de um homem poderia lhe causar graves consequências, falar sobre a mulher é inevitável e bastante abordado. Para quem quer conhecer melhor a política do país, este também é um bom livro, pois discorre sobre sua história, seus presidentes, suas leis, e o porquê (geralmente absurdo) de algumas de suas leis.

A autora também fez alguns trabalhos voluntários em presídios femininos, em situações tão precárias como quanto a história de cada mulher lá. Um dos presídios contava com apenas 16 mulheres e não passava de 35, em uma cidade com dois milhões de habitantes e com muitas mulheres que buscaram sobrevivência à margem da lei devido ao desespero que foi instalado, é um número quase irrisório, o que nos leva a concordar com os questionamentos que ela faz: “Onde estavam?” acredita-se que eles ‘desapareciam discretamente’.

Ao vAfghan_Womenisitar esses presídios, ela saiu de lá com vários relatos do que levou cada mulher para sua cela, e vou transcrever aqui apenas um dos casos:

“E havia N. – Najela –, que não conseguia sequer imaginar a própria idade. Contou que ficara muito feliz quando sua família acertou seu casamento com um primo, porque, secretamente, ela o amava. Durante mais ou menos três meses após a cerimônia ela tivera um casamento feliz. Então o marido começou a trazer pra casa homens “estrangeiros” e a força-la a “cometer adultério” com eles.” Ao se cansar dessa situação, ela o denunciou a polícia por forçá-la a prostituição. O promotor concordou que o marido de Najela era uma homem “muito ruim e imoral” e por isso foi condenado a cinco anos de prisão. Já Najela estava presa, pois o promotor observou que ela “trabalhara” para o marido “por muito tempo” e não registrou queixa “imediatamente” à polícia, que vale lembrar que era talibã na época. Ela foi considerada culpada por prostituição e condenada a três anos de prisão.”

urlAo final da obra, Ann Jones faz críticas às ONGs com atuação em Cabul, principalmente dizendo há um desperdício de uma grande somatória de dinheiro, ações desastrosas, como a Creative Associates (que não foi a primeira a cometer um erro lamentável nos livros), contratou um serviço de impressão da Indonésia junto a gráficas que não conheciam os dialetos locais, e quando esses livros foram entregues por avião a Cabul, com alto custo, notaram que estes estavam ilegíveis, com textos embaralhados, como Religião e Biologia juntos, como Ann diz, “um capítulo sobre a vida do Profeta poderia ser seguido por outro sobre plantas”.

Uma obra pequena se comparada com tantas outras – contendo apenas 416 páginas – mas de grande impacto capaz de provocar as mais variadas emoções, que eu particularmente, não achei que fosse sentir ao começar o livro. Repulsa, raiva, desconserto, respeito e comoção são só algumas dessas sensações.

Cabul no Inverno
Editora Novo Conceito
Autora: Ann Jones
Ano 2012 – 1° edição
416 páginas

Recomendado:
Confira essa reportagem que demonstra que essas mulheres são espantosamente valetes: Vítimas de ataque de ácido posam como modelo para divulgar marca.

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