13808_ggProfundo, crítico, sucinto e belo. Em minha opinião esses são os principais adjetivos que caracterizam A balada de Adam Henry, de Ian McEwan, publicado pela Editora Companhia das Letras. Trata-se de um belo livro, de forma que me aterei apenas às impressões que dele tive enquanto leitora, e deixarei a análise de lado.

Sobretudo, enquanto romance, é incrivelmente envolvente. A narrativa ágil, diz o que precisa sem lenga-lenga, e nos apresenta como personagem principal uma mulher que não está envolvida em lutas feministas, que não precisa se reafirmar perante às autoridades masculinas que a cercam, que sabe manter uma boa conversa entre homens, que sabe ser. Ela não precisa se preocupar em ser, porque ela é.

Fiona é uma juíza que conquistou sua posição devido a muito trabalho duro e escolhas pessoais que protegeram sua vida profissional. Jack, seu marido, é um professor universitário de Geologia que no entanto está escrevendo sobre Virgílio, que num belo dia resolveu anunciar que ela tinha duas opções: ou devolvesse a vida sexualmente ativa que eles tinham antes, ou permitisse que ele continuasse com ela, e no entanto, também com Melanie, uma especialista em estatística que ele conhecera e por quem se apaixonara, trinta anos mais jovem que Fiona e Jack.

O enredo se equilibra brilhantemente entre a vida pessoal dela, que não anda nada bem, como pudemos perceber, e a vida profissional exitosa dela. É o contraponto perfeito, enquanto um vai bem, o outro vai mal. Como se fosse romper o equilíbrio do mundo as duas partes fluírem em comum acordo.

Fiona trabalha na Vara de Família, decidindo meticulosamente o futuro de montes de famílias, o destino de montes de crianças e heranças, etc. Nada excepcional. O que é realmente excepcional é sua maravilhosa prosa ao redigir uma sentença, sendo amplamente reconhecida por ser imparcial e justa. Trata-se de uma profissional exemplar, que leva muito serviço para casa, que se preocupa de verdade com todos os casos que caem na sua mão. E então Jack aparece, bem no meio da crise da melhor idade dela e solta essa bomba. Como a mulher digna e de classe que ela é, não aceita a segunda proposta. Resignada, vê Jack sair com sua mala, e se sente humilhada, sozinha e perdida.

Acreditem, eu só contei o primeiro capítulo para vocês. É incrível como as coisas acontecem tão inesperadamente nesse livro, e são narradas de forma tão majestosamente sucintas.

Nesse livro você vai encontrar problemáticas do direito inglês, música clássica e jazz, debates sobre religião e sobre sexualidade. É um romance gostosamente contemporâneo, onde uma juíza com sessenta anos tem um smartphone, e manda e-mail e mensagens por ele como qualquer avô e avó mandam hoje. Não sei o que vocês pensam sobre isso, mas não é incrível essa rápida adesão dos mais velhos às facilidades da vida pós-moderna? Vocês não acham sensacional que nossos avós mandem emoticons para nós via WhatsApp?

Nesse romance, estão concentrados todos os assuntos mais quentes da sociologia sobre a pós-modernidade. Como diria nosso narrador, está repleto de muita fofoca e vinho. Separei dois trechos em que eu particularmente me senti tocada, e espero que apreciem:

ian-mcewan“A salvação veio na forma de dois corteses jovens americanos que bateram à porta de Naomi certa tarde. Voltaram no dia seguinte e falaram com Kevin, inicialmente hostil. Por fim, uma visita ao Salão do Reino mais próximo, uma boa acolhida então aos poucos a ordem e a paz chegaram à vida deles graças aos encontros com pessoas simpáticas que logo se tornaram amigas, bem como úteis conversas com os anciãos da congregação e o estudo da Bíblia, que no começo julgaram difícil.”

Explico: Fiona precisa resolver com urgência um caso envolvendo Testemunhas de Jeová, onde uma transfusão resultaria em vida, e a não transfusão em uma morte muito sofrida.

Sem querer dar spoillers, nesse livro você encontrará uma grande questão explicitada em forma de literatura e feita a um mundo onde Deus está desaparecendo. É uma crítica às religiões, mas também uma crítica a um mundo descrente, e como diria Bauman, líquido. Me fez refletir sobre Religião para ateus, de Alain de Botton, que aliás, recomendo fortemente. Seja você religioso ou ateu, esses livros são para você.

Abaixo, mas um exemplo das belas prosa e crítica de Ian:

“Religiões e sistemas morais, inclusive os dela, eram como picos numa majestosa Cordilheira vista muito ao longe, nenhum deles claramente mais alto, mais importante, mais verdadeiro que os outros. Julgar o quê?”

Esse livro me tocou. Estou achando que se trata de literatura engajada. Mas deveria ter lido outros livros dele para ter certeza sobre a forma. Hiiiih, esqueci que não era para ter análise nesse texto…

A balada de Adam Henry
Título original: The children act
Editora Companhia das Letras
Autor: Ian McEwan
Gênero: Romance
Tradutor: Jorio Dauster
196 páginas
ANO (EDIÇÃO): 2014
R$37,90

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2015/01/13808_gg1.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2015/01/13808_gg1-300x264.jpgSue Lobofora das HQsA balada de Adam Henry,Companhia das Letras,Ian McEwan,Jorio DausterProfundo, crítico, sucinto e belo. Em minha opinião esses são os principais adjetivos que caracterizam A balada de Adam Henry, de Ian McEwan, publicado pela Editora Companhia das Letras. Trata-se de um belo livro, de forma que me aterei apenas às impressões que dele tive enquanto leitora, e deixarei...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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