Eu gosto muito de gibi de super herói. Desde criança e aparentemente gostarei sempre. Acho que é o lance de mais mitológico que eu sempre gostei. Certas liberdades que se tem quando se trabalha num mundo em que vestir um homem de colant, capa e cueca por cima da calça são muito grandes, as barreiras se tornam muito elásticas. E olha que eu nem acho o Super-homem um grande personagem.

Mas aí meu velho comprou o Reino do Amanhã, e que coisa fantástica! Comecemos do começo: Que trabalho animal do Marc Waid e do Alex Ross. Um maravilhoso trampo mesmo. Na época eu nem entendi o lance direito, eram os anos 90 e eu estava completamente absorvido por todo aquele esquema dos gibis da época. Foi relendo, já com um pouco mais de senso que foi em caindo a ficha.

Comecemos com a riqueza de pesquisa do Marc Waid: De cara a gente tem Wesley Dodds, o PRIMEIRO Sandman, tendo visões de um apocalipse, mostrando uma guerra que irá devastar o mundo. Uma guerra de deuses, de anjos e de demônios, uma guerra que irá consumir o mundo em fogo. Enfim, o fim do mundo.

Então somos convidados, através dos olhos de um pastor, a entrar nesse universo e nele caminhar, não voar, nem se dependurar em uma corda de seda, apenas caminhar entre os deuses. Nós somos ele, e ele nos representa ali. E acho que aqui a história faz a sua maior e mais bela sacada: Como mostrar o que os super-heróis podem representar? Mostrando exatamente isso: O que os supers podem significar na vida de uma pessoa comum!

É interessante lembrar que isso é dos anos 90, uma época em que todo mundo usa trabucos gigantes, mata a torto e a direito, ou seja: A droga de Era de Silicone (não sei se esse nome é oficial, mas sempre gostei do termo). Dentro daquele contexto, equipes de super-heróis coisas como o Youngblood e o Gen 13 eram considerados legais, e Batman, Super, Mulher maravilha e etc, coisas sem graça e ultrapassadas.

Aí o Mar Waid parou, pensou e falou: Mas espere! Justiça, liberdade, igualdade e beleza estão ultrapassadas? Diversão, fantasia e bom humor estão FORA DE MODA? A gente tem que ser Dark para ser bom? ROB LIEFELD É UM GÊNIO DA RAÇA? Não, não, isso ta tudo errado, tem que estar. Chama aquele menino que curte fazer fotonovela, e vamos começar isso de novo.

Todo o lance da HQ é que aquilo é pura mitologia, e que é para isso que ela serve. O Super só é super se ele for capaz de mostrar que todos podem ser super. Os heróis da DC sempre serão coisas a se almejar ser, modelos mesmo. O Kal L, desde os anos 70, é o cara que sabe o que é bondade; o Bruce o que é vontade; a Diana o que é a força (para ficar apenas na santíssima trindade). Como diria o Emicida: Se o general fraquejar, o soldado vai ser o que? É simples assim. O Super tem que ser algo além, esse é a droga do NOME dele! O Batman não pode ser um assistente social, ele é o vingador! A Mulher Maravilha não é uma gostosa de tanga, ela é A amazona, ela é quase uma Deusa caminhando sobre a Terra.

Uma pausa para o contexto da história em si: Imagina que os heróis clássicos da era de ouro se sentiram, e com razão, inadequados no mundo dos super poderosos dos anos 90, então cada um deles ou se modificou, ou desencanou, ou se transformou: O Aquaman assume que era uma merda como super herói e vira Rei de TODOS os Oceanos da Terra, ou seja, manda em 70% do planeta.

Alan Scot monta uma cidade orbital, a Nova Oa, uma estação policial imensa, Batman está aleijado (anos 90, lembra?) e vigia Gotham como uma sombra comandando uma força de robos; O Flash entrou tanto dentro do Força de Velocidade que simplesmente não pode mais parar, e vigia a cidade de maneira onipresente (E se há mais de uma dimensão no mesmo espaço físico, é obvio que ele está em todas) é a extrapolação máxima da sua super velocidade; Diana fracassou em trazer a harmonia Amazônica para a terra dos homens (obviamente), então sobrou só a guerreira implacável.

Esse é o contexto! Um bando de semi-heróis se capotam nas ruas enquanto os clássicos praticamente desapareceram.

É a partir disso que Waid parte para nos contar o próprio apocalipse! E como ele começa? Na pancadaria de uns caras? Quando o Magog (Quem!?) e sua trupe explode o Kansas? Quando morre o Sandman original? Não meu filho, começa como começará para os Cristãos: Como a segunda vinda do messias! É, chega uma hora que o Super se enche os picuá e resolve parar a palhaçada.

Aí a treta começa de verdade, e sabe por quê? Porque a volta dele é exatamente como está descrita no Apocalipse de João: Não mais como um cordeiro, pregando o perdão, mas como um general liderando um exército, marchando para a Guerra. Aqui reside uma ironia linda dessa história: Para quem conhece a teologia cristã, sabe que o anticristo não é um gótico cheio de maquiagem, mas um grande líder que se levantará, juntará um exército e prometerá paz, mas só trará guerra. E quem que faz isso? O SUPER! Ele tenta, claramente, a paz; mas a cada decisão fica mais clara que ele caminha para a guerra. E a guerra vem, e é implacável!

E quem é o Redentor? O General da Paz? Vocês querem mesmo saber? É o Batman. Desde o primeiro momento que ele aparece, Bruce está pronta pra guerra, em nenhum momento ele promete a paz, em nenhum momento ele promete nada. É a própria voz dos anos 90, niilista até o talo, em nenhum momento Kal El é uma inspiração, mas sim um problema a ser resolvido. E Bruce, muito mais inteligente, político e capaz que o Clark, consegue costurar tudo e põe tudo para PARAR o doido de azul com o S no peito!

Mas espere! Estou falando de uma guerra, de um monte de gente em colantes se capotando uns aos outros, e qual a diferença disso para o que a Image Comics faz? A diferença, meu amigo, é roteiro. Sim, porque aqui as lutas são acontecem quando são necessárias para a história, quando se justifica pelo roteiro. E não para mostrar um monte de gente em pouca roupa para excitar moleques de 13 anos.

O SUPER poderia capotar todo mundo? Bem, em teoria sim, mas e aí? Cadê a história, cadê a graça? É necessário tentar, levar a situações em que o homem mais poderoso da terra fique impotente, inseguro. É necessário por dois grandes amigos juntos, mas separados. Enfim, Reino do Amanhã tem história, o que é mais que se pode dizer da Image Comics.

Não vou me estender mais, não tem porque! A batalha, os meandros, as referências, o destino de alguns Heróis (Ajax, Capitão Marvel, Besouro Azul, Arqueiro, Canário, Rorshach [que caso vocês não lembrem, é da DC SIM!], e mais uma porrada deles.) tudo tem que ser lido em primeira mão dentro do Gibi. A narrativa é linda, a arte do Alex Ross é fantástica, como sempre! Acho que para finalizar, acho que a grande pergunta do gibi é: O que é um super-herói?

Bruno Garciado fundo da estanteAlex Ross,DC Comics,Marc Waid,Reino do AmanhãEu gosto muito de gibi de super herói. Desde criança e aparentemente gostarei sempre. Acho que é o lance de mais mitológico que eu sempre gostei. Certas liberdades que se tem quando se trabalha num mundo em que vestir um homem de colant, capa e cueca por cima da...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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